segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Carnaval 2012: O obscurantismo vence a saúde pública




Em 2011, para cada 16 homossexuais de 15 a 24 anos vivendo com HIV/aids, havia 10 heterossexuais. Em 1998, essa relação era de 12 para 10. Um aumento de 10,1% entre os gays de 15 a 24 anos ao longo dos últimos 12 anos. Já a porcentagem de casos na população heterossexual da mesma idade caiu 20,1%.

Daí o Ministério da Saúde (MS) ter decidido que um foco prioritário da campanha de prevenção de HIV/Aids no Carnaval 2012 seria o jovem gay. A campanha completa, com peças publicitárias destinadas também ao público heterossexual, foi lançada em 2 de fevereiro na quadra da escola de samba da Rocinha, no Rio de Janeiro.

Na cerimônia, foram exibidos os quatro vídeos que seriam veiculados na TV, sendo três antes do Carnaval e um após. Uma campanha muito bem-feita, sensível, inteligente, moderna, criativa, bem-humorada, sedutora, passava a mensagem de forma adequada.

No dia seguinte, 3 de fevereiro, eles foram colocados no site do Departamento de DST, Aids e Hepatites Virais do próprio Ministério da Saúde, inclusive o com dois rapazes numa boate. Ficou lá quatro ou cinco dias, quando foi retirado do ar por determinação do ministro da Saúde, Alexandre Padilha. Militantes, movimentos e ONGs de AIDS chiaram: o governo censurou o vídeo anti-aids para gays.

O Ministério da Saúde nega o veto. “Esse vídeo não é para TV nem para internet; foi postado por engano. É para ser veiculado apenas em ambientes fechados, como boates”, disse a esta repórter na quinta-feira, 9 de fevereiro, o coordenador da Assessoria de Imprensa, o jornalista Leônidas Albuquerque. “O vídeo para TV está em fase final de produção.”

Como repórter especializada na área de saúde há 30 anos, acompanho a epidemia de HIV/aids desde os anos 80. Já vi muitas campanhas de prevenção da transmissão sexual do HIV/aids e garanto: o novo filme é medíocre, só pra cumprir tabela; é uma das piores campanhas de carnaval já vistas em toda a história do programa de aids brasileiro. Esse filme me faz lembrar matérias do gênero “não vai faltar peixe na Semana Santa”, que são exibidas todo ano. A rigor, nem precisariam ser feitas novamente. Elas “vão sozinhas” para a TV. O filme para TV da campanha do Ministério da Saúde para o carnaval deste ano, também.

“Esse vídeo burocrático, sem criatividade, apenas com dados do boletim epidemiológico, feito de improviso, a toque de caixa, só comprova que houve censura e veto à campanha original”, denuncia Mario Scheffer, ativista da luta contra a aids e presidente do da luta contra a aids e presidente do Grupo Pela Vidda-SP (ONG aids fundada em 1989). “A censura imposta ao vídeo original é clara demonstração de discriminação e violação aos direitos dos homossexuais, população altamente vulnerável à infecção pelo HIV e que demanda, portanto, campanha de saúde pública de grande alcance. Essa discriminação imposta aos gays, dentro do próprio governo, é co- responsável pelo crescimento da epidemia nessa população”.

“O Ministério da Saúde se rendeu à patrulha religiosa dos fundamentalistas e aos conservadores de plantão da base aliada que tanto influenciam as decisões governo hoje”, afirma Scheffer. “No ano passado, aconteceu a mesma coisa. A campanha do Ministério da Saúde prevista para 1 de dezembro, Dia Mundial de Luta Contra a Aids, iria abordar os jovens gays. Mas o tema foi ‘abortado’, dando lugar a uma campanha genérica sobre preconceito.”

Mario Scheffer não fala apenas como ativista. Tem expertise em Saúde Pública e Comunicação; é sanitarista, pesquisador na área e pós-doutor em Ciências pela Faculdade de Medicina da USP. “A abordagem não pode estar restrita a peças especificas para guetos, como quer o ministro Padilha ao veicular o vídeo só em locais de freqüência gay”, argumenta. “A divulgação em larga escala do filme abordando gays e prevenção do HIV é importantíssima, porque ele enfrenta um problema de saúde pública que estão jogando pra debaixo do tapete.” Primeiro, porque jovem gay “não existe” socialmente. Jamais uma pesquisa vai trazer quantos jovens se declaram homossexuais. Ao se referir à adolescência, os testemunhos de gays adultos quase sempre evocam sentimentos que eram marcados pelo silêncio e incertezas. Segundo, porque no momento em que a sociedade toma conhecimento, via mensagem sensível, mas realista da realidade homossexual, o jovem gay confronta-se com a construção íntima de sua identidade. A auto-estima é um passo importantíssimo para a prevenção eficaz. Por tudo isso, o Fórum de ONGs Aids de São Paulo, que já havia repudiado o veto ao vídeo, decidiu denunciar internacionalmente a conduta do governo do governo brasileiro, que viola os direitos humanos dos homossexuais à prevenção. “Ao mesmo tempo”, acrescenta Mario Scheffer, “faremos uma representação ao Ministério Público Federal, para que seja apurada a conduta discriminatória do governo federal, bem como o desperdício de recursos públicos com a produção de uma campanha sem a devida veiculação em canais adequados.”

Em tempo: matéria publicada nesta terça-feira pela Folha de S. Paulo dá a versão de que o veto ao filme destinado aos jovens homossexuais seria da presidenta Dilma, que também teria barrado o do elefante. Diz que teria gostado apenas do vídeo na praia, destinado ao público heterossexual. Independentemente de quem tenha vetado, uma coisa é certa: o obscurantismo venceu a saúde pública (por Conceição Lemes).

Imagens: Ministério da Saúde do Brasil

terça-feira, 14 de fevereiro de 2012

Mais uma vez: Triste Bahia!

Finda a greve da Polícia Militar baiana e o retorno ao suposto estado de normalidade (?!) cabe refletir sobre o acontecido. Fiquei a pensar sobre o que e como escrever a respeito. Pensei, li e achei o texto abaixo que expressa tudo aquilo que senti frente ao referido episódio, isto é, indignação. Indignação pelo falo de o Estado da Bahia ser governado por dirigentes ineptos; indignação por ver funcionários públicos, responsáveis pela segurança pública e por salvaguardar a lei, agindo como bandidos covardes ora ameaçando a população com atos de vandalismo torpe ora usando crianças e mulheres grávidas como escudo humano só para medir forças com o governo, levando-nos a crer se tratar de uma greve com fins “politiqueiros”, pois uma greve de verdade, aquela voltada para atender aos interesses da categoria que a deflagra, não se faz com ações que beiram o terrorismo (por Silvio Benevides).

Greve não se faz contra a cidadania – O direito irrestrito à greve não dá a nenhuma categoria permissão para aliar-se a bandidos ou insuflar a criminalidade, fazendo do pânico e da insegurança da população uma carta manchada de sangue na mesa de negociações.

Qualquer greve, mas, sobretudo, aquelas de categorias ligadas ao serviço público e dentro dele, em especial, os segmentos da saúde e da segurança, perde sua legitimidade, não apenas sindical, mas política e democrática, ao manifestar desprezo e descompromisso com a sorte e o destino de milhões de pessoas, sobretudo os mais humildes que tem apenas a esfera pública como abrigo de vida e direitos.

O PT, corretamente, sempre apoiou os movimentos grevistas ancorados em justas reivindicações salariais ou laborais. Não teria motivo para discriminar os trabalhadores das corporações policiais, desde que em mobilizações pautadas pelo discernimento da singularidade pública que os distingue [...] Sendo a expressão da sociedade existente, o poder de Estado caminhará sempre no meio fio entre a defesa do privilégio que representa e as pressões sociais destinadas a ampliar a prerrogativa democrática no comando das políticas públicas e na gestão da riqueza social. Avançar nesse sentido hoje na Bahia significa restituir o monopólio democrático da força ao Estado e devolver a segurança à sociedade, resgatando valores e regras que formam os laços da convivência compartilhada.

O que se anunciou como uma greve salarial – repita-se, em princípio, legítima – transfigurou-se no avesso do que deve ser o compromisso histórico número um dos trabalhadores, de seus sindicatos e dos partidos que os representam: defender a democracia e combater a desigualdade, fazer de sua luta e de sua emancipação uma conquista de toda a sociedade (por Saul Leblon para Carta Maior).

Imagem: Egi Santana

Torpeza, nada mais!

Diante do ocorrido com a adolescente de quinze anos Eloá, que há três anos foi mantida em cativeiro no apartamento onde morava com a família na cidade de Santo André, interior de São Paulo, pelo ex-namorado que insistia em reatar o namoro, apesar da recusa da menina, cabe perguntar: é possível alguém seqüestrar, ameaçar e matar alguém com um tiro na cabeça e depois alegar amor ou paixão?

De acordo com o dicionário a palavra amor significa uma forma de interação psicológica ou psicobiológica entre pessoas, seja por afinidade imanente, seja por formalidade social. Também pode ser entendida como uma atração afetiva ou física que, por conta de certas afinidades, uma pessoa manifesta por outra. Outrossim, o amor é uma forte afeição por outra pessoa, nascida de laços de consangüinidade (parentes) ou de relações sociais (amigos). O amor pode significar ainda uma atração baseada no desejo sexual ou uma afeição e uma ternura sentidas pelos amantes, isto é, aqueles que se amam. Por fim, com a palavra amor designa-se a relação intersexual, quando essa relação é seletiva e eletiva, sendo, por isso, acompanhada por amizade e por afetos positivos, como a solicitude, a ternura, etc.

Já a paixão pode significar um sentimento, gosto ou amor intensos a ponto de ofuscar a razão. Assim, pode ser entendida como um grande entusiasmo por alguma coisa, atividade ou hábito. De qualquer maneira, trata-se de um vício dominador. Mas falar de paixão implica em gerar polêmicas, pois ela suscita diferentes interpretações e sentidos, sobretudo no campo filosófico. Contemporaneamente, a filosofia define paixão como a ação de controle e direção por parte de determinada emoção sobre toda a personalidade de um indivíduo humano. Para Kant, devemos controlar as paixões, pois suas inclinações impedem a razão de compará-las com outras inclinações, impossibilitando-a de fazer uma escolha entre elas. Por conta disso ele rejeita toda e qualquer exaltação das paixões. O Romantismo, embora aceite a acepção kantiana sobre a paixão, isto é, de que ela não é uma emoção ou estado afetivo particular, mas sim o domínio total e profundo que um estado afetivo exerce sobre toda a personalidade ou subjetividade, inverte sua valoração negativa. Do ponto de vista romântico a paixão não é em si nem boa nem má, uma vez que ela se restringe a uma particularidade da determinação do querer, seja qual for seu conteúdo. Para Hegel, a forma da paixão “só exprime que um sujeito pôs num único conteúdo todo o interesse vivo de seu espírito, de seu talento, de seu caráter, de seu prazer”. E acrescenta: “nada de grande foi realizado, nem pode ser realizado, sem a paixão. Não passa de moralidade morta, na maioria das vezes hipócrita, a que investe a forma da paixão como tal”. Já Nietzsche exalta a paixão, considerando-a como o estado em que determinado afeto organiza e orienta toda a difusa emotividade humana em uma disposição plena de saúde e vigor.

Seja como for, amor e paixão expressam afeto, isto é, emoções positivas, seja por pessoas, animais, objetos ou pela natureza em geral. Não há, portanto, nenhuma relação com comportamentos destrutivos, pois quando se ama ou se tem paixão por algo ou alguém, busca-se preservar, mesmo que a distância.

Com a Eloá, e tantas outras que partiram em circunstâncias semelhantes, morre também um pouco do belo. Sim, porque o amor e a paixão são elementos do belo, que de maneira alguma rima com torpeza (por Coccinelle).

Imagem: Rattus

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

A atualidade do Boca do Inferno

Os atuais acontecimentos em Salvador, governada (?!) pelo alcaide João Henrique, e no Estado da Bahia, governado (?!) por Jaques Wagner, nos fazem refletir, como bem nos lembrou a sempre antenada Ana Mendes, sobre a atualidade do Boca do Inferno, também conhecido por Gregório de Mattos e Guerra (1633/1696). “Nascido na Bahia, foi o primeiro de nossos satíricos, homem de língua destravada e fácil veia poética. Estudou humanidades em Portugal, tendo feito o curso de leis na Universidade de Coimbra. Na terra mãe foi juiz criminal e de órfãos. Voltou ao Brasil com 47 anos, sob a proteção do arcebispo da Bahia, D. Gaspar Barata. Tantas e tais fez que não só perdeu a proteção do prelado, como ainda foi degredado para Angola. Reabilitado, voltou ao Brasil, indo para Recife, onde conquistou simpatias e viveu com menos turbulência que na Bahia. É o patrono da cadeira n.º 16 da Academia Brasileira de Letras. Além de versos satíricos e humorísticos, escreveu poesias eróticas com a maior incontinência verbal” (Fonte: MAGALHÃES Júnior, R. (Org.). In: Antologia de Humorismo e Sátira. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1957). No texto abaixo, intitulado EPIGRAMA, o juiz anatômico denuncia os “achaques que padecia o corpo da República em todos os membros, e inteira definição do que em todos os tempos é a Bahia”. Mais atual, impossível. Triste Bahia!

Que falta nesta cidade?... Verdade.
Que mais por sua desonra?... Honra.
Falta mais que se lhe ponha?... Vergonha.

O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.

Quem a pôs neste rocrócio?... Negócio.
Quem causa tal perdição?... Ambição.
E no meio desta loucura?... Usura.

Notável desaventura
De um povo néscio e sandeu,
Que não sabe que perdeu
Negócio, ambição, usura.

[...]
Quem faz os círios mesquinhos?... Meirinhos.
Quem faz as farinhas tardas?... Guardas.
Quem as tem nos aposentos?... Sargentos.

Os círios lá vem aos centos,
E a terra fica esfaimando,
Porque os vão atravessando
Meirinhos, guardas, sargentos.

E que justiça a resguarda?... Bastarda.
É grátis distribuída?... Vendida.
Que tem, que a todos assusta?... Injusta.

Valha-nos Deus, o que custa
O que El-Rei nos dá de graça.
Que anda a Justiça na praça
Bastarda, vendida, injusta.

[...]

À Bahia aconteceu
O que a um doente acontece:
Cai na cama, e o mal cresce,
Baixou, subiu, morreu.

A Câmara não acode?... Não pode.
Pois não tem todo o poder?... Não quer.
É que o Governo a convence?... Não vence.

Quem haverá que tal pense,
Que uma câmara tão nobre,
Por ver-se mísera e pobre,
Não pode, não quer, não vence.

Imagem: Lúcio Távora

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Um cordel nada encantado

Uma vergonha histórica! É como podemos resumir esses dois mandatos do atual prefeito de Salvador, João Henrique. Em oito anos de governo a cidade mudou de razoável para muito ruim ou péssima. O transporte público é uma porcaria, as vias públicas uma lástima, saúde e educação um horror. Os versos “Triste Bahia”, escritos por Gregório de Matos no século XVII, parecem ter sido inspirados na atual gestão municipal soteropolitana. Vivemos tempos mui tristes e toda essa tristeza, desalento e indignação foram muito bem traduzidos pelo cordelista, natural de Santa Bárbara, Antonio Barreto na sua CARTA DE UM CORDELISTA BAIANO AO PREFEITO JOÃO HENRIQUE, abaixo reproduzida e fartamente divulgada no Facebook. Eis a carta:
I
Meu querido João Henrique
Prefeito de Salvador
Eu escrevo essa cartinha
Para traduzir o clamor
Que não é somente meu
Mas de todo o eleitor.

II

Não escrevo com rancor
Nem busco aqui confusão
Falo pela maioria
Da nossa população
Que quer ver nossa cidade
Em melhor situação.

III

Não vou aqui relatar
Tudo detalhadamente
Quero apenas atentar
Para o desmando presente
De coisas essenciais
Dessa cidade carente.

IV

Desde a primeira gestão
Que o senhor nos prometeu
Cuidar bem da nossa urbis
Mas parece que esqueceu
Pois já são quase seis anos
Porém nada floresceu.
V

No Brasil de Norte a Sul
E também no além mar
A imagem de Salvador
Começou a declinar
Por culpa da sua gestão
Que não pode piorar.

VI

O abandono é total
Da Ribeira a Itapuã
De Cajazeira a Paripe
Sob os olhos de Iansã
Parece até que o senhor
Está pra lá de Teerã!

VII

Acho que vossa excelência
Está dormindo demais
A cada dia que passa
Vem se mostrando incapaz.
E a querida Salvador
Vai ficando para trás!

VIII

A sua avaliação
É bastante negativa
Porque você colocou
Nossa cidade à deriva.
Dê no pé, desapareça
Levando sua comitiva.

IX

Falhas no transporte público
Os salários atrasados
Débito aos fornecedores
Os bairros abandonados
Buracos, lixo na rua
E os turistas assustados.
X

Aquele “velho metrô”
Aliás, digo atual,
Pelo andar da carruagem
É uma obra irreal
E agora representa
O seu grande inferno astral!

XI

Será que o senhor conhece
A Praça da Piedade?
Pois ali é o coração
Dos poetas, da cidade
Mas durante o seu governo
Tornou-se favelidade.

XII

O Jardim da Piedade
O antro da poesia
Transformou-se em favela
E agora é moradia
De pedintes e drogados
Seja noite ou luz do dia.

XIII

Não queira dizer que eu
Estou criando barulho
Perceba que o Pelourinho
Carlos Gomes, 2 de Julho
Campo Grande, Rua Chile
Parecem mais um entulho.

XIV

Vá visitar Nazaré,
Avenida Sete, Barra…
Veja de perto a desordem
Todo clima de algazarra.
Mas cuidado seo Prefeito
Ali o povo te agarra!
XV

Procure fazer a hora
Não espere acontecer.
Mas o senhor é teimoso
Não dá o braço a torcer
Sabe que já fracassou
E não quer reconhecer.

XVI

Esse tal PDDU
Rima com desarmonia
Favorece aos empresários
Vai de encontro à ecologia
E o IPTU, prefeito,
Haja tanta carestia!

XVII

Essa troca de partido
Já virou foi brincadeira
E o senhor não se dá conta
Que já está na ribanceira
Pois devolva a prefeitura
E volte a morar em Feira.

XVIII

Cadê o trem do subúrbio,
Não vai mais funcionar?
O povo da suburbana
Não aguenta mais penar
Justamente o eleitor
Que ajudou você ganhar.

XIX

E a prestação de contas
O que foi que aconteceu?
Conte logo essa estória
O povo não esqueceu.
O dinheiro foi torrado
Ou o “gato” então comeu?
XX

A SUCOM já não atende
Às queixas dos moradores
Que passam noites insones
Embaixo dos cobertores
A sofrer com o barulho
Dos barzinhos infratores.

XXI

Querido prefeito João
O senhor caiu no sono:
Salvador rima com lixo
Com sujeira e abandono
Tem cara de favelão
Parece terra sem dono.

XXII

O senhor é um sortudo
Conseguiu ser reeleito…
Tudo isso é brincadeira
Querido e nobre prefeito
O maluco aqui sou eu:
Um eleitor com despeito!

XXIII

O desgaste é tão visível
Que não dá para enganar.
Acho que o senhor precisa
Uma decisão tomar:
Entregar o cargo agora
Pra Luiza governar!

XXIV

Pois aqui eu me despeço
Do Astral Superior
Desejando paciência
Ao povo de Salvador:
O velho Tomé de Sousa
Com carinho e com amor!

FIM

domingo, 29 de janeiro de 2012

Poema Falado: POEMA EM LINHA RETA

Dizem que um poeta é universal quando ele ou ela consegue transpor os limites da sua individualidade, da sua gente, do seu espaço e do seu tempo. Se é assim, o Fernando Pessoa é um
dos poetas mais universais da história da poesia. Seus versos falam de sentimentos particulares que são partilhados por muita gente de ontem, de hoje e, certamente, de amanhã também. Quando há muito li os versos do POEMA EM LINHA RETA, o Poema Falado deste mês, o primeiro de 2012, logo me identifiquei. Relendo-o agora, vejo como ele é tão atual, nesses tempos em que todos buscam nada menos que a perfeição, querendo a todo custo ser (ou ao menos aparentar ser) sexualmente plenos, felizes, belos, fortes, destemidos, saudáveis, inteligentes e eternamente jovens. Em outras épocas me sentia um estranho estrangeiro nesse mundo de gente “tão perfeita”. Hoje, ao deparar-me com essas pessoas tenho “sido vil, literalmente vil, vil no sentido mesquinho e infame da vileza”. E é para homenagear mais uma vez o Fernando Pessoa na pessoa do Álvaro de Campos que o Poema Falado traz o POEMA EM LINHA RETA: “Nunca conheci quem tivesse levado porrada. / Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. // E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, / Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, / Indesculpavelmente sujo, / Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, / Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, / Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, / Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, / Que tenho sofrido enxovalhos e calado, / Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; / Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel, / Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, / Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, / Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado / Para fora da possibilidade do soco; / Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, / Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. // Toda a gente que eu conheço e que fala comigo / Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, / Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida... // Quem me dera ouvir de alguém a voz humana / Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; / Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! / Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. / Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? / Ó príncipes, meus irmãos, // Arre, estou farto de semideuses! / Onde é que há gente no mundo? // Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? // Poderão as mulheres não os terem amado, / Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca! / E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, / Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? / Eu, que venho sido vil, literalmente vil, / Vil no sentido mesquinho e infame da vileza”. Boa áudio-leitura!


Imagem: Estrada Alentejana, por Jaime Carita.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Apesar de falso, uma verdade inexorável

O texto abaixo reproduzido sobre essa aberração midiática que se chama Big Brother Brasil (BBB), da Rede Globo, não é, como se tem divulgado pela internet, de autoria do magnífico escritor Luís Fernando Veríssimo. O próprio Veríssimo já confirmou isso em outro programa da Rede Globo, o Altas Horas, do Serginho Groisman (confira aqui). Parece que esse texto circula na internet desde 2010, quando em nota, o autor,com o seu costumeiro humor esclareceu: “Não fui eu que escrevi. Não poderia escrever nada sobre o Big Brother Brasil, a favor ou contra, porque sou um dos três ou quatro brasileiros que nunca o acompanharam”.
Como se pode ver, não devemos acreditar em tudo que encontramos na internet. Como qualquer ferramenta, seja de comunicação ou de outra natureza, ela pode ser ou não bem utilizada. Mas essa é outra questão. O fato de o texto abaixo ter sido atribuído a alguém que não o escreveu é algo grave. Vivemos em uma época em que escrúpulo (para dizer o mínimo) parece ser doença infectocontagiosa, por isso devemos evitá-lo a todo custo. Entretanto, seja de quem for a autoria do texto, ele discorre sobre um verdade, digamos, inexorável!
Esse tal de BBB bempoderia de chamar Big Bosta Brasil. Não consigo entender como os supostos milhões de telespectadores dão audiência a essa bosta. Não sou daqueles que acham que a televisão só deve ofertar programas educativos, culturais ou instrutivos. A televisão pode sim ofertar programas de entretenimento voltados tão somente para o entretenimento do telespectador. Mas isso não significa que em nome do entretenimento puro e simples devamos abrir mão da qualidade. Há inúmeros programas na TV que associam entretenimento com qualidade (ou alguma qualidade) e o Altas Horas é um bom exemplo disso. O mais grave no Big Bosta Brasil, para mim, é a inversão de valores. Vale tudo para ganhar o prêmio máximo, vale mentir, trapacear, falar mal do outro, ser dissimulado, brigar, xingar, trepar, sacanear e depois de tudo isso se o sujeito ou a sujeita conquista o prêmio máximo leva junto o título de bom/boa jogador/jogadora. Deprimente! Até quando teremos de conviver com isso? (esse texto é de minha própria autoria, Silvio Benevides)

EIS O TEXTO – Que me perdoem os ávidos telespectadores do Big BrotherBrasil (BBB), produzido e organizado pela nossa distinta Rede Globo, mas conseguimos chegar ao fundo do poço [...] Chega a ser difícil encontrar as palavras adequadas para qualificar tamanho atentado à nossa modesta inteligência [...] Pergunto-me, por exemplo, como um jornalista, documentarista e escritor como Pedro Bial que, faça-se justiça, cobriu a Queda do Muro de Berlim, se submete a ser apresentador de um programa desse nível. Em um e-mail que recebi há pouco tempo, Bial escreve maravilhosamente bem sobre a perda do humorista Bussunda referindo-se à pena de se morrer tão cedo. Eu gostaria de perguntar se ele não pensa que esse programa é a morte da cultura,de valores e princípios, da moral, da ética e da dignidade.
Outro dia, durante o intervalo de uma programação da Globo, um outro repórter acéfalo do BBB disse que, para ganhar o prêmio de um milhão e meio de reais, um Big Brother tem um caminho árduo pela frente, chamando-os de heróis. Caminho árduo? Heróis? São esses nossos exemplos de heróis?
Caminho árduo para mim é aquele percorrido por milhões de brasileiros, profissionais da saúde, professores da rede pública (aliás, todos os professores), carteiros, lixeiros e tantos outros trabalhadores incansáveis que, diariamente, passam horas exercendo suas funções com dedicação, competência e amor e quase sempre são mal remunerados.
Heróis são milhares de brasileiros que sequer tem um prato de comida por dia e um colchão decente para dormir, e conseguem sobreviver a isso todo santo dia. Heróis são crianças e adultos que lutam contra doenças complicadíssimas porque não tiveram chance de ter uma vida mais saudável e digna.
Heróis são inúmeras pessoas, entidades sociais e beneficentes, ONGs, voluntários, igrejas e hospitais que se dedicam ao cuidado de carentes, doentes e necessitados (vamos lembrar de nossa eterna heroína Zilda Arns). Heróis são aqueles que, apesar de ganharem um salário mínimo, pagam suas contas, restando apenas dezesseis reais para alimentação, como mostrado em outra reportagem apresentada meses atrás pela própria Rede Globo.
O Big Brother Brasil não é um programa cultural, nem educativo, não acrescenta informações e conhecimentos intelectuais aos telespectadores, nem aos participantes, e não há qualquer outro estímulo como, por exemplo, o incentivo ao esporte, à música, à criatividade ou ao ensino de conceitos como valor, ética, trabalho e moral. São apenas pessoas que se prestam a comer, beber, tomar sol, fofocar, dormir e agir estupidamente para que, ao final do programa, o “escolhido” receba um milhão e meio de reais. E ai vem algum psicólogo de vanguarda e me diz que o BBB ajuda a “entender o comportament ohumano”. Ah, tenha dó!!!
Veja o que está por de tra$$$ do BBB: José Neumani da Rádio Jovem Pan, fez um cálculo de que se vinte e nove milhões de pessoas ligarem a cada paredão, com o custo da ligação a trinta centavos, a Rede Globo e a Telefônica arrecadam oito milhões e setecentos mil reais. Eu vou repetir: oito milhões e setecentos mil reais a cada paredão. Já imaginaram quanto poderia ser feito com essa quantia se fosse dedicada aprogramas de inclusão social, moradia, alimentação, ensino e saúde de muitos brasileiros? (Poderia ser feito mais de 520 casas populares; ou comprar mais de 5.000 computadores). Essas palavras não são de revolta ou protesto, mas de vergonha e indignação, por ver tamanha aberração ter milhões de telespectadores.
Em vez de assistir ao BBB, que tal ler um livro, um poema de Mário Quintana ou de Neruda ou qualquer outra coisa, ir ao cinema, estudar, ouvir música, cuidar das flores e jardins, telefonar para um amigo, visitar os avós, pescar, brincar com as crianças, namorar ou simplesmente dormir. Assistir ao BBB é ajudar a Globo a ganhar rios de dinheiro e destruir o que ainda resta dos valores sobre os quais foi construída nossa sociedade.
Imagem: O cão andaluz, Dir. Luis Buñuel, 1928.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Não vou deixar a vida sem viver

Alguém, não me lembro quem, já disse que o homem é o único animal que morre. Isso ocorre, segundo esse alguém de quem não lembro o nome, porque o ser humano é o único animal que pensa e reflete sobre a morte. Sendo assim, é, também, o único animal que antecipa a sua morte, ou seja, é o único que morre de véspera. Li o texto abaixo, de autoria da Diana Corso, e resolvi reproduzi-lo aqui, sem a permissão dela (espero não ter problemas). Fiz isso por três motivos: primeiro, porque acho que o texto vale a pena ser lido nesses tempos em que a vida é constantemente negada em nome de uma “perfeição” que beira a morbidez paranóica. Segundo, porque o buldogue francês da Diana Corso me lembrou meu beagle Kadu, um cão cuja raça nunca amadurece, caracterizando-se pela eterna infância. Terceiro, porque após uma semana especial cujo fim foi totalmente dedicado a celebrar a vida e a alegria de viver e estar junto como e com quem realmente importa, otexto se tornou mais significativo para mim. São palavras que me recordam muito o trecho de uma velha canção gravada pela Gal Costa no seu primeiro trabalho, “Domingo”(1967). A canção se chama “Maria Joana”, do Sidney Miller, e um de seus versos diz assim: “eu vou procurar um jeito de não padecer, porque não vou deixar a vida sem viver”. É isso aí. A morte não nos deixa nenhuma escolha, mas a vida nos oferece inúmeras. Sendo assim, porque não usufruir daquelas que estiverem ao nosso alcance? Façamos, então, como o refrão de um samba de roda cachoeirano que nos diz sabiamente “hei de morrer cantando, porque chorando eu nasci”. Boa leitura (por Silvio Benevides).
MORRER DE VÉSPERA – Bilbo tem 13 anos. Para humanos é o fim da infância, na sua trajetória canina é o fim da vida. Mas isso não é novidade para ele, nem para nós. Já faz cinco anos que dois veterinários diferentes lhe deram pouco tempo de vida. Alegavam, o que deve ser verdade, pois apareceu nos exames da época, que ele tinha o coração quase do tamanho da caixa torácica e 30% da função renal. A não ser que um milagre tenha acontecido, isso só podeter piorado. Na ocasião lhe receitaram remédios, ração especial, uma vida develho. Ele detestou. É próprio da sua raça a infância eterna. Nenhum buldogue francês amadurece, eles só ficam mais lentos. Os tratamentos o tornaram magro e deprimido, ficava de mau humor cada vez que lhe dávamos uma pastilha. Por isso decidimos deixa-lo em paz: que durasse pouco, mas fosse feliz! Cortamos os remédios, a ração insossa. Livre da existência terminal, voltou a brincar e correr. Hoje, se fosse gente, teria uns 80 anos.
Se fosse humano talvez já estivesse morto, de tristeza pela condenação que uma doença grave significa. Às vezes morremos de desesperança, achamos que a vida, se não for infinita, não adianta que dure. A religião tampouco consola, pois a suposta eternidade da alma já não conforta tanto. Mesmo com saúde é só olhar em volta e acabamos fazendo os cálculos de quantas décadas nos restam. Aliás o envelhecimento é exorcizado principalmente porque informa do tempo que já gastamos. Velhice é folha corrida. A fantasia de ser eterno e intacto, como os belos vampiros contemporâneos, faz a vida parecer fonte de infinitas possibilidades. A consciênciada morte obriga a objetivar as escolhas: não teremos tempo de ser e ter tudo. Mas entre a ignorância do animal e o pensamento negativista dos homens há outras atitudes bem mais inspiradoras.
Convivi com amigos que em vez de morrer de véspera fizeram de uma má notícia fonte de sabedoria. Há duas décadas o diagnóstico da contaminação pelo HIV era um prenúncio de morte. Felizmente, não foi assim para todos, mesmo antes da descoberta do coquetel. Em alguns casos, a ameaça da morte os livrou das dúvidas pueris, da adolescência eterna. Agarraram-se à vida com vontade, viabilizaram escolhas profissionais, relacionamentos estáveis. Pressionados, efetivaram-se no emprego da existência. A medicação que lhes devolveu a imunidade, já os encontrou de bem com a vida. Woody Allen dizia que a palavra mais bela que já tinha ouvido era: “benigno”. Sua hipocondria cômica sempre nos lembra que a consciência da morte pode ajudar a repactuar coma vida. Mesmo que o fim seja certo, por que não seguir alegremente? Como meu velho cão (por Diana Corso).
Imagem: Kadu, por Suzy Benevides.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

UFRB em Cachoeira sedia III EBECULT em abril

O III Encontro Baiano de Estudos em Cultura (EBECULT) será realizado de 18 a 20 de abril de 2012, em Cachoeira, cidade do Recôncavo da Bahia, a 110 km de Salvador. O objetivo do evento é incentivar o compartilhamento de pesquisas desenvolvidas no campo cultural do estado.

O evento é uma realização da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). As duas primeiras edições foram realizadas, respectivamente, em Salvador, em 2008, pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e em 2009, pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), em Feira de Santana. A proposta é desenvolver a cada ano um encontro que promova a visibilidade de pesquisas em cultura e o intercâmbio entre pesquisadores.

O EBECULT oferecerá uma conferência sobre políticas culturais e uma mesa redonda com destaque para a cultura como direito político-social e emancipação humana, além de uma plenária, que definirá uma síntese do encontro e as próximas edições. Como oportunidade de ampliar os saberes, haverá, também, comunicações de trabalhos em simpósios que terão 17 eixos (conforme exposto nos itens programação e inscrições). Fazem parte do evento, ainda, momentos de bate-papo chamados diálogos culturais, que buscam discutir a tradição e a cultura contemporânea, e oficinas e vivencias culturais, cujo objetivo é proporcionar um encontro produtivo entre saberes científicos e tradicionais. E para completar a proposta, o EBECULT em Cachoeira contará com uma rica programação artístico-cultural.

A cidade de Cachoeira sedia um dos campus da UFRB, o Centro de Artes, Humanidades e Letras (CAHL), e é município tombado pelo Instituto do Patrimônio e Histórico Artístico Nacional, desde 1971, quando passou a ser considerada Monumento Nacional por sua importância histórica. Além disso, é berço da independência do país e de manifestações culturais como a capoeira, o samba de roda e festas de caráter religioso como as D’Ajuda e a da Boa Morte, símbolo do sincretismo entre as religiões católica e de origem africana (Fonte: III EBECULT).
Imagem: III EBECULT

domingo, 25 de dezembro de 2011

Poema Falado: Versos de Natal

Como diria a Simone, então é Natal! Mais uma vez, Natal! Até onde sei nessa data os cristãos se reúnem para celebrar o nascimento do verbo que se fez carne e sangue a fim de nos redimir por meio do amor, o seu maior legado. Esse é o verdadeiro espírito do Natal, ou ao menos deveria ser. Entretanto, o que temos visto ultimamente é uma festa que a cada ano se distancia mais e mais da sua essência, tornando-se uma verdadeira orgia consumista. Orgia esta que pouco a pouco mata o Menino Jesus, assim como todos os meninos e meninas que em cada um de nós existe. Eu digo “mata” porque precisamos crescer com urgência para que, com urgência, nos tornemos consumidores ávidos e eficientes. Não tenho nada contra o consumo, tampouco odeio o bom velhinho. Quero apenas lembrar que o Natal existe porque o Menino Jesus nasceu. E é justamente para celebrar esse nascimento que o Poema Falado deste mês traz os Versos de Natal do Manuel Bandeira, escritos em 1939, que nos dizem: “Espelho, amigo verdadeiro / Tu refletes as minhas rugas, / Os meus cabelos brancos, / Os meus olhos míopes e cansados. / Espelho, amigo verdadeiro, / Mestre do realismo exato e minucioso, / Obrigado, obrigado! / Mas se fosses mágico, / Penetrarias até o fundo desse homem triste, / Descobririas o menino que sustenta esse homem, / Que não morrerá senão comigo, / O menino que todos os anos na véspera do Natal / Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta”. Boa áudio-leitura e Feliz Natal! (por Silvio Benevides)



Imagem: Silvio Benevides