quarta-feira, 30 de setembro de 2009

Há coisas tão absurdas que não devemos esquecer jamais

A disputa pelo poder econômico e político sempre gerou, ao longo da história humana, episódios de intolerância. O Salvador na sola do pé faz uma breve retrospectiva dos últimos mil anos da história da humanidade, esperando que tais episódios jamais voltem a se repetir. Como é impossível resumir mil anos de história, foram selecionados apenas alguns fatos marcantes. Entretanto, sabemos que muitos outros poderiam figurar nesse breve relato, pois a humanidade é muito ampla e sua história impossível de ser abarcada na sua totalidade.

1095 - 1270
Com o pretexto de defender a fé cristã, sucessivas CRUZADAS partiram da Europa para o Oriente a fim de combater os inimigos da cristandade, isto é, mulçumanos e também judeus. As cruzadas foram expedições militares organizadas com o objetivo de combater os chamados "infiéis" que dominavam os lugares santos do cristianismo. Por essa razão, a alta cúpula da Igreja Católica as legitimou, outorgando aos seus participantes privilégios espirituais e materiais, a exemplo da moratória concedida aos “soldados de Cristo”. Na verdade, as cruzadas foram uma grande guerra entre cristãos e mulçumanos, guerra esta puramente geopolítica. Os judeus também foram envolvidos e perseguidos pois os cristãos os consideravam tão "infiéis" quanto os mulçumanos. O resultado de tanta intolerância foi o extermínio de inúmeros cristãos, mulçumanos e judeus os quais morreram em combate, de fome, de doenças ou foram vitimados por perseguições brutais.

1229
Surge na Europa a Inquisição que perseguiu e matou milhares de "hereges", ou seja, todos aqueles que não professavam a fé cristã ou ousavam desafiar os dogmas defendidos pela Igreja Católica Apostólica Romana. As origens da Inquisição remontam a fins do século XII, na França. Ordenando os bispos lombardos que entregassem à justiça os hereges que se recusassem a abraçar a fé cristã, o Concílio de Verona (1183) lançou as bases da Inquisição. Em 1233, Gregório IX organizou um tribunal especial com o intuito de deter o que ele chamava de avanços da heresia e o confiou aos Dominicanos. A ação deste tribunal pouco a pouco se estendeu ao resto da cristandade. Na Itália e na Espanha, onde tomou o nome de Santo Ofício, criou fortes raízes e se tornou uma instituição muito poderosa que deixou lúgubres recordações. A característica principal do modo de proceder da Inquisição era o segredo absoluto da instrução judiciária. Foi D. João III quem introduziu a Inquisição em Portugal no ano de 1536. O marquês de Pombal reduziu consideravelmente o poder do Santo Ofício, que foi definitivamente extinto em 1821. Durante os dois séculos do seu exercício em Portugal, a Inquisição queimou cerca de 1.500 pessoas; torturou e condenou a diversas penas mais de 25.000. Ignora-se o número daquelas que morreram em cárceres. Entre 1591 o Conselho Geral do Santo Ofício enviou a visitação ao Brasil, confiada a Heitor Furtado de Mendonça. Até 1595 o Santo Ofício visitou as capitanias da Bahia, Pernambuco, Paraíba e Itamaracá.

1347 - 1350
A peste bubônica alcança a Europa através de um navio genovês que retornara do Oriente. A epidemia rapidamente se espalhou pelo continente europeu matando cerca de 25 milhões de pessoas e causando, conseqüentemente, a escassez de mão-de-obra. Frente a essa realidade, os senhores feudais passaram a reprimir ainda mais seus servos com vistas a aumentar a rentabilidade. O resultado de tanta opressão foi uma revolta camponesa liderada por Estevão Marcel. Todavia, devido à falta de organização a revolta foi duramente reprimida e seu líder assassinado.

1453
Os turcos Otomanos conquistam Constantinopla, capital do Império Romano do Oriente, também conhecido como Império Bizantino. Esse episódio, segundo os historiadores, marca o fim da Idade Média e o início da Idade Moderna.

1492
Navegando a serviço da Coroa Espanhola, o genovês Cristovão Colombo chega à América. A partir de então, inicia-se um processo de extermínio da chamada população ameríndia que persiste até os dias de hoje. Na Europa, os judeus não convertidos ao catolicismo são expulsos do reino de Castela e Aragão. Milhares migram para Portugal.

1497
D. Manuel I (1495-1521) determina a conversão forçada de todos os judeus de Portugal.

1500
Pedro Álvares Cabral desembarca em Porto Seguro, sul da Bahia, na escala para a Índia e toma posse da nova terra em nome de D. Manuel I, rei de Portugal, dando início à história do Brasil, marcada pela opressão e perseguição de índios, negros e das forças populares.

1543
Copérnico refuta o geocentrismo que a Igreja Católica adotava como doutrina oficial e prova que o sol e não a terra é o centro do sistema solar. Como resultado, é condenado por "heresia".

1600
Giordano Bruno que havia afirmado a possibilidade de existência de outros mundos como a terra, é queimado vivo na fogueira por determinação da Inquisição.

1632
Por haver reafirmado o heliocentrismo de Copérnico, Galileu Galilei foi condenado pela Inquisição. Para não ter o mesmo fim de Giordano Bruno, Galileu foi obrigado a se retratar publicamente.

1694
Macaco, capital do Quilombo dos Palmares, é destruída por tropas chefiadas pelo bandeirante Domingos Jorge Velho. O Quilombo dos Palmares, localizado na Serra da Barriga, atual Estado de Alagoas, era o local de resistência da confederação de escravos rebelados. Era uma sociedade multirracial e miscigenada e formada por negros, índios e brancos pobres que à base de muito trabalho e luta viveram em liberdade por cerca de um século. Mas como ocorre com todo movimento popular de grande vulto no Brasil, o Quilombo dos Palmares foi massacrado. No ano seguinte, 1695, Zumbi, o último líder de Palmares, foi assassinado numa emboscada.

1795
Tem início a escalada despótica do general Napoleão Bonaparte que só terminaria após a derrota em Waterloo - Bélgica no ano de 1815.

1835
Um grupo de escravos de origem africana resolve organizar um levante com o intuito de reverter a ordem escravocrata vigente, em prol da liberdade e da igualdade entre as raças. Os organizadores do levante eram chamados de "malês" porque assim eram conhecidos, na Bahia de antanho, os africanos mulçumanos. A rebelião é considerada por alguns historiadores como o levante mais sério de escravos urbanos já ocorrido no continente americano. Por ameaçar a hegemonia dos senhores de engenho da Bahia, a rebelião foi duramente reprimida. Cerca de 70 revoltosos morreram em confronto direto com as forças repressivas. Estima-se que mais de 500 foram punidos com pena de morte, prisão, açoites em praça pública e deportação.

1865 - 1870
A Guerra do Paraguai, ou Guerra da Tríplice Aliança, foi o conflito bélico de maior duração no continente latino-americano. Reuniu três países, Brasil, Argentina e Uruguai, contra o Paraguai. O conflito foi extremamente sangrento e ao final, o Paraguai estava totalmente arruinado. Sobreviveram cerca de 50% da sua população que teve de amargar uma enorme dívida de guerra. Depois desse episódio o Paraguai nunca mais conseguiu voltar a ser o que era antes do conflito: uma nação independente dos mercados internacionais tanto econômica quanto politicamente.

1884 - 1885
Na Conferência de Berlim, presidida por Bismarck, as potências européias fazem entre si a partilha da África, quebrando definitivamente a auto-suficiência dos povos nativos e coroando de miséria e fome o destino que corrói as vidas de milhares de homens, mulheres e crianças do continente africano até os dias atuais.

1893
Estoura no interior da Bahia a Guerra de Canudos. A população sertaneja que vivia na região de Canudos além de não ter acesso à terra, trabalhava para os grandes latifundiários por salários extremamente baixos, como ocorre ainda hoje. Os grandes chefes políticos e os líderes religiosos locais não pareciam muito interessados no destino dessa parcela da população. Nesse cenário aparece a figura de Antônio Conselheiro (Antônio Vicente Mendes Maciel), um místico peregrino que tinha fama de fazer milagres. Antônio Conselheiro conseguiu reunir em torno de si milhares de seguidores que se fixaram numa velha fazenda às margens do rio Vaza-Barris e ali fundaram o Arraial de Canudos, que chegou a ter cerca de 25.000 habitantes. Em Canudos todos deveriam trabalhar e a terra era propriedade coletiva. Tudo que era produzido deveria ser dividido entre a comunidade. Em 1893 o povo do Arraial de Canudos se revoltou contra um imposto criado pelo poder público local. Isso serviu de pretexto para que as autoridades se opusessem às idéias igualitárias praticadas pelos seguidores de Conselheiro. Em outubro de 1897, após alguns anos de brava resistência, o Arraial de Canudos foi dizimado. Antônio Conselheiro foi encontrado morto e muitos dos seus seguidores, entre homens, mulheres e crianças, foram estupidamente degolados.

1914 - 1918
Em junho de 1914 é assassinado em Sarajevo, capital da Bósnia, o arquiduque Francisco Ferdinando, futuro governante do Império Austro-Húngaro. O estudante bósnio Gabriel Princip, que pertencia a uma sociedade secreta Sérvia denominada Mão Negra, é responsabilizado pelo crime. O incidente em Sarajevo agravou ainda mais a crise nos Balcãs. Um mês após o ocorrido a Áustria declarou guerra à Sérvia, que contou com o apoio da Rússia. Assim teve início a Primeira Guerra Mundial, que provocou a morte de aproximadamente nove milhões de pessoas entre civis e militares e inovou as formas de matar com a utilização de aviões, submarinos, metralhadoras e gases venenosos.

1922
Um golpe de Estado, arquitetado por Benito Mussolini, implanta o regime fascista na Itália. Mussolini assumiu o poder como Duce após as eleições parlamentares de 1924, concretizando o Estado fascista. A oposição sofreu violenta repressão. A imprensa foi fechada e por meio da polícia política fascista (OVRA), inúmeros socialistas e comunistas foram duramente perseguidos.

1929
Quebra a Bolsa de Valores de Nova Iorque, provocando uma onda generalizada de falência de empresas e bancos. A crise norte-americana rapidamente se agrava pelo mundo capitalista. A economia de vários países, que se mantinham graças à política de crédito do governo dos Estados Unidos, sofre um grande abalo. Tem início a chamada Grande Depressão. Nos primeiros anos da década de 30 o número de desempregados em todo o mundo gira em torno de 40 milhões. Esse episódio demonstra o quão nociva pode ser uma economia globalizada.

1933 - 1936
Hitler conquista o poder e instaura o regime nazista na Alemanha. Em conseqüência, inúmeros intelectuais, entre eles Sigmund Freud e os membros da Escola de Frankfurt são obrigados a partir para o exílio.

1939 - 1945
O mundo envolve-se num grande conflito bélico - a Segunda Guerra Mundial - considerado o maior e pior de toda a história da humanidade, devido ao número de participantes, às frentes de lutas que atingiram todos os mares e continentes, à diversidade ideológica que envolveu, às repercussões política, econômica e social e aos horrores que provocou. Cerca de 50 milhões de pessoas morreram na Segunda Guerra Mundial. O mundo conheceu a bestialidade dos campos de concentração e dos efeitos tenebrosos da energia nuclear. Pela primeira vez a bomba atômica foi utilizada pelos Estados Unidos, matando aproximadamente 100 mil japoneses em Hiroshima (06/08/45) e Nagasaki (09/08/45). Com a explosão de duas bombas atômicas chega ao fim o conflito.

1948
É institucionalizada na África do Sul a separação entre negros e brancos, conhecida como Apartheid. Esta foi a forma que a minoria branca, de origem inglesa, encontrou para perpetuar seu domínio. Os negros foram oficialmente declarados cidadãos de segunda categoria, não podendo habitar, freqüentar ou utilizar os mesmos bairros, transportes coletivos, praias ou outros lugares públicos que os brancos. Na década de 50 surge o Congresso Nacional Africano (CNA), uma organização negra que defendia a oposição pacífica ao regime de exclusão. Em 1960 uma manifestação do CNA contra a lei que limitava o direito de ir e vir dos negros foi violentamente reprimida. Cerca de 67 manifestantes foram assassinados. O CNA foi considerado ilegal e seu líder, Nelson Mandela, condenado à prisão perpétua. Essa aberração só terminaria nos anos 90.

1965 - 1975
Guerra do Vietnã, considerada um dos conflitos mais devastadores da história da humanidade devido ao elevado número de mortos e ao uso indiscriminado de armas químicas que poluíram rios, destruíram florestas e contaminaram a terra, deixando-a imprópria para o plantio. Cerca de 50 mil soldados norte-americanos morreram no conflito. Do lado vietnamita as perdas foram ainda maiores, mais de dois milhões de mortos. Os Estados Unidos utilizaram mais bombas sobre o Vietnã do que todos os países na Segunda Guerra. Ainda assim, foram profundamente feridos no seu orgulho militar e político.

1964
As Forças Armadas brasileiras, sob o pretexto de restabelecer a ordem social ameaçada por uma crise político-institucional, depõem o presidente João Goulart com o apoio de um leque bem complexo de forças sociais. Foram apoiados pelas classes dominantes nacionais, que compreendiam tanto setores rurais e urbanos, como também setores produtivos arcaicos e modernos, por grandes parcelas da classe média, pelas oligarquias políticas, sobretudo aqueles segmentos que não conseguiam chegar ao poder através do voto popular, e pelo governo norte-americano. Tem início um período de terror no Brasil marcado por torturas, perseguições e cerceamento da liberdade de expressão.

1973
Golpe militar no Chile, com a queda do governo socialista do presidente Salvador Allende e a ascensão ao poder do general Augusto Pinochet. Tem início uma das piores e mais sanguinárias ditaduras da América Latina.

1979
Assume a presidência do Iraque, após um golpe de Estado, o ditador Saddan Hussein. Com o apoio dos Estados Unidos, Grã Bretanha, França e União Soviética, o presidente iraquiano lançou seu país numa sangrenta guerra contra o Irã. O objetivo era deter a revolução islâmica liderada pelo aiatolá Khomeini. A revolução islâmica tornou-se uma ameaça aos interesses das potências ocidentais no Oriente Médio devido ao seu conhecido espírito anti-ocidental, especialmente raivoso em relação aos Estados Unidos. A guerra Irã-Iraque se estendeu de 1980 a 1988 e provocou a morte de 300 mil iraquianos e 400 mil iranianos.

1982
É identificada a Síndrome de Imunodeficiência Adquirida (AIDS), doença provocada pelo vírus HIV. No decorrer da década de 80 a doença se transforma em epidemia, espalhando pelo mundo inteiro e sendo utilizada pelos arautos da intolerância como pretexto para atacar e condenar o modo de vida dos homossexuais.

1991
Eclode a Guerra do Golfo. Saddam Hussein invade o Kwait, proclamando o direito milenar do Iraque sobre o seu vizinho. As potências capitalistas ocidentais, movidas pelo petróleo, se sentem ameaçadas frente a gana expansionista de Saddam no Oriente Médio. Sob o pretexto de defender a liberdade e a democracia os Estados Unidos formam uma coalizão de 29 países, entre eles Grã Bretanha e França, outrora aliados de Saddam, para bombardear o Iraque. Ao contrário do que a propaganda norte-americana afirmava, a população civil iraquiana foi duramente atingida pelos bombardeios.

1992
Tem início a guerra civil na ex-Iugoslávia. Sérvios e croatas disputam territórios e direitos num conflito marcado pela explosão bestial de antigos ódios e preconceitos nacionais e religiosos.

2001
Após os atentados de 11 de setembro ao World Trade Center em Nova Iorque (EUA) o governo estadunidense chefiado pelo George Bush (o filho) invade o já arruinado Afeganistão com o pretexto de livrar o mundo da ameaça terrorista. Até hoje o objetivo da guerra não foi atingido e o terrorismo no mundo só aumentou, desde o terrorismo praticado pelos governantes, sobretudo os das grandes potências, ao terrorismo praticado por grupos políticos revolucionários ou mercenários. Os mais atingidos nessa “cruzada contra o terror” são, como sempre, a população civil, principalmente mulheres e crianças. Acredita-se que 1 milhão e meio de afegãos passem fome e 7 milhões e meio sofram, direta ou indiretamente, com o resultado da grave situação política, econômica e social do país, resultante da combinação entre guerra civil, longas estiagens, a opressão talibã e a invasão liderada pelos EUA.

2003
Ocorre a Invasão do Iraque por uma aliança bélico-militar entre os Estados Unidos, Reino Unido, entre outras nações, numa aliança conhecida como a Coalizão. O pretexto da ocupação, inicialmente, foi achar armas de destruição em massa que, supostamente, o governo iraquiano teria em estoque e que, segundo George Bush (o filho), representavam um risco ao seu país e ao mundo. As supostas armas de destruição em massa, no entanto, jamais foram encontradas pelas forças de ocupação. Também as alegadas ligações de Saddam Hussein com grupos terroristas islâmicos nunca foram comprovadas. Na verdade, tais grupos opunham-se a Saddam, pois eram xiitas em sua maioria, enquanto o líder iraquiano era sunita e ao contrário do que se imaginava, Iraque era um dos países mais laicos da região. O resultado dessa invasão, como sempre, é o extermínio de várias vidas preciosas.

2008 – 2009
O governo israelense inicia uma ofensiva bélico-militar contra a Faixa de Gaza como resposta aos ataques do grupo Hamas. Os efeitos da ofensiva foram severos para a população civil. De acordo com a ONU, 6.600 foi o número de mortos e feridos na Faixa de Gaza durante os 22 dias que durou a operação militar israelense contra o movimento radical islâmico Hamas no território palestino. Do lado palestino o número de mortos foi de 1.314 (416 crianças e 106 mulheres). Os feridos somaram 5.320 (1.855 crianças e 725 mulheres). Ademais, 55.000 palestinos tiveram que se deslocar de suas casas por causa do conflito. Do lado israelense, houve quatro mortos e 84 feridos.

Nosso breve passeio pela história chega ao fim. Porém, não sabemos se nesse terceiro milênio a humanidade amadureceu o suficiente para superar definitivamente as chagas abertas pela intolerância de todo tipo. Oxalá tenhamos amadurecido (por Sílvio Benevides)!
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Imagem: Luc Viatour a partir de desenho de Leonardo da Vinci.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Muito além dos estereótipos

Após ter visto um certo show em cartaz em um certo bar-restaurante-pizzaria do Rio Vermelho, reduto boêmio de Salvador, decidi escrever sobre o que considero uma ode à intolerância disfarçada de humor chulo e grotesco. Mas resolvi não fazê-lo. Não quero que este espaço seja veículo da estupidez insossa de quem acredita que todo gay pensa apenas em sair pelo mundo a fora só para dar o cu, que os parisienses são frescos, os bascos terroristas, os freqüentadores dos bailes funks cariocas bandidos, os portugueses, nossos colonizadores, um bando de depravados corruptos que arruinaram o Brasil desde os tempos em que “Caramuru comeu o cu da Paraguassú”, os baianos um povo indolente e atrasado, und so weiter. Não! Não quero discorrer sobre a estupidez dos insensatos! Tal qual o José Régio, português do mais alto valor, eu também “amo o Longe e a Miragem, amo os abismos, as torrentes e os desertos...” Por essa razão, prefiro percorrer outras paragens.

No último dia 17/09 foi encerrada no Instituto Cultural Brasil-Alemanha (ICBA), o Goethe-Institut de Salvador, a exposição “Canudos: a guerra de Os sertões”, do artista plástico baiano Trípoli Gaudenzi. A mostra, que já esteve em São Paulo, Paris, Havana, Colônia e Berlim, integrou a programação oficial da 36ª Jornada Internacional de Cinema da Bahia, cujo tema central deste ano foi o centenário da morte do Euclides da Cunha.

O episódio de Canudos foi e é um dos maiores massacres da história do Brasil. Mas nas mãos de um Artista de fato, isto é, um Artista de verdade, como é o caso do Trípoli Gaudenzi, o grotesco vira arte questionadora, ou seja, uma arte que faz refletir, que denuncia e educa, contribuindo, desta maneira, para o engrandecimento da cultura de todos nós. Por meio de uma beleza épica ímpar, Trípoli Gaudenzi narra a saga e o drama do povo liderado pelo Antônio Conselheiro, vítima da intolerância e da violência da sociedade brasileira, que, em 1897, colocou todo seu aparato bélico-militar a serviço do extermínio do que se julgava ser atraso, incivilidade, vergonha, indolência e inadmissível insubordinação. Tanto horror e iniqüidade nos saltam aos olhos com uma ferocidade por vezes inquietante, por vezes piedosamente cortante. Há momentos que é possível ouvir as dores e úlceras daquela gente a arder em meio ao fogo do inferno de Dante. Produzidas em acrílico, guache, bico-de-pena, óleo, pastel e técnicas mistas, as telas da mostra “Canudos: a guerra de Os sertões” são a mais pura expressão de um barroco tipicamente pós-moderno.

E já que se falou na Jornada Internacional de Cinema da Bahia, o grande vencedor da mostra (por unanimidade) foi o filme paraguaio Karai Norte, do diretor Marcelo Martinesse. O curta, patrocinado pela Petrobrás, além de ser laureado com o prêmio Glauber Rocha de melhor filme da 36ª Jornada Internacional de Cinema da Bahia, ganhou mais cinco troféus: melhor ficção, melhor atriz (Lídia de Cueva), melhor direção, melhor roteiro (adaptado de um conto do escritor paraguaio Carlos Villagra Marsal) e melhor som. Falado em guarani, Karai Norte narra a história de uma velha índia que vive num casebre miserável perdido em meio às veredas do grande sertão paraguaio. Enquanto prepara seu “de comer”, ela recebe a visita de um desconhecido rude e mal encarado. Ele pede comida. Ela, a princípio nega, mas após ameaçadora insistência, a velha senhora oferece o pouco alimento que tinha, afinal, ela nada poderia fazer caso ele resolvesse partir para a ignorância. Refestelado, o forasteiro pergunta como pode retribuir aquele carinho. Diz a ela para pedir-lhe o que quiser que ele tratará de conseguir. A velha índia responde que seu desejo era reaver seu machado, lampião e suas poucas roupas que lhes foram roubadas por uns homens vindos do norte. O desfecho é rude, tão rude como o sertão que os circunda. Como bem lembrou Malu Fontes, uma das juradas da Jornada, ao entregar o prêmio ao representante da produção paraguaia, o filme de Martinesse é uma bela homenagem à estética do cinema novo, embora não fosse essa a intenção do diretor. Prêmio mais que merecido. Meu amigo Renato Nascimento certamente aplaudiria de pé. Só mesmo a Jornada Internacional de Cinema da Bahia para nos colocar em contato com o que há de melhor na produção cinematográfica latino-americana. Como se pode perceber, a Bahia é muito mais do que reles estereótipos. Somente os insensatos não são capazes de perceber tamanha grandeza, pois a estupidez não os deixa ver (por Sílvio Benevides).
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Imagem: Canudos: a guerra de Os Sertões, Trípoli Gaudenzi; Foto: Sílvio Benevides.

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

A era Obama

No último dia 10/09/2009 o cientista político e historiador baiano, especialista em política exterior e relações internacionais, Luiz Alberto de Vianna Moniz Bandeira, proferiu palestra na Escola de Administração da UFBA, evento promovido pelo Laboratório de Análise Política Mundial (LABMUNDO), sobre “A Política Externa dos EUA no Governo Obama”.

Para Moniz Bandeira o governo estadunidense não possui uma única política externa, mas, sim, diversas políticas externas, porque os EUA são um país heterogêneo e pluralista. Estas políticas na maioria das vezes coincidem. Entretanto, há momentos em que elas se contrapõem, como ocorreu, por exemplo, no período posterior à Revolução Cubana de 1959. Nessa época, o Departamento de Estado dos EUA tinha como diretriz não reconhecer governos formados a partir de processos revolucionários ou de golpes de estado. Essa, porém, não era a diretriz da Central Intelligenge Agency (CIA) e do Pentágono, que, temendo o avanço da ideologia socialista na América Latina, estimularam diversos golpes de estado no continente e o reconhecimento imediato dos governos resultantes dessas ações. No atual contexto não é diferente. Contudo, as demandas de hoje exigem que o presidente Obama elabore uma agenda política, principalmente no que diz respeito à política externa, menos bélica e mais diplomática, pois o que caracteriza o imperialismo contemporâneo não é mais a exportação de capital. “A situação dos EUA é muito precária. A própria eleição do Obama já indica um declínio do império americano representado pela elite branca de olhos azuis. Por isso Obama precisa perpetrar mudanças”, enfatizou Bandeira. Ele lembrou que um dos principais indicadores dessa decadência imperialista estadunidense é o déficit orçamentário do país, que gira em torno de US$ 7 trilhões. “O século XXI não será o século americano. A tendência é a multipolaridade”, ressaltou.

Em relação às políticas voltadas para a América Latina, as mudanças também se fazem necessárias. De acordo com Bandeira, o golpe de estado em Honduras foi deflagrado para desafiar Obama, que, da mesma maneira, não está conseguindo implementar no continente latino toda a sua agenda política, devido, também, à pluralidade social dos EUA. Mas, afinal, qual é mesmo a agenda política do governo Obama? Essa questão nem o Moniz Bandeira soube responder. Mais uma evidência do declínio do todo-poderoso EUA? “O mundo está em constante transformação e é difícil prever os rumos dessa transformação”, ponderou.

No que tange a América do Sul, Moniz Bandeira não acredita que haja intenção por parte do governo estadunidense em promover ações armadas na região que ofereçam riscos à segurança continental, apesar de firmar acordos com o governo da Colômbia para instalar bases militares nesse país. Segundo ele, tais bases são uma tentativa de impedir que o Brasil se consolide como uma forte liderança no continente sul americano e, por conseguinte, em toda a América Latina. Por essa razão ele defende a compra pelo governo brasileiro de equipamentos bélicos para as Forças Armadas nacionais. “O cenário internacional é um cenário muito selvagem. Uma política só é respeitada ou considerada se quem a propõe tiver poder de fogo”, concluiu (por Sílvio Benevides).
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Imagem: Luis Leal Filho

domingo, 6 de setembro de 2009

Poema Falado: Filosofia do Gesto ou Pernambucobucolismo

Lembro-me bem do que escreveu Fernando Pessoa no seu Palavras do Pórtico. Escreveu ele: Navegadores antigos tinham uma frase gloriosa:Navegar é preciso; viver não é preciso*. Quero para mim o espírito [d]esta frase, transformada a forma para a casar como eu sou: Viver não é necessário; o que é necessário é criar. Não conto gozar a minha vida; nem em gozá-la penso. Só quero torná-la grande, ainda que para isso tenha de ser o meu corpo e a (minha alma) a lenha desse fogo. Só quero torná-la de toda a humanidade; ainda que para isso tenha de a perder como minha. Cada vez mais assim penso. Cada vez mais ponho da essência anímica do meu sangue o propósito impessoal de engrandecer a pátria e contribuir para a evolução da humanidade. É a forma que em mim tomou o misticismo da nossa Raça. Quero para mim o espírito dessas palavras a fim de transformá-las em minhas e, desta forma, poder dizer: DESCOLAR-SE É PRECISO!

O Poema Falado deste mês discorre sobre o bucólico ato de descolar-se. Reúne quatro poemas: Filosofia do Gesto, de Mel de Carvalho, falado por Sílvio Benevides; Poema para Amsterdam, de Sérgio LDS; Lisboa, de Coimbra de Resende; Vielas de Alfama, belíssimo fado de Maximiano de Sousa e Arthur Ribeiro; e, por fim, Pernambucobucolismo, canção viandante composta por Marisa Monte e Rodrigo Campelo, interpretada pela própria Marisa Monte. Boa Leitura!
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*NOTA: “Navigare necesse; vivere non est necesse”, frase atribuída a Pompeu (106-48 aC.), general romano, dita aos marinheiros que, amedrontados, recusavam viajar durante a guerra.
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Imagem: Parque Costa Azul - Salvador-BA (Sílvio Benevides).

segunda-feira, 31 de agosto de 2009

Os estrangeiros

Em sua postagem do dia 18/03/2009 intitulada “A essência dos lugares”, o futuro jornalista por formação, Lucas Franco, indaga: “O que são lugares, se não pedaços de terras que em conjunto podem rotular cidades, países e continentes? Somos fruto da essência dessas terras, mesmo sabendo que sua identidade tem uma ligação muito mais forte que geográfica, tendo a raiz cultural como fruto de sua história”?

Falar de identidade significa falar de pertencimento, ou melhor, de sentimento de pertença. O fato de um indivíduo nascer em um determinado espaço geográfico não significa que, necessariamente, ele se sentirá pertencente a esse espaço. Por vezes, ocorre o contrário. Há casos em que o indivíduo, estando no seu espaço de origem, se sente como se estrangeiro fosse. Como isso é possível? Como se pode ser estrangeiro?

O dicionário define estrangeiro como aquele de nação diferente daquela a que se pertence; pessoa que não é do país em que está; forasteiro. Essa definição deixa claro que o não pertencimento a uma nação, país ou localidade é a condição primeira para que um indivíduo possa ser classificado como estrangeiro. Considerando esse conceito, é possível afirmar que o estrangeiro é aquele que emigra, ou seja, aquele que viaja.

Viajar é libertar-se de um ponto qualquer no espaço e, assim sendo, é também opor-se conceitualmente à fixação nesse ponto. O estrangeiro transita entre essas duas características (liberação e fixação) e revela que as relações espaciais são, simultaneamente, condição e símbolo das relações humanas, ou seja, uma forma específica de interação. Esta, por sua vez, envolve uma relação ambígua de proximidade e distância, que ora é positiva, quando os traços comuns entre o estrangeiro e o grupo no qual ele se inseriu são acentuados, ora é negativa, quando, ao contrário, são acentuados os traços não-comuns. No primeiro caso, ressalta-se a objetividade do estrangeiro como um valor positivo, pois, por ele não possuir vínculos de parentesco, localidade e ocupação com o grupo, estaria mais propenso a introduzir qualidades novas a esse grupo uma vez que “não está amarrado a nenhum compromisso que poderia prejudicar a sua percepção, entendimento e avaliação do que é dado”. Entretanto, tal objetividade não implica em uma não-participação, ou total afastamento do estrangeiro, “mas um tipo específico e positivo de participação”. No segundo caso, o estrangeiro é visto como o outro ao qual não é permitido possuir atributos característicos do grupo, ainda que tais atributos sejam genéricos. A relação entre proximidade e distância torna-se, então, uma relação tensa e conflituosa, gerando o fenômeno conhecido na Antropologia como etnocentrismo. “A relação dos gregos com os bárbaros talvez seja típica aqui, como todos os casos em que precisamente os atributos genéricos, percebidos como pura e especificamente humanos, são aqueles não permitidos ao outro. Mas aqui, estrangeiro não tem qualquer sentido positivo; a relação com ele é uma não-relação [...] quando a consciência de só ser comum o absolutamente geral faz com que se acentue especialmente o não-comum”. (George SIMMEL. In: Coleção grandes cientistas sociais. São Paulo: Ática, 1983).

O estrangeiro pode despertar naqueles que o acolhe uma profunda atração, assim como uma imensa repulsa. Nesse sentimento ambíguo, o medo, a admiração, a desconfiança, a estranheza, enfim, comumente estão presentes. Isso talvez ocorra porque o estrangeiro, na verdade, é um ser híbrido, culturalmente indefinido, fixado em um “entre lugar”, isto é, um lugar multiculturalmente marcado ou multiplamente caracterizado. Tal espaço pode ser entendido como um lugar de transposição de territórios que, por sua vez, abre caminho para que se possa ir além das singularidades como conceitos primários ou categorias monolíticas fixas e, consequentemente, conduz a uma não aceitação de hierarquias rígidas e impostas. Desses espaços afloram narrativas que não possuem referências específicas por revelarem um desconforto, um estranhamento justamente por sempre terem estado à sombra (Homi BHABHA. In: The location of culture. London/New York: Routledge,1994). Sendo assim, o estrangeiro strictu sensu, aquele que habita um lugar diferente daquele onde nasceu, tem como uma de suas principais características uma fidelidade dilacerada. Por não ser, e ao mesmo tempo sê-lo, parte integrante do lugar onde se encontra, ele sugere algo que não é nem homogêneo, nem único, tampouco fixo. Em conseqüência, contem em si um ponto de vista mais subjetivo, diferenciado, alternativo, não-privilegiado, o que explica a sensação de desconforto e estranheza tanto nele, quanto naqueles que o cercam.

Até o momento falou-se do estrangeiro viandante (strictu sensu), que abandona sua terra natal para se aventurar em terras estranhas e desconhecidas. Mas, e quanto ao estrangeiro não desterrado, ou seja, aquele indivíduo que é estrangeiro entre a sua própria gente, aquele tipo que aqui foi chamado de nativo, pois não abandonou sua terra natal? Um tipo definido pelo escritor Caio Fernando Abreu como estranho estrangeiro.

Assim como o viandante, o estrangeiro nativo também desperta nos outros, os seus compatriotas (ou não) um sentimento de admiração e repulsa. Paralelamente, uma sensação de estranheza se apossa dele, fazendo-o pensar: “O céu tão azul lá fora, e aquele mal-estar aqui dentro” (Caio Fernando ABREU. In: Estranhos Estrangeiros. São Paulo: Companhia das Letras, 1996).

Essa sensação de mal-estar vivenciada pelo estrangeiro nativo origina-se na dificuldade que, geralmente, encontramos em pensar a diferença. Diferença que assusta, pois o simples fato dela existir nos faz perceber que nossos valores, nossos modelos, nossas concepções acerca do mundo que nos envolve não são únicas e definitivas. Isso nos leva a hostilizar esse outro, supostamente ameaçador, por meio de palavras ou atitudes que podem ir de um simples gesto, até a mais explícita segregação. Assim, ainda que inconscientemente, levamos o estrangeiro nativo a confinar-se nos infernos da solidão. “Se você é o único diferente, é o único que em meio a tantos age de tal maneira, faz isso ou aquilo, e essas coisas ferem as pessoas, maculam a espécie, então, o problema é você, e você se sente só”. (Mayrant GALLO. In: O caso Mersault: uma leitura crítica. Comunicação apresentada no seminário “O Estrangeiro” para o curso Crítica Cultural Contemporânea em 16/09/1997).

Mas quem são esses estranhos estrangeiros? Certamente são aquelas vozes recalcadas que por se negarem a aceitar os modelos de padronização e igualdade de comportamentos impostos a todos os indivíduos pertencentes a uma mesma cultura, são rotuladas de estranhas, rebeldes ou, ainda, em certas ocasiões, de anormais.

A interação do estrangeiro nativo com os demais envolve, do mesmo modo que a do estrangeiro strictu sensu, uma relação ambígua de proximidade e distância e também possui um valor positivo e negativo, embora esse valor não seja idêntico àquele mencionado por Simmel ao referir-se ao viandante. Podemos falar em valor negativo, quando o estrangeiro nativo não se percebe ou, ao se perceber, não se aceita como tal e, consequentemente, a convivência com a sensação de mal-estar, mencionada anteriormente, se torna mais difícil, o que pode transformá-lo num mal caráter, como disse o escritor Caio Fernando Abreu ao se referir aos homossexuais “enrustidos” que não assumem sua condição até os trinta e cinco anos, ou, então, num esquizóide, uma vez que o seu “eu” está dividido. “O termo esquizóide refere-se ao indivíduo cuja totalidade de experiência divide-se em dois principais sentidos: em primeiro lugar, uma ruptura em seu relacionamento com o mundo e, em segundo lugar, uma ruptura em relação consigo mesmo. Tal pessoa é incapaz de sentir-se junto com os outros, ou à vontade no mundo. Pelo contrário, experimenta uma desesperadora solidão e isolamento; além do mais, não se sente uma pessoa completa, e sim dividida de diversas maneiras, talvez como uma mente ligada ao corpo por tênue fio, como duas personalidades, etc.” (R.D. LAING. In: O eu dividido: estudo existencial da sanidade e da loucura. Petrópolis: Vozes, 1996).

Em contrapartida, o estrangeiro nativo adquire um valor positivo, quando, se percebendo como tal, assume sua condição, sem se calar, fazendo dela um instrumento de luta. Essas vozes ao conseguirem emergir do fundo, ou das profundezas dos vales onde estiveram adormecidas, podem desencadear significativas mudanças nas estruturas sociais. Talvez por isso, às vezes, elas se apresentem ora atraentes, ora incômodas e repulsivas. Tomemos como exemplo de estrangeiros nativos, os jovens brasileiros das décadas de sessenta e setenta. Nessas décadas, “desenvolveram-se várias práticas sociais alternativas, isto é, grupos sociais, em sua maior parte compostos por jovens, agiram no sentido de questionarem as instituições sociais vigentes (quer de uma perspectiva comportamental, como os movimentos contraculturais; quer de uma perspectiva mais especificamente política, como os movimentos de luta armada)” (Cláudio Novaes Pinto COELHO. In: A cultura juvenil de consumo e as identidades sociais alternativas. São Paulo: 1997). Esses jovens que na vida cotidiana vivenciavam experiências nas quais o autoritarismo se apresentava não apenas como um poder oriundo das grandes instâncias políticas, exercido verticalmente de cima para baixo, mas, também, na forma de relações ou práticas disseminadas nos setores mais capilares da sociedade, acabaram por evidenciar, por meio das suas práticas políticas ou simplesmente através de suas atitudes, novas demandas e ansiedades, não necessariamente subordinadas às instâncias políticas ou econômicas.

Os tipos aqui mencionados nos revelam modos diversos de ser estrangeiro. Não basta ser forasteiro ou não possuir a cidadania do país onde se habita para ser ou sentir-se estrangeiro. Trata-se muito mais de um sentimento do que uma mera condição jurídica. “Estranhamente, o estrangeiro habita em nós: ele é a face oculta da nossa identidade, o espaço que arruína a nossa morada, o tempo em que se afundam o entendimento e a simpatia. Por reconhecê-lo em nós, poupamo-nos de ter que detestá-lo em si mesmo. Sintoma que torna o nós precisamente problemático, talvez impossível, o estrangeiro começa quando surge a consciência de minha diferença e termina quando nos reconhecemos todos estrangeiros, rebeldes aos vínculos e às comunidades”. (Júlia KRISTEVA. In: Estrangeiros para nós mesmos. São Paulo: Rocco, 1994). Esses tipos (incomuns?), embora distintos um do outro, estão, simultaneamente, tão distantes e tão próximos que por vezes se confundem e nos confundem, porque assim são os estrangeiros (forasteiros ou não): híbridos, diferentes, estranhos. Sempre em busca de algo, ou, quem sabe, sempre fugindo desse algo (por Sílvio Benevides).
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Imagem: Antônio Soares dos Reis - O desterrado (1872).

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Quando Cabral descobriu o Brasil...

Quando Cabral aportou com sua frota em terras brasileiras, encontrou uma flora exuberante. Tanta exuberância está registrada na CARTA DE PERO VAZ DE CAMINHA, na qual o escrivão relata ao rei de Portugal: “[…] mataria que é tanta e tão grande, tão densa e de tão variada folhagem que ninguém pode imaginar”. Pero Vaz de Caminha estava se referindo nesse trecho da carta à Mata Atlântica.

A Mata Atlântica, classificada pelos cientistas como uma Floresta Perenifólia Higrófila, foi o primeiro cenário brasileiro avistado pelos portugueses quando aqui chegaram em 1500. Àquela época, a mata possuía uma área de aproximadamente dois milhões de quilômetros quadrados, que se estendia por planícies e encostas montanhosas paralelas ao litoral, indo do Estado do Rio Grande do Norte ao Rio Grande do Sul. Expandia-se para o interior numa largura média de duzentos quilômetros. Atualmente, restam menos de 3% desse total.

A devastação da Mata Atlântica teve início com a exploração do pau-brasil no século XVI. Desde então ela tem aumentado drasticamente. Cálculos de órgãos de defesa do meio ambiente indicam que cerca de trezentos mil hectares da Mata Atlântica são devastados a cada ano. Nesse ritmo de devastação, logo a mata que encheu de encantamento os olhos de Pero Vaz de Caminha existirá somente no terreno dos mitos e das lendas.

Esse preâmbulo foi colocado somente para dizer que é preciso entender que devastar o meio ambiente é uma prática insana, irracional e suicida. Dita dessa maneira, tal afirmação pode parecer um disparate, sobretudo num mundo orientado por uma lógica que visa apenas a obtenção do lucro e o bem-estar do mercado. Falar de respeito e preservação da natureza, no entanto, é uma questão de sobrevivência.

Quando não conseguimos deter a devastação do meio ambiente em que vivemos, comprometemos de imediato a nossa qualidade de vida e colocamos em risco o futuro do planeta e das futuras gerações. Muitos dos recursos naturais não são renováveis e aqueles que o são, na maioria das vezes, necessitam de centenas ou milhares de anos para se restabelecerem. Os efeitos das agressões ao meio ambiente já começam a se fazer presentes em nosso cotidiano. Temperaturas mais elevadas, devido ao aumento da poluição atmosférica, escassez de água potável em grandes centros urbanos, por causa da poluição dos rios e lençóis freáticos, etc. No caso específico de Salvador não é preciso ser nenhum especialista em meio ambiente para saber que as coisas por aqui estão ficando quentes. Enquanto isso, nossos homens públicos continuam a trocar nosso açúcar excelente por drogas inúteis, ou seja, devastando o que nos restou de mata para permitir que no lugar delas sejam erguidos condomínios de luxo. No futuro eles não pensam. Nossa vida depende mais do bem-estar do planeta do que do bem-estar do mercado. Este nada mais é do que uma mera ilusão. Ilusão esta que sem controle destrói até mesmo o futuro (por Sílvio Benevides).
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Imagem: Jardim Zoológico de Salvador (Sílvio Benevides)

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

Cirque du Soleil em Salvador com o espetáculo Quidam

O Cirque du Soleil, em português “Circo do Sol”, é uma companhia circense com base em Montréal, Quebec, Canadá. Fundado em Quebec em 1984 por dois ex-artistas de rua, Guy Laliberté e Daniel Gauthier, em resposta a um apelo feito pelo Commissariat général aux célébrations 1534-1984 do governo de Quebec, sobre a comemoração do 450º aniversário da descoberta do Canadá pelo explorador francês Jacques Cartier (1491-1557). A companhia é a maior atração do gênero no mundo. Atualmente o Cirque du Soleil é dirigido por Guy Laliberté, proprietário de 95% do patrimônio do Cirque e na lista de bilionários da revista Forbes. Gauthier em 2000 vendeu sua parte da companhia para Guy Laliberté.

Fui assisti ao espetáculo em um dia só para convidados e dedicado ao público de entidades carentes, alunos de escola de circo, alunos de escolas públicas como também profissionais e educadores dessas entidades. Observei a chegada dos ônibus lotados, inclusive de outros estados, como Alagoas, para participar desse primeiro espetáculo. Eram muitas crianças e adolescentes que já demonstravam a ansiedade para participar desse grande estréia. Esse dia foi uma espécie de ensaio geral antes da grande estréia do público pagante. Uma apresentação perfeita!

O personagem Boum Boum, uma espécie de mestre de cena, surge com suas luvas de boxe em meio às arquibancadas, acompanhado por música ao vivo. Então ele retorna ao picadeiro. Uma voz ecoa nos dando boas vindas em francês, inglês e português. Na minha frente o picadeiro vira um palco giratório que a princípio penso que são os artistas que estão flutuando no palco e só depois noto que é o palco que gira. Posso dizer que fiquei de queixo caído. É perfeito!!

Inicia-se o espetáculo com uma grande roda de metal surgindo com o primeiro artista a se apresentar deslizando nesse palco. Ele roda, gira, rodopia e manobra a roda, executando saltos mortais e acrobacias que desafiam as leis da gravidade. E esse é apenas um dos muitos que ainda estavam para chegar. Tenho que dizer que ele é um dos meu preferidos. Fantástico!

Tinha também as chinesas com seus diablos, ou ioiô chinês. Nesse momento vejo uma brincadeira de criança transformada em arte. Jovens artistas chinesas, cada um com dois paus ligados por um fio em que um carretel é atirado, equilibrado e manuseado de forma quase mágica, tentam superar-se uns aos outros neste espantoso jogo de destreza e talento.

Uma outra brincadeira de criança que toma um efeito coreográfico são as cordas. À medida que as cordas marcam o ritmo, um grupo de acrobatas, dotados de excepcional capacidade de coordenação e ritmo, executa uma corrente seguida, a solo, em dois ou em grupo, de saltos e dança. Incrível! Não posso deixar de falar do palhaço The Clown. O artista chamava pessoas da platéia para participar e, assim, interagindo com a platéia, ele fazia sua graça. O palhaço trabalha com muita desenvoltura e sabe improvisar muito bem. Rezei muito para não ser chamada e consegui! As pessoas que pagaram o mico parece que se divertiram bastante e foram muito aplaudidas.

Todos os artistas muito coloridos e com muita maquiagem. Uma mistura do medieval e do barroco para fazer um lindo espetáculo. São contorcionismos, malabarismos, palhaços e trapezistas. Atualmente, o circo é formado por integrantes de muitas nacionalidades, fazendo espetáculos em todas as partes do mundo. Entre seus integrantes temos o acrobata baiano: Jaílton Carneiro. Ele é soteropolitano, nascido e criado no bairro da Boca do Rio (Silvio, realmente na Boca do Rio se encontra tudo mesmo, não é?!!). Ele é um dos principais artistas do espetáculo Quidam. Em seu personagem Boum Boum fica a todo momento em cena e depois toma seu lugar entre os acrobatas. Do circo Picolino, Jaílton foi para São Paulo onde trabalhou em alguns circos até receber o convite do Cirque du Soleil para integrar a trupe. Passou no teste e entrou na companhia em 2002. Hoje é uma das estrelas do Quidam, espetáculo do circo que já passou por 20 países e reúne 51 artistas de 15 nacionalidades. Além do baiano, outros dois brasileiros integram o elenco do espetáculo Quidam: Denise Wal e Gracilene Oliveira de Moura.

O Cirque du Soleil impressiona qualquer pessoa desde a sua estrutura física montada, a sua organização, pontualidade indiscutível e seu espetáculo absolutamente grandioso. Foi emocionante presenciar tal espetáculo. Um espetáculo vivo, cheio de energia e de cores. Os olhos das crianças brilhavam de emoção em todos os movimentos! Aplaudindo a cada finalização dos artistas, garantindo, também, sua presença e participação. Uma sensação que as palavras não alcançam descrever. Tem mesmo que ir e sentir porque o Cirque du Soleil é sentimento a todo momento.

Ficou na minha cabeça, ao final de tudo, já na saída, a palavra de uma garotinha de uns 6 anos do circo Picolino, que pega sua vasilha plástica da pipoca (com a logomarca do Soleil recebida durante a apresentação) da mão da educadora dizendo: “quero guardar essa vasilha de pipoca para não me esquecer nunca que fui um dia no Circo de Soleil”. BRAVO, CIRQUE DU SOLEIL !!! (por Gina Carla Reis)
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Imagens: Al Seib (Quidam - Cirque du Soleil).

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Avanço rumo ao retrocesso?

Li o artigo abaixo (A Idade Média pós-moderna), publicado no sítio Uol Notícias, e fiquei a pensar se o mundo contemporâneo resulta de uma série de avanços ou de retrocessos. Por um lado há indícios de que a humanidade avança rumo à construção de um mundo melhor para todos. Um exemplo? As guerras já não são mais tão necessárias como outrora foram. Outro exemplo? A escravidão hoje é uma prática criminosa e amoral. E como não considerar as inúmeras conquistas feministas como avanços salutares não apenas para as mulheres, mas para a humanidade como um todo? De fato, há muito chão a ser percorrido em direção a um mundo melhor para todos, mas passos importantes estão sendo dados. Por outro lado, porém, retrocessos caminham lado a lado dos avanços. Basta ler o texto abaixo de autoria do Parag Khanna, um indiano radicado nos EUA, que considera a Europa como a nau que conduzirá a humanidade rumo a um futuro brilhante. Brilhante para quem, ele não especifica, porque sua análise se baseia tão somente em projeções que poderão promover ainda mais o desenvolvimento do capitalismo.

Todos nós sabemos que o capitalismo não é inclusivo, muito pelo contrário. Quem tem muito não quer dividir o que tem com aqueles que pouco ou nada têm. Talvez seja por isso que movimentos xenófobos têm crescido consideravelmente em toda Europa. Seja na Alemanha, Holanda, França, Portugal ou Espanha, os culpados pelo aumento da miséria e da violência no continente europeu são sempre os imigrantes, venham eles da Ásia, da África, da América Latina ou mesmo do Leste europeu. O mercado capitalista e as políticas que o privilegiam estão sempre certas, já os imigrantes... Para estes as duras leis de imigração. Todos são culpados de terrorismo ou perturbação da ordem pública até que se prove o contrário. Nesse aspecto, estamos sim a viver num período de trevas, como normalmente os mais desinformados se referem à Idade Média, e não creio que será a Europa que trará o Renascimento. Também tenho dúvidas se a Europa pode servir de exemplo para a América Latina, África ou os povos orientais. Essa tal de Idade Média pós-moderna não passa de uma nova roupagem para o velho, tosco e soberbo etnocentrismo dos imbecis que se acham grande coisa. Leiam o texto do Parag Khanna e reflitam sobre o que acabo de escrever (por Sílvio Benevides).

A IDADE MÉDIA PÓS-MODERNA

No futuro, a globalização enfraquecerá ainda mais o Estado-nação. Um longo processo de transição em direção ao governo global será, como a Idade Média, uma época de grande insegurança. Mas a estrutura de governo da Europa irá prevalecer, mesmo nos Estados Unidos. Ela comprará seu caminho para a paz e seu modelo será copiado em todo o planeta.

A Europa inventou, nomeou e moldou todas as eras da história - e continuará a fazer isso no futuro. O mundo clássico é definido pelo florescimento da Grécia; a Idade Média seguiu-se à queda de Roma; o Renascimento europeu levou à formação dos Estados-nação que organizaram o mundo à sua imagem; e no século 21, a Europa está à frente do regionalismo pós-Estado-nação e governo pós-moderno correspondente que também está sendo adotado em todo o mundo.

Já podemos ver indicações de que o mundo está seguindo o caminho da Europa. Basta considerar a atual crise financeira global: cada vez mais observadores preveem que há uma necessidade de equilíbrio entre o capitalismo norte-americano e a intervenção exagerada e inflexível do Estado. A mistura certa é o capitalismo social-democrata ao estilo europeu.

Primeiro vamos dar um passo atrás para ver como a paisagem mundial já começou a lembrar um período crucial da história europeia, mais especificamente a Idade Média. Foi um período longo e incerto, e, portanto, uma metáfora ideal para os nossos tempos. Foi uma era de pragas e progresso, revoluções comerciais, expansão de impérios, cruzadas, cidades-Estado, mercadores e universidades. A nova Idade Média - sinônimo da nossa era de globalização pós-moderna - já começou.

Principalmente as cidades-Estado, a unidade política medieval mais importante, continuarão sua ressurreição. Hoje a lista de "cidades globais" - Nova York, Los Angeles, Miami, São Paulo, Londres, Dubai, Cingapura, Hong Kong, Xangai, Tóqui - também incluem Alexandria, Karachi, Istambul, entre outras. Naquela época, como hoje, as cidades-Estado eram centros comerciais quase que totalmente desconectadas de sua âncora nacional, lembrando que os atores corporativos serão extremamente influentes no futuro.

Os fundos de riqueza soberana de hoje, fundidos ao conhecimento das cidades-Estado, serão a Liga Hanseática de amanhã, formando redes de capital que irradiam as mais novas tecnologias para os que estão próximos. Hamburgo e Dubai acabaram de assinar um acordo para incentivar o comércio bilateral e a cooperação técnica. As cidades-Estado pagarão por sua proteção à medida que a segurança global se privatiza ainda mais nas mãos de corporações, os cavaleiros, mercenários e condottieri do século 21.

A Idade Média testemunhou inovações desde o canhão até a bússola, todos projetados para melhorar a exploração global. Da mesma forma, a aceleração da comunicação e do transporte nos aproxima cada vez mais da simultaneidade. À medida que o número de bilionários aumenta para além de Gates, Branson e Ambani, os megafilantropos se tornarão os Médicis pós-modernos, financiando explorações no espaço e nas profundezas do oceano, governando territórios e produção, como príncipes medievais.

A nova Idade Média será tanto multipolar com os impérios em expansão no território eurasiano, quanto apolar, sem um único líder global. Os esforços de Carlos Magno de reavivar o Sagrado Império Romano foram sucedidos mais de um milênio depois pelas armadas múltiplas de eurocratas de Bruxels colonizando paulatinamente o Báltico, os Bálcãs e eventualmente a Anatólia e o Cáucaso. Seu livro não é a Bíblia, mas o “acquis communautaire”, os 35 capítulos da Lex Europea que reconstroem os Estados membros da União Europeia do avesso.

Não só a Ucrânia e a Turquia, mas com um pouco de sorte até a Rússia sem população e irritadiça será membro da UE em 2030. Depois de se tornar uma das principais artérias de energia da Europa, a Turquia também assumirá o papel de principal corredor de comércio e investimentos para a Ásia Central e o Oriente próximo. As redes de estradas que ligam Anatólia ao mar Cáspio foram estendidas para o sul em direção à Síria, Irã e Iraque, fornecendo acesso direto à energia do Oriente Médio e rotas de exportação para produtos europeus de alta qualidade.

O Oriente Médio será fundamental para a esfera de influência expandida da Europa em 2030. Apesar de que o mundo árabe será mais populoso que a Europa, seu suprimento de energia estará diminuindo e suas relações de comércio estarão cada vez mais atadas ao investimento europeu para a produção em larga escala de bens manufaturados, de automóveis a células solares.

O Islã continuará sendo uma fé fraturada, amplamente praticada, mas também subjugada pelo ímpeto do desenvolvimento econômico. Da mesma forma que a Europa comprou o comunismo, comprará a reforma do Islã em direção a uma democracia social construtiva e próspera. Os Estados do norte da África estarão ainda mais ligados à Europa através dos gasodutos de gás natural, produção em pequena escala terceirizada e agricultura. A visão atual de Sarkozy, de uma União Mediterrânea, de fato terá florescido numa ressurreição do Império Romano - com Bruxelas como sua capital.

Mas essa Europa de 2030 não irá apenas integrar seus vizinhos externamente, mas os misturará internamente também. As robustas populações ucranianas e turcas serão cada vez mais uma parte do tecido econômico e social europeu, mantendo o estatus do império como uma grande força manufatureira. Os migrantes árabes continuarão sendo uma característica das sociedades da Europa ocidental, mas assim como os turcos do final do século 20, tornar-se-ão diásporas construtivas, avançando modelos sociais e microeconômicos progressistas através de um fluxo livre de capital e ideias com o Ocidente.

O caminho da Rússia

O caminho da Rússia será de fato similar ao da Turquia. A repressão e a relutância iniciais, combinadas com um forte desejo de liberdade na política estrangeira, seguidas por uma aceitação gradual dos méritos da influência e coordenação compartilhadas, e por um apetite insaciável por investimentos europeus de alta qualidade e subsídios generosos. A Rússia trocará seu controle inseguro sobre o suprimento e os preços do petróleo e do gás pela estabilidade e a segurança dos consumidores europeus confiáveis. Ela aceitará a compensação justa, e aprenderá como gastar de forma mais sábia com a assistência de Bruxelas, Frankfurt e Londres.

Outras regiões exibirão hierarquias semelhantes ao estilo europeu. A China terá completado a restauração de seu antigo estatus de “Reino do Meio”, presidindo sobre metade da população mundial através de seu massivo volume de exportações, infraestrutura energética e redes de diáspora chinesa. O terceiro centro de gravidade do mundo continuará sendo os Estados Unidos, demograficamente estável mas também mais misturado à América Latina. Um século depois da "Aliança pelo Progresso" de Kennedy, os Estados Unidos terão redescoberto seus colegas do sul, especialmente o Brasil, como parceiros industriais para aumentar a competitividade do hemisfério em relação à Ásia e a independência da energia do Oriente Médio.

O modelo de governança regional que a União Europeia representa em sua forma mais sofisticada será copiado não somente na América do Norte e no leste da Ásia, mas gradualmente na América do Sul e na África. O Brasil já fala da União Sul Americana de integração econômica e diplomática, sob sua liderança benigna. A União Africana, apesar de estar atrasada em relação a outros blocos regionais, terá desenvolvido uma força de pacificação extremamente necessária para estabilizar seus muitos conflitos, enquanto as barreiras de comércio terão caído, permitindo que muitos países africanos presos no continente possam levar seus produtos aos mercados regionais e mundiais.

A Europa como intermediária

O modelo europeu para os Estados Unidos se aplica então nos níveis do capitalismo social-democrático e mecanismos de governança para instituições e mercados regionais - mas também em termos de política externa. A Europa terá liberalizado e modernizado sua periferia usando a mão estável da reforma governamental e do investimento estrangeiro, estratégias que os EUA deveriam ver como a chave para estabilizar o México e a América Central. As relações dos EUA com a China serão possivelmente influenciadas por essa psicologia, transformadas para o foco na responsabilidade com características chinesas em vez de uma democracia ao estilo norte-americano.

A Europa esta bem posicionada para ser esse intermediário ideológico e cultural entre o Ociente e o Oriente. Artistas indianos e chineses já estão prosperando na cena europeia, enquanto asiáticos ricos (e árabes) se tornam os principais compradores de artistas impressionistas e modernistas europeus. Da mesma forma, no campo da educação, mas chineses já estão estudando em universidades europeias do que nas norte-americanas, aprendendo o novo ethos social-democrático do século 21, da mesma forma que eles aprenderam o marxismo e o comunismo na Europa dos séculos 19 e 20.

Mesmo enquanto os militares de Europa se consolidam numa formidável força convencional, esse poder continuará sendo mais útil para fiscalizar e fazer intervenções pontuais do que guerras ou ocupações de longo prazo. Mas uma força policial pan-europeia como essa será necessária para as incertezas da nova Idade Média. De fato, não havia nada muito certo na Idade Média, e um número semelhante de fatores de risco existe nas próximas décadas. O que dizer da Aids, malária, Sars e outras doenças que poderiam se tornar pragas como a Peste Negra do século 14? E que impacto as horas de migrantes terão, potencialmente perturbadas por guerras e desastres ambientais? Quem serão as próximas hordas mongóis, pequenas e concentradas que violentamente estabelecerão a paz, a lei e a ordem? Estabelecer uma nova governança mundial levará séculos, vide a liderança incerta e a paisagem complexa dos meados do século 21. O próximo Renascimento ainda está muito longe (por Parag Khanna).
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Imagem: bandeira da União Europeia

domingo, 2 de agosto de 2009

Poema Falado: Sorri-Smile

Um poema é mais que um poema. Um poema é a senha que nos permite acessar o recôndito das almas, seja a alma de quem o escreve, seja a alma de quem o aprecia. Os poemas nos revelam. Vamos, pois, revelarmo-nos através dos poemas falados que doravante o Salvador na sola do pé e outros dois blogs, o Bienvenue-Ami e O cantinho de Coccinelle, apresentarão sempre no primeiro domingo de cada mês. Pretendemos formar uma rede tecida por versos e sons magníficos, afinal, como disse o Carlos Drummond de Andrade, “uma pessoa que tem hábitos intelectuais ou artísticos, uma pessoa que gosta de ler nunca está sozinha. Ela terá sempre uma companhia: a companhia imensa de todos os artistas, todos os escritores que ela ama, ao longo dos séculos”. Se quiser fazer parte dessa rede é só entrar em contato. O primeiro poema da série que hoje se inaugura é o Smile, letra composta por John Turner e Geoffrey Parsons para a música do Charles Chaplin. No Brasil ela foi lindamente traduzida por João de Barro, o Braguinha, nome fundamental da música brasileira. É esta tradução que aparece no vídeo abaixo. Boa leitura!
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SORRI (SMILE)
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Sorri quando a dor te torturar
E a saudade atormentar
Os teus dias tristonhos vazios

Sorri quando tudo terminar
Quando nada mais restar
Do teu sonho encantador

Sorri quando o sol perder a luz
E sentires uma cruz
Nos teus ombros cansados doridos

Sorri vai mentindo a tua dor
E ao notar que tu sorris
Todo mundo irá supor
Que és feliz!
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Imagem: Clowns - autoria não encontrada

terça-feira, 28 de julho de 2009

Há coisas tão absurdas que não devemos esquecer jamais

Alguns cientistas sociais costumam denominar os dias de hoje como a “era dos direitos”, porque atualmente os princípios dos direitos humanos têm orientado o debate político, a ação de inúmeros movimentos sociais, de políticos profissionais, juristas, advogados, políticas públicas e, até mesmo, práticas pedagógicas. Enfim, os direitos humanos estão no centro das ações e relações sociais contemporâneas. Entretanto, embora tais princípios estejam fortalecidos em discursos, políticas e ideologias, na prática, estão longe de ser uma realidade concreta para muitos grupos sociais. No que diz respeito aos homossexuais, por exemplo, há muito a se conquistar, do simples respeito cotidiano, ao respeito materializado em leis e políticas públicas que garantam a dignidade daqueles cuja orientação sexual destoa das normas e padrões estabelecidos que, como já escreveu Caetano Veloso, coloca o “macho, adulto, branco sempre no comando”. As notas abaixo ilustram bem essa questão. Do passado remoto ao presente mais próximo, as histórias de intolerância contra homossexuais, sejam estes ilustres ou não, persistem e insistem em se repetir. Até quando? Essa postagem abre uma série de outras com a temática referente a COISAS ABSURDAS QUE NÃO DEVEMOS ESQUECER JAMAIS (por Sílvio Benevides).

O RETRATO DA INTOLERÂNCIA

Morre em Paris de meningite, aos 46 anos, o escritor irlandês Oscar Wilde, conhecido por sua brilhante oratória e, sobretudo, por seu talento literário.

Wilde, nascido em Dublin aos 16 de outubro de 1854, escreveu poemas, contos de fada como O Príncipe Feliz (1888), dedicado aos dois filhos, Cyril e Vyvyan, que teve com a bela Constance Lloyd, várias peças de teatro, a exemplo de Salomé (1891), O leque de Lady Windermere (1892), Uma mulher sem importância (1893), A importância de ser prudente (1895), Um marido ideal (1895), entre outras obras. Escreveu também o livro O retrato de Dorian Gray (1891), seu único romance.

O espírito aguçadamente irônico e mordaz de Oscar Wilde era bastante conhecido nos círculos literários e nos ricos salões londrinos. Suas pilhérias geralmente tinham como alvo o modo de vida preconceituoso e hipócrita da alta sociedade britânica, marcada por valores excessivamente utilitaristas e materialistas. Seu brilhantismo, objeto de admiração e temor, se fez conhecer ainda nos tempos em que estudava no Magdalen College de Oxford, onde permaneceu até 1879. Nessa época ele abraçou com entusiasmo os ideais estetas tão difundidos na universidade de Oxford. Por conta da sua habilidade retórica e seu poder de persuasão, foi convidado a fazer uma série de conferências sobre a doutrina esteticista nos Estados Unidos. Em 1882 aportou em Nova Iorque. Quando perguntado se tinha algo a declarar, respondeu: “Nada, além da minha genialidade”. Ao final das conferências feitas em outras cinquenta cidades, acabou por conquistar o respeito e a admiração do público estadunidense.

Entre os anos de 1891 e 1895, as peças escritas por Wilde alcançaram enorme sucesso de público e crítica. Nesse mesmo período ele viveria um intenso relacionamento amoroso com o jovem aristocrata Lord Alfred Douglas, descrito por André Gide, amigo de Wilde, como uma pessoa “cínica, egoísta e terrível”. Por causa dessa relação, Wilde passou a ser perseguido pelo pai do Lord Douglas, o Marquês de Queensberry, que o chamava de “sodomita” e o via como um “pervertido e corruptor”.

Para livrar-se da perseguição que vinha sofrendo e, ao mesmo tempo, querendo atender aos caprichos do seu jovem amante, Wilde, a despeito dos inúmeros conselhos dos amigos, resolveu processar o marquês por injúria. Queensberry, em contrapartida, denunciou Wilde à Justiça por causa da sua homossexualidade, comportamento considerado criminoso na Inglaterra vitoriana. Após três julgamentos, Wilde foi condenado, em maio de 1895, a dois anos de prisão com trabalhos forçados. Em sua defesa disse à promotoria: “O amor que não ousa dizer seu nome neste século é uma afeição tão grande entre um homem mais velho e um mais jovem como era entre Davi e Jônatas, da maneira como Platão o tornou a verdadeira base da sua filosofia, e da maneira como é encontrado nos sonetos de Michelângelo e Shakespeare [...] por conta disso, estou onde me encontro agora. É bonito, delicado. É a mais nobre forma de afeição. Não há nada de antinatural nele. É algo intelectual e existe repetidas vezes entre um homem mais velho e um mais jovem, quando o mais velho tem o intelecto, e o mais jovem toda a alegria, esperança e encanto da vida diante de si”.

A sentença da Justiça Britânica fez Oscar Wilde conhecer de perto o inferno. Na prisão recebeu um tratamento desumano que o levou a um estado de profunda apatia. Em 1897, após ser libertado, partiu para a França com a saúde bastante debilitada. Já era um homem arruinado tanto moral quanto financeiramente. Seu nome fora proibido de ser estampado nos cartazes das suas peças, que em pouco tempo foram retiradas de cartaz. Sua esposa e filhos foram obrigados a mudar da Inglaterra e adotar o sobrenome Holland, ao invés de Wilde, para evitar constrangimentos e humilhações.

Abandonado por quase todos os amigos, inclusive pelo Lord Douglas, Oscar Wilde deixou para sempre a Grã-Bretanha, onde seu nome se tornou sinônimo de abjeção e vício, e suas ideias consideradas amorais, sobretudo porque eram antiutilitaristas. No dia 30 de novembro de 1900, morreu esquecido no modesto Hôtel d'Alsace, nas proximidades do Sena, vitimado, principalmente, pela intolerância dos seus contemporâneos. (Fonte: O cantinho de Coccinelle)

MORTE ANUNCIADA

O cabo Fredson Teles Oliveira e os soldados Antônio Bonfim dos Santos, Antônio Farias e Givaldo Soares Miranda da 13ª Companhia Independente da Polícia Militar, sediada no bairro da Pituba, em Salvador-BA, foram expulsos da corporação por serem os responsáveis pela morte por afogamento da travesti Júnior da Silva Lago, conhecida por Luana, na madrugada do dia 04 de agosto de 1998.

Luana se encontrava no bairro da Pituba em companhia da também travesti Jocimar Oliveira do Carmo, conhecida por Joice, quando os quatro oficiais da PM as abordaram numa viatura e mandaram que entrassem no veículo. De acordo com Joice, os policiais teriam dito que aquela viagem não teria volta.

Luana e Joice foram levadas para a Praia do Flamengo, em Stella Maris, onde, por determinação dos PM's, se despiram e em seguida sofreram humilhações e torturas. Não satisfeitos, os policiais obrigaram as duas a entrarem no mar, que na ocasião estava bastante revolto devido à chuva e aos ventos fortes.

“Nós entramos no mar enquanto um dos soldados com uma lanterna e os outros com as armas apontadas em nossa direção evitavam o nosso retorno à praia. O mar jogou Luana contra as pedras, enquanto eu consegui nadar para o outro lado. Os policiais entraram na viatura e saíram. Eu aproveitei a oportunidade para sair do mar em busca de socorro”, declarou Joice, que também acusou os policiais de terem usurpado seu cartão bancário, seu aparelho celular, além de R$ 100,00 que recebera como pagamento de um programa.

Os policiais confirmaram que de fato pegaram Luana e Joice no bairro da Pituba, acatando determinação do Tenente Maia, oficial de operação da 13ª Companhia. O objetivo, segundo os oficiais, era dar um banho de mar nas duas travestis e nada mais. Constantemente a PM faz rondas nas ruas da Pituba com o intuito de evitar a aglomeração de travestis que se prostituem na área residencial do bairro. Tais rondas visam atender aos apelos freqüentes dos moradores, que se queixam das travestis alegando que elas atentam contra a moral e os bons costumes (Fonte: A Tarde – 05/08/1998).

CRIME DE ÓDIO

O estudante de Ciências Políticas da Universidade de Wyoming, Matthew Shepard, de 21 anos, morreu num hospital dos EUA após passar seis dias em coma. Matthew Shepard foi violentamente espancado por Aaron Mckinney e Russel Henderson, dois colegas de faculdade, atado a uma cerca e em seguida abandonado para morrer sob as baixas temperaturas do inverno norte-americano. Tudo isso porque a vítima era abertamente homossexual.

O crime mobilizou ativistas gays de todo o país, assim como fundamentalistas cristãos mais obcecados em condenar e insultar os homossexuais do que viver, praticar e difundir o verdadeiro amor ensinado por Jesus Cristo. O presidente Bill Clinton tentou convencer o Congresso da importância de aprovar um projeto de lei que enquadre esse tipo de crime na categoria de “crimes de ódio”, já que as leis federais estadunidenses só tratam de preconceito racial e religioso. Clinton quer que discriminações motivadas por sexo, orientação sexual e deficiência física e mental sejam coibidas por lei (Fonte: Revista Veja – 21/10/1998).

DESEJO INCOMPREENDIDO

Estudante da oitava série do colégio católico Agostinho Mendel, em São Paulo, é exposto a todo tipo de humilhações por ter declarado seu amor por um colega.

A discriminação que L., de 14 anos, vem sofrendo na escola onde estuda há nove anos, parte de todos os lados. A direção do colégio classificou o comportamento de L. de anormal e sugeriu aos pais do menino um acompanhamento psicológico. Alguns professores passaram a ignorá-lo, deixando até mesmo de esclarecer suas dúvidas. Entre os colegas, muitos o hostilizam ora exigindo sua expulsão, ora o ameaçando com linchamento. Um grupo de alunos chegou a criar um movimento chamado MMB – Matem Muitas Bichas. Os pais de L. acham que a escola está certa em querer expulsar o filho que eles julgam estar errado. Há, porém, quem fique do lado de L., como o jovem objeto da sua paixão. Mesmo rejeitando o afeto do qual é alvo, por ser heterossexual, o rapaz de 16 anos se opõe a qualquer tipo de represália contra o colega.

Em meio a um turbilhão de intolerância e incompreensão, L., assustado, achou melhor abdicar dos seus sentimentos. “Vou sofrer sozinho”, declarou (Fonte: Revista Isto É – 27/10/1999).

OS DEGENERADOS DO ABC

Na madrugada do dia 05 de fevereiro foi assassinado em São Paulo o adestrador de cães Edson Néris da Silva que passeava com o namorado numa praça no centro da capital paulista.

Por volta da meia-noite Edson Néris cruzava a Praça da República de mãos dadas com o namorado, quando ambos foram surpreendidos por um bando de degenerados conhecido como Carecas do ABC, que pregam a supremacia branca e o extermínio de negros, judeus, nordestinos e homossexuais, imitando a bestialidade da doutrina nazista. Tão logo foram cercados, os dois rapazes passaram a ser esmurrados pelos integrantes do referido bando. O namorado de Edson Néris conseguiu se livrar da sanha dos seus agressores e saiu correndo para pedir ajuda aos seguranças de uma estação do metrô próxima. Edson Néris, porém, teve uma sorte mais cruel. Devido a sua orientação sexual foi estupidamente assassinado. Os chutes e os murros contra ele deferidos, deformaram seu corpo e provocaram perfurações na sua cabeça, provavelmente feitas pelo soco-inglês usados pelos agressores.

Algumas horas após o acontecido a polícia prendeu num bar no bairro do Bexiga, 18 pessoas apontadas por testemunhas de terem participado do crime: Vanderlei Cardoso de Sá, Fernando Azadinho, Regina Saran, Davi dos Santos Júnior, Luís Felipe Machado, José Nilson da Silva, Roberto Fernando Dias, Marcelo Martins, Eduardo Pereira, Jorge Soler, André da Silva, Juliano Sabino, Henrique Velasco, Onilmar de Queiroz, Luciano Teixeira Júnior, Washington de Oliveira, Adriano Rodrigues e Edilene Bezerra. Indignada, a mãe de Edson Néris declarou: “Meu filho era bom demais para perecer nessa selvajaria” (Fonte: Revista Época – 14/02/2000).
Imagem: Sílvio Benevides