quarta-feira, 17 de junho de 2009

Mídia e violência

Dados resultantes de pesquisas acadêmicas ou de levantamentos dos órgãos públicos, como as secretarias de segurança ou de organizações não-governamentais, têm indicado o vertiginoso crescimento dos índices de violência no Brasil e no restante do mundo. Diante desse fato, cabe o seguinte questionamento: o que a mídia tem a ver com isso?

O mundo está impregnado de violência nas mais variadas formas: a violência física, a violência do constrangimento moral, a violência do abuso do poder, etc. Embora a mídia cumpra seu papel de informar e esclarecer observa-se também essa mesma mídia como fonte instigadora de violência.
A televisão, por exemplo, denuncia quase diariamente casos de violência. Até aí nada de mais, afinal, isso faz parte do seu papel. Todavia, a própria programação televisiva é, em parte, responsável pelo crescimento da violência, sobretudo porque seus programas abordam a questão sem usar um critério que estimule a reflexão.

A violência tem sido sutilmente estimulada por conta da programação de baixo nível que vem sendo exibida na televisão, com o único intuito de aumentar o IBOPE. E nessa moda de ser sensacionalista, a onda de violência não escapa nem mesmo às emissoras que se dizem religiosas e que professam ser bom exemplo para as famílias cristãs. Temos entre essas a Rede Record que exibe ou exibiu diversos programas sensacionalistas, a exemplo do “A turma do gueto” e outros. Parece que a busca desmedida por audiência faz os programas explorarem cada vez mais a violência como principal atrativo. Chega-se ao cúmulo de se inventar conflitos pessoais, nos quais os envolvidos são estimulados a se confrontarem defronte as câmeras de TV, usando a violência verbal e até física como solução de seus problemas para, dessa maneira, aumentar os pontos no IBOPE, contribuindo, assim, para aumentar também o índice da violência na sociedade.

Se hoje somos obrigados a assistir guerra na TV como se estivéssemos diante de um videogame “irado”, fico pensando aonde vamos chegar após dez anos de exposição a esse tipo de programação. Afinal, qual é o papel da mídia? Será que é correto mostrar e escrever sobre violência sem usar critérios de informação? E qual o papel da sociedade diante da violência e do abuso de poder da mídia, que invade nossas casas, nossas vidas, obrigando-nos a degustar todas as formas de violência que nos são apresentadas nos meios de comunicação? A violência e a morte fazem parte da história humana desde os seus primórdios. Mas ultimamente esses temas vêm sendo tratados nos meios de comunicação e, principalmente, na programação televisiva dos canais abertos, com enorme banalidade. E é exatamente nesse ponto que está o maior e mais nocivo problema. É preciso refletir urgentemente sobre o que é mais importante: os pontos no IBOPE ou o bem-estar da sociedade (por Gina Carla Reis).
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Imagem retirada de sites de busca

segunda-feira, 8 de junho de 2009

Tempo sagrado na minha Bahia

Santo Antônio, conhecido como o santo de Lisboa, por ter nela nascido, e também o santo de Pádua, por ter morrido nessa cidade italiana, é um dos santos mais populares e mais cultuados do Brasil. Batizado com o nome Fernando Martins de Bulhões, Santo Antônio torna-se franciscano por volta de 1220, ocasião em que muda seu nome de batismo. Aos 13 de junho de 1231 faleceu, sendo canonizado logo no ano seguinte. Durante os primeiros treze dias de junho ocorrem em todo o Brasil as trezenas de Santo Antônio, quando milhares de fiéis rezam e entoam cânticos em honra ao santo dos pobres. No Brasil Santo Antônio foi sincretizado com Ogum, Orixá do ferro, dos ferreiros e de todos aqueles que utilizam esse metal: agricultores, caçadores, açougueiros, barbeiros, marceneiros, carpinteiros, escultores. Foi padroeiro de Salvador até 1686, quando, por conta de uma epidemia de febre amarela que assolou a cidade, a população recorreu a São Francisco Xavier, que atendendo as preces dos fiéis foi elevado a patrono da cidade.
(por Sílvio Benevides)
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Imagem: Sílvio Benevides

Santo Antônio: Arauto de Cristo

O vídeo abaixo foi produzido especialmente para homenagear o glorioso Santo Antônio.
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Santo Antônio chega ao Brasil

Quis a Providência divina que o Brasil fosse descoberto por portugueses. Portugueses eram também os missionários e, por sinal, filhos de São Francisco de Assis, de modo que, desde os primórdios, colonos e índios estiveram em contato com a Ordem Franciscana, que se gloria de ser o Taumaturgo [quem opera milagres] um dos seus. Compreende-se que estes missionários propagavam a devoção a Santo Antônio, exaltando o seu poder de intercessão.

Os colonos, por sua vez, traziam na sua modesta bagagem a imagem do Grande Santo compatriota. Colocavam-na no seu tosco oratório e nas lidas pela existência, às vezes cruéis, levantavam as mãos ao Santo milagroso. Enterneciam-se diante da imagem os rudes desbravadores dos matos, os ousados bandeirantes.

Mal acabavam os colonos de fixar residência, juntando-se a outros em pequeno arraial, não tardavam em levantar uma ermida, uma capela em honra do Santo querido e com o tempo ela se transformava em matriz (V. Augusto Lima, A Capitania de Minas).

Quando, em 1745, se criou a diocese de Mariana, existiam nela 51 paróquias. Descontando as de Nossa Senhora (geralmente da Conceição) havia somente 17 de outros Santos, figurando Santo Antônio com 9, não tendo nenhum outro mais de uma.

Caso, porém, não se consagrasse a matriz a Santo Antônio, era obrigatório colocar a sua imagem no altar-mor ou num altar lateral próprio. Refere o cronista franciscano Frei Antônio de Santa Maria Jaboatão que não era raro haver mais de uma no mesmo altar e que nas casas particulares cada um queria para si o “seu” Santo Antônio.

No Rio de Janeiro, então, existia uma espécie de monopólio com relação ao Taumaturgo universal. Quando, em 1608, os franciscanos receberam da Câmara a segunda doação de terreno para fazer Convento, já funcionava uma confraria de Santo Antônio numa capela ao pé do morro. Pois convencionou-se que a confraria se suprimisse e que no futuro não houvesse na terra nem igreja, nem ermida, nem altar do Santo, senão no Convento a construir-se no morro. Era para dar maior incremento (raro, caro) ao culto. Daí vem que até os princípios do século XIX só havia uma igreja antoniana no Rio de Janeiro.

Não eram, entretanto, somente os lugares religiosos onde se tributava veneração ao Santo lisboense. Quiseram os nossos antepassados batizar com seu nome localidades, fazendas, fortalezas, rios, serras, botequins, lojas, boticas, açougues e até Agências do Correio. A respeito destas, soubemos que até há poucos anos existiam no Brasil 705 Agências denominadas de Santo Antônio, sobressaindo o Estado de Minas com 160. Freqüentemente leva o Santo um nome específico. Eis uma pequena, mas pitoresca relação: Santo Antônio da Roça Grande, do Ribeirão de Santa Bárbara, do Rio Acima, do Ouro Branco, da Casa Branca, da Balsa, da Vargem, do Monte, da Estiva, da Barra, da Casa de Sapê, da Casa de Telha, da Glória, da Alegria, e outras muitas.

A devoção do nosso povo a Santo Antônio não diminuiu através dos séculos. Dir-se-ia que cada vez mais aumenta, sinal dos tempos angustiosos que correm e obrigam a implorar a proteção do céu.

Damos em seguida uma breve relação de fatos atribuídos a Santo Antônio, que os nossos antepassados julgavam milagrosos. Colhemo-los em crônicas antigas, livros e manuscritos. É sempre interessante saber que tal ou tais fatos aconteceram na própria pátria.

1540 – Perto do Engenho de João Pais Barreto em Pernambuco, foi achada uma imagem de S. Antônio no alto de um morro. Fizeram-lhe uma capela. Outros moradores aí construíram casas; mas depois de acabadas desmoronaram. Tempos depois, uma devota fez no mesmo lugar uma casinha para estar mais perto no tratar da capela. Certa noite apa¬receu um vulto, lançando-a para fora. Dizia o povo: S. Antônio não quer vizinhos.

1595 – Tomando os franceses calvinistas a fortaleza de Arguim, na África, e destruindo tudo, conservaram a imagem de Santo Antônio. Colocaram-na num dos navios e diziam com ar de mofa: “Guia-nos, Antônio, guia-nos à Bahia!” Na travessia escarneceram com a imagem e cometeram muitos sacrilégios. Aconteceu, porém, a maior parte da tripulação morrer de doenças e todos os navios se dispersarem, menos aquele com a imagem, o qual chegou à costa do Brasil. Aí jogaram a imagem toda desfigurada na praia. Quando depois foram aprisionados e tiveram de andar a pé até à Bahia, encontraram a imagem em pé na areia, sem se descobrir vestígio de alguém ter por aí passado. A imagem foi recolhida à Bahia e Santo Antônio declarado Padroeiro da cidade. Ainda vive na Bahia a lembrança de “Santo Antônio de Arguim”.

1621 – No Convento do Rio, incumbiu-se um Irmão de fazer a imagem do santo Padroeiro, mas não acertava com a cabeça. Um belo dia ela apareceu na portaria, sem se saber donde tinha vindo. Esta imagem, com a cabeça separável, ainda existe num nicho na entrada do Convento.

1640 – Quando, em 1640, os ocupantes franceses e holandeses se aproximaram da ilha de Boipeba, ao sul da Bahia, nada tinham os moradores para se defender. Recorreram a Santo Antônio, orago da matriz, fecharam-na e foram observando a princípio o movimento do desembarque, daí a pouco viram o contrário. Ficaram livres sem atirar uma só flecha. Voltando à matriz encontraram a imagem de bruço diante de Jesus crucificado, como pedindo proteção. A ele, portanto, atribuíram o feliz desfecho.

1643 – Neste ano os holandeses ocuparam o reduto da “Casa Forte” de Pernambuco. Destruíram também a capela de Santo Antônio e caíram com golpes sobre a imagem. Como se ti¬vessem aberto chagas em carne viva, a imagem deitou sangue.

1645 – Na invasão holandesa foi ocupado também o Convento de Ipojuca. Expulsando os frades, transformaram o claustro em estrebaria. Ora, diversas vezes foi visto um Religioso, que, penetrando o claustro, com uma vara fustigava os cavalos e os enxotava para fora, em direção a Recife. Era Santo Antônio, que com sua atitude mostrava o que havia de acontecer em breve. O Convento realmente foi um dos primeiros a ser libertado quando começou a campanha da restauração.

1646 – Ia-se festejar a Santo Antônio em sua capela, quando, durante a noite, caiu o dossel de pano, colocando-se dobradinho aos pés da imagem. Tomaram isto como sinal do Santo que deviam arrumar as suas coisas e fugir. Fizeram-no e foi a salvação, porque na mesma noite o comandante holandês atacou com grandes forças toda aquela vizinhança. Achou somente casas abandonadas e não conseguiu prender o chefe da restauração Fernandes Vieira, a cujo encalço estava.


1650 – Em São Paulo ofereceram a Frei Gregório, esmoler, um boi bravo. Todos lhe tinham medo. Frei Gregório chamou-o em nome de Santo Antônio e o boi veio mansinho e acompanhou o frade ao pasto do Convento.

1708 – Na guerra chamada dos “Emboabas”, os paulistas eram sempre vencedores e não quiseram aceitar as condições que os portugueses ofereceram para se render. Estes então tentaram a última investida perto de São João del-Rei. Na muralha de seu fortim colocaram a imagem de Santo Antônio. Saindo na manhã do outro dia para dar combate aos paulistas, não encontraram a ninguém. Na imagem de Santo Antônio descobriram uma bala engastada no cordão.

1710 – Santo Antônio, cuja imagem esteve colocada na muralha do Convento, defendeu o Rio de Janeiro contra os franceses, o que lhe valeu a patente de Capitão de Infantaria.

1750 – Estando o grande missionário franciscano Frei Antônio do Extremo a andar a sós no interior de Mato Grosso, viu-se um dia cercado de uma vara de javalis. Na aflição recorreu a Santo Antônio, rezando o Responso. O efeito foi imediato. Um porco trincou-lhe a ponta da manga, deu uma dentada na caixa de rapé e foi-se e com ele todos os outros.

1750 – Num dos lados de uma ponte em Recife existia a imagem do Taumaturgo e uma caixinha de esmolas. Um dia foi violada por um soldado que se apossou de 480 réis. Querendo fugir, ficou imóvel, nem conseguiram fazê-lo andar os que depois passavam. Moveu-se, porém, recebendo ordem do Governador, que o mandou encarcerar e o remeteu para a ilha de Fernando de Noronha.

Nos seguintes Estados do Brasil, Santo Antônio tem patente de oficial do exército: Paraíba, Pernambuco, Bahia, Espírito Santo, Minas, Rio de Janeiro, São Paulo, Goiás. Recebia antigamente também o soldo correspondente. Era uma esmola que entregavam geralmente aos Conventos Franciscanos para o culto do Santo, em agradecimento pela proteção que dispensava a suas armas.

Em 1754, o Senado da Câmara da Vila de Igaraçu (Pernambuco) pretendeu até fazer Santo Antônio vereador, com a propina de 27.000 réis. O rei não consentiu, mas autorizou que se desse ao Convento Franciscano da localidade a dita propina (por Frei Basílio Röwer).
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Referência: RÖWER, Basílio. Santo Antônio: vida, milagres, culto. Petrópolis: Vozes, 2001.
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Imagem: Sílvio Benevides

Dos escritos de Santo Antônio

“Já que a caridade é mais importante do que as outras virtudes, procuremos pôr em evidência alguns dos seus aspectos [...] O amor para com Deus e o amor para com o próximo são a mesma forma de amor, porque Deus é caridade, isto é, Amor. Este mandamento do amor, segundo o qual deves amar a Deus por ser quem ele é e de todo o coração e ao próximo como a ti mesmo, foi determinado por Deus e deves praticá-lo com a mesma intenção e pelo mesmo motivo pelo qual tens de amar a ti mesmo. Deves amar a ti mesmo dentro do bem e por causa de Deus; o mesmo deves fazer em relação ao teu próximo. E deves considerar como teu próximo todo e qualquer ser humano, porque não existe nenhum com o qual se possa proceder mal. o Como é que se deve amar a Deus? Assim: Amarás o Senhor teu Deus de todo o coração, isto é, com toda a inteligência; com toda a alma, isto é, com a tua vontade; com toda a mente, isto é, com a memória, de maneira que concentres todos os pensamentos, toda a vida, toda a inteligência naquele do qual recebes o que lhe ofereces. Com o que acabou de dizer, Jesus não deixou livre, então, nenhuma parcela da nossa vida: tudo o que nos vier à mente deve ser dirigido para onde corre o impulso do nosso amor. São João, na sua primeira carta sobre o amor a Deus e ao próximo, nos apresenta muitas reflexões e nos convida a praticá-lo, dizendo: ‘Nisto se tornou visível o amor de Deus entre nós: Deus enviou o seu Filho único a este mundo para dar-nos a vida por meio dele’ (1Jo 4,9). Como foi grande o amor do Pai para conosco! Ele enviou para nós, para nos favorecer, o seu Filho unigênito, para que, vivendo por meio dele, também o amássemos. Porque ‘quem não ama, permanece na morte’. Se Deus nos amou a tal ponto que nos deu seu Filho dileto, por meio do qual tudo criou, também nós devemos nos amar mutuamente. ‘Eu dou a vocês um mandamento novo: amem-se uns aos outros’ (Jo 13,34)”

(In: Sermones I, pp. 397-398).
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Imagem: José Costa

segunda-feira, 1 de junho de 2009

A copa 2014 é nossa! E agora, Salvador?

Ontem a FIFA anunciou as doze cidades brasileiras que serão sedes dos jogos da Copa do Mundo de 2014. São elas: Belo Horizonte, Brasília, Cuiabá, Curitiba, Fortaleza, Manaus, Natal, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo.

Na terra do Senhor do Bonfim o anúncio foi comemorado no Pelourinho, com direito a show das bandas do Oludum e do Ilê Ayê; e também na partida entre Vitória e Grêmio pelo Campeonato Brasileiro no Barradão, com a participação da Ivete Sangalo e do Tatau, ex-Araketu. Depois da comemoração o que nos resta? Muito trabalho e algumas reflexões.

Como diz o Lucas Franco em seu blog Grande do Brasil nada mal para nosso ego saber que a cidade que gostamos atrairá os olhares de muita gente durante algum tempo. Bom também saber que ela ocupará para sempre um lugar na história do futebol internacional, principalmente se alguma partida aqui realizada passar “a ser rotulada de A batalha de Salvador”, tal qual “foram rotuladas de batalha de Berna em 1954 e batalha de Nuremberg em 2006”. Tudo isso é muito bom, mas é preciso considerar outras questões.

Salvador é uma cidade que tem graves problemas de infra-estrutura, desde saneamento básico até segurança pública, passando por transporte, saúde e preservação das ruas e avenidas. Sem falar na incompetência dos nossos dirigentes e na corrupção política e de toda ordem que se materializa na forma de obras superfaturadas que, por sua vez, geram atrasos exaustivos de cronograma como aqueles do metrô, motivo de chacota de toda espécie. São grandes as providências e os problemas. Estaremos preparados para enfrentá-los e superá-los? Um evento do porte da copa do mundo atrairá, sem dúvida, grandes investimentos e a cidade ganhará muito dinheiro com isso. Os recursos gerados com a festa se reverterão, de fato, em benefícios para a população da cidade? Ou acontecerá como o carnaval, uma festa que gera bastante recurso para Salvador, mas estes, na prática, pouco (ou nada) acrescentam para a melhoria da vida cotidiana de milhões de soteropolitanos. Que opção faremos: seremos vitrine ou vidraça? É o que pergunta o dossiê elaborado pelo Sinaenco – Sindicato Nacional da Arquitetura e Engenharia. De acordo com o Portal Copa 2014, “Os desafios começam em problemas triviais, como o abominável hábito nacional de despejar o lixo nas ruas, ou usá-las como sanitários púbicos, até o atraso nacional na área de estradas, aeroportos transportes públicos, energia, telecomunicações ou saneamento. Os problemas envolvem questões de educação, segurança, saúde e, especialmente, as dificuldades de algumas cidades para manter os futuros estádios e evitar que se transformem em elefantes brancos”. Os questionamentos e desafios estão postos. E agora, Salvador? (por Sílvio Benevides).

segunda-feira, 25 de maio de 2009

Quer andar de trem “véio”, amor? Então venha!

A nota abaixo foi publicada na revista Exame (Edição 942 – 15/05/2009). Qualquer semelhança será mera coincidência?

As locomotivas viraram sucata – Este é mais um dos exemplos gritantes de desperdício de dinheiro público. Estão encaixotadas num depósito da antiga Rede Ferroviária Federal, em Campinas, 68 locomotivas importadas da França em 1976. É isso mesmo: há mais de 30 anos, esses trens foram comprados e nunca foram montados. Eles faziam parte do Plano de Eletrificação da Fepasa, ferrovia paulista que depois foi incorporada à rede nacional. Na época, a crise do petróleo impulsionou a busca de energias alternativas para a movimentação de cargas. E, com o baixo custo da energia elétrica nos anos 1970, surgiu a ideia de eletrificar o trecho ferroviário que ligava Ribeirão Preto, Campinas e Santos. O plano não saiu do papel, mas o dinheiro para implantá-lo sim. Foram gastos 500 milhões de dólares na aquisição das locomotivas e da infraestrutura das subestações elétricas. Hoje, mais de três décadas após o malfadado plano, as máquinas praticamente viraram sucata. As 68 locomotivas são parte do inventário da Rede Ferroviária Federal — extinta após a privatização — e serão transferidas para o Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte. O órgão será responsável por dar destino às máquinas francesas — provavelmente um ferro-velho (por Fabiane Stefano).

Não sei não, mas penso que o famoso metrô de Salvador está a percorrer esses mesmos trilhos. Tudo nos leva a crer nessa premissa. Obras constantemente embargadas e paralisadas por suspeita de superfaturamento e irregularidades no repasse de verbas; trabalhos que se arrastam ad infinitum sem nenhuma perspectiva de conclusão e se forem concluídos não terão cumprido sequer a metade do que foi inicialmente planejado, previsto, orçado e prometido. Enquanto isso os trens já aportaram na cidade e estão em algum galpão a caminho de virarem sucata. Como já disse o Caetano Veloso, já citado em outro post sobre o mesmo tema, “aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína”. Mas tudo bem! Estamos em Salvador e como todos sabem Salvador é uma festa! Uma cidade única com uma única alegria! Que beleza, que maravilha! Quer andar de trem “véio”, amor? Então venha! (por Sílvio Benevides)
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Foto: Aristeu Chagas/AGECOM

segunda-feira, 18 de maio de 2009

Coisas da Política – O Brasil e seu futuro

A despeito dos grandes pensadores brasileiros que atuam e atuaram nas diversas áreas do conhecimento e das artes nacionais, o Brasil ainda vive sob uma forte e persistente dependência intelectual. A academia brasileira, em geral, e a baiana, em particular, continua a repetir idéias e teorias francesas, inglesas, alemãs e estadunidenses como se os pensadores desses países fossem o único norte possível do pensamento humano (isso também ocorre com as artes, embora em menor grau). Alguns intelectuais brasileiros chegam até a sugerir para seus orientandos uma escala de hierarquização intelectual, na qual os autores mais importantes (sempre os franceses, ingleses, alemães e estadunidenses) devem ser o referencial teórico principal e, por isso mesmo, os obrigatoriamente citados. Agindo dessa maneira, acabam por transformar a academia não em um espaço onde se deve estimular o desenvolvimento de um pensamento crítico e autônomo, mas em um lugar onde papagaios são bem adestrados. O texto abaixo, de autoria do Mauro Santayana, é uma reflexão bastante lúcida sobre o Brasil e o seu papel no mundo contemporâneo. Para nos tornarmos “gigantes pela própria natureza”, como apregoa o nosso hino nacional, precisamos, antes de tudo, conquistar nossa independência mental e intelectual, “expressão maior da soberania de um povo”. Não podemos ficar ad infinitum reproduzindo esquemas teóricos que não refletem nossa realidade. Precisamos erigir uma teoria (ou teorias) genuinamente brasileira, que reflita o nosso jeito de ser e de entender o mundo, afinal, interpretar o mundo a partir do lugar que ocupamos é o que define a inteligência de uma gente. Estou farto de ouvir depreciações insanas ou ufanismos tolos sobre o Brasil. Se nós fomos capazes de conquistar nossa independência político-administrativa no século XIX, podemos perfeitamente conquistar nossa independência intelectual no século XXI. Como escreveu o Milton Nascimento “ficar de frente para o mar, de costas pro Brasil não vai fazer desse lugar um bom país”. Está mais do que na hora de nossas artistas, intelectuais e políticos perceberem isso. Abaixo a papagaiada! (por Sílvio Benevides).

Eis o texto do Mauro Santayana:

No ‘Ensaio para uma teoria do Brasil’, publicado em 1966 – e agora reproduzido em livro (Comunidade brasileira e outros ensaios, Editora da Fundação Alexandre de Gusmão, 2009), o filósofo Agostinho da Silva fez correção dialética à ideia de que o Brasil é o país do futuro. O pensador português, que aqui viveu muitos anos, mostra que a profecia antiga partia da suposição de que esse futuro seria atingir os módulos de civilização dos países ricos e centrais. Agostinho pensava o contrário. Já então, ele entendia que a civilização europeia, com sua projeção atlântica, entrara em decadência. O Brasil é, sim, o país do futuro, mas do futuro que a sua sociedade criará, com liberdade, tolerância e fraternidade.

“O que nos interessa, agora, é realmente o problema do Brasil e da sua capacidade de liderar o futuro humano, quando se desembaraçar de tudo quanto lhe foi inútil na educação europeia e exercer, com o esplendor e a vigorosa força de criação que pode demonstrar, as suas capacidades de simpatia humana, de imaginação artística, de sincretismo religioso, de calma aceitação do destino, da inteligência psicológica, de ironia, de apetência de viver, de sentido da contemplação e do tempo” – escreveu há 43 anos. Mesmo sob o látego do golpe militar, essas qualidades plurais do povo brasileiro eram evidentes. Esperava-se – e Agostinho também – que a arbitrariedade seria passageira, e o país retornaria logo à normalidade. Não poderia imaginar que, ao durar tanto, a ditadura deixaria sequelas terríveis na alma nacional.

Embora com todas as dificuldades que enfrentamos, o Brasil parece voltar a ser o país do futuro, não o futuro que então, e aqui, se imaginava. O texto de Agostinho é mais atual do que antes. Nós nos desviamos de nosso destino quando deixamos de inventá-lo. O culto à Europa e aos Estados Unidos, que teve o seu momento mais caricatural na passagem do século 19 para o 20, e se exacerbou grotescamente com o neoliberalismo, vem resistindo à lógica. Passamos a importar todos os modelos de fora, dos automóveis de luxo aos processos de administração pública, neles incluídas as leis, do sistema universitário às crises bancárias, da euforia dos cartões de crédito ao consumo de drogas.

Estamos diante da grande oportunidade de encontrar caminho próprio. O conceito do Brasil cresce no mundo, talvez porque seja, no imaginário da inteligência, o terreno – físico e espiritual – destinado a nova revolução histórica. É certo que, para isso, ele está sendo obrigado a fortalecer sua economia. Mas há, além do crafty power, com que a Newsweek o qualificou em matéria de capa, outras condições alentadoras. O Brasil, com sua biodiversidade, é o mais importante espaço para as pesquisas que contenham o aquecimento global e permitam também o usufruto da natureza sem lhe causar dano. Para isso, os transgênicos devem ser contidos a tempo. A Comissão Técnica de Bio-Segurança, ao permiti-los, está na contramão da lucidez.

A expressão maior da soberania de um povo é a independência mental. Não podemos, a pretexto de que já se inventou a roda, deixar de buscar outros meios de deslocamento. Somos chamados a ousar, se queremos aproveitar a oportunidade histórica. Ousar na reinvenção do Estado, nas pesquisas científicas e na criação de novos modos de convivência social, que sejam solidários e dinâmicos. Chegou o momento de romper com esse modelo de civilização que já se esgotou na História. Os países que sofreram a opressão do sistema, se souberem unir-se, poderão mudar o mundo. Nossa diplomacia, ao respeitar a autodeterminação dos outros, conquista amigos e não causa ressentimentos. A Espanha, orgulhosa de seu passado, tem sido muito arrogante, tratando com desprezo não só os viajantes da América Latina como os governantes hispano-americanos, como foi o caso de Duhalde, da Argentina, e Chávez, da Venezuela. Hoje, se esfalfa, buscando o apoio de nosso continente para ter assento no G-20, embora sem credenciais econômicas para tanto.
O passado é uma referência, mas não pode ser fardo a ser arrastado na escalada do tempo. Apesar do negativismo de alguns, o Brasil está em seu grande momento, e não pode perdê-lo. Daí a importância da reflexão de Agostinho da Silva: para fazer o futuro, devemos inventá-lo, com a alegria, o espírito universal de solidariedade, a inteligência criadora e a necessária consciência de que todos os brasileiros têm direito aos mesmos benefícios da civilização (por Mauro Santayana).
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Imagem: Mapa do Brasil

segunda-feira, 11 de maio de 2009

Ó têmpora! Ó mores!

Na última terça-feira 05 de maio Salvador parou. O intenso temporal que desabou sobre a cidade derrubou árvores, abriu buracos, botou abaixo morros e casas e fez transbordar canais, rios e diques que alagaram ruas e avenidas potencializando o caos do já caótico trânsito da nossa feliz urbe. O saldo de tudo isso: oito pessoas mortas. Duas delas afogadas e seis soterradas. Não vou falar dos prejuízos econômicos porque esses, por maiores que sejam, podem ser revertidos. É verdade que na maioria dos casos a duras penas. A despeito das dificuldades, há uma possibilidade, ainda que remota. O mesmo não pode ser dito em relação às vidas que se foram para sempre.
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A quem cabe a culpa de tudo isso? A São Pedro, diriam os homens cínicos que se acham capazes de governar nossa cidade, afinal, choveu em um dia o previsto para chover em um mês inteiro, ou quase isso. Acontece que as chuvas são um fenômeno natural. Elas chovem e choverão quer nós queiramos ou não. Culpá-las pelo caos que se transformou Salvador na semana passada seria o mesmo que culpar o galo pelo término da noite. O fato é que estamos a pagar o preço por termos eleito políticos ineptos que concebem a política tão somente como algo imediatista.
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Como já comentei na postagem Sobreviver é cuidar do porvir a política que se faz no presente deve estar voltada para o futuro. Essa idéia é da filósofa alemã Hannah Arendt, mais uma vez citada nesse blog. Segundo ela, “um espaço público não pode ser construído apenas para uma geração e planejado somente para os que estão vivos”, ou seja, planejado apenas para atender às necessidades presentes. Não estou afirmando que o presente deva ser ignorado. Não é isso! Mas o presente deve ser construído e planejado visando o futuro. Só dessa maneira se pode avançar.
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O que aconteceu em Salvador na última terça-feira ilustra bem essa questão. O caos da nossa cidade não foi provocado pelas chuvas. Na verdade, as chuvas apenas revelaram o caos no qual há muito tempo os soteropolitanos estão submersos. As autoridades municipal e estadual passadas e presentes pouco ou nada fizeram para que o caos do dia 05/05 não tivesse acontecido. Refiro-me, principalmente, a uma política pública habitacional que não privilegie somente os empreendimentos de luxo, mas, sobretudo, empreendimentos populares que ofereçam segurança àqueles que se arriscam em morar a beira de precipícios (assim também se trabalha em prol da contenção de encostas); a uma política pública de preservação ambiental (assim também se previne temporais intensos e seus efeitos nefastos); a uma política pública educacional que conscientize a população da importância de não se jogar lixo nas ruas, encostas, canais, rios, etc. (assim também se previne o entupimento das vias por onde as águas da chuva devem escoar), entre tantas outras iniciativas. Isso é trabalhar no presente visando o futuro.
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O que se deve perguntar é o seguinte: quais providências as autoridades municipal e estadual estão tomando para que no próximo ano essas tragédias não se repitam? Creio que pouco, muito pouco, a julgar pela declaração do presidente da Câmara Municipal, vereador Alan Sanches (PMDB), feita “na manhã de domingo, dia 10, na Catedral Basílica, durante a secular celebração ao santo protetor dos soteropolitanos”, segundo informou a Assessoria de Comunicação da Câmara de Vereadores. Para o vereador, só nos resta apelar para o padroeiro da cidade, São Francisco Xavier. Em suas palavras, “a sociedade conclama mais vez para que o padroeiro de Salvador e da Câmara, São Francisco Xavier, interceda neste momento difícil vivido por nossa cidade”. Então é isso? Devemos esperar que São Francisco Xavier interceda por nós? E quanto ao Ministro Gedel Vieira Lima? Acaso não é ele o homem das obras da integração nacional?
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Já o Governo Estadual e a Prefeitura de Salvador estão fazendo sua parte. Como se pode ver nas campanhas publicitárias de ambas as instâncias governamentais, assim como o Ministro Gedel Vieira Lima, nossa autoridades executivas estão a obrar muito, tanto na capital quanto em todo o Estado da Bahia. Estão a obrar em todo lugar. Talvez seja por isso que estejamos em tão boa situação. Sugiro que nossas autoridades parem de obrar na nossa cidade, no nosso Estado e no nosso país e passem a governar. Governar o presente para construir um futuro menos caótico na pior das hipóteses (por Sílvio Benevides).
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Imagens: Márcio Farani, Arestides Baptista (Ag. A TARDE) e Fernando Vivas (Ag. A TARDE)

segunda-feira, 4 de maio de 2009

Vitória Tricampeão!

Existe uma diferença entre ser vitorioso e ser derrotado. Os derrotados são aqueles que vivem do passado porque têm apenas o passado para seguir e cultivar. Talvez por isso não saibam perder, já que cada derrota lhes traz a certeza de que o futuro não existe para eles. No último domingo o primeiro e único Esporte Clube Vitória consagrou-se tricampeão baiano superando todos os obstáculos, de chuva forte a mau agouro. Campeão absoluto do novo milênio (seis taças em sete campeonatos estaduais), o Vitória é um time vitorioso porque vitoriosos são aqueles que vivem de glórias futuras, pois o futuro lhes espera de braços abertos (por Sílvio Benevides).

Vitória busca empate contra o Bahia e conquista o tri

O Vitória fez festa. Após uma partida suada, o time rubro-negro de Salvador comemorou o tricampeonato baiano mesmo com um empate por 2 a 2 no clássico Ba-Vi com o arquirrival Bahia. Em um jogo de superação, o atacante Neto Baiano e o meia Ramón foram os heróis deste domingo, marcando os gols do título para o Leão no Barradão.

Como teve melhor campanha ao longo da primeira fase e venceu a partida de ida por 2 a 1 no Estádio Pituaçu no último domingo, o time comandado por Paulo César Carpegiani tinha o direito de perder por até um gol de diferença para ainda assim renovar o título estadual. No entanto, o Bahia virou o intervalo como campeão com uma vitória parcial por 2 a 0, com gols de Reinaldo Alagoano e Ávine. Até que Neto Baiano, então apático no jogo, resolveu aparecer e marcar aos 19 minutos do segundo tempo. Por fim, o veterano Ramon, aos 43, encerrou o Baianão cobrando pênalti e confirmou o tri do Vitória.

Neto Baiano, além de ver o clube se sagrar tricampeão, conquista o prêmio de maior goleador do Campeonato Baiano. O atacante marcou 18 gols, com muita sobra para o segundo artilheiro da competição: Robert, que fez 13 a serviço do Atlético de Alagoinhas. Com a conquista deste domingo, o Vitória – que iniciou o ano treinado por Vagner Mancini, hoje no Santos – mantém a hegemonia estadual. Com esta taça, são seis nos últimos sete Campeonatos Baianos – apenas o Colo Colo de Ilhéus impediu em 2006 uma soberania ainda maior. Já o Bahia aumenta o jejum, uma vez que não vence o torneio desde 2001 (Fonte: Gazeta Press).
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Foto: Agência Estado