segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

Um cordel nada encantado

Uma vergonha histórica! É como podemos resumir esses dois mandatos do atual prefeito de Salvador, João Henrique. Em oito anos de governo a cidade mudou de razoável para muito ruim ou péssima. O transporte público é uma porcaria, as vias públicas uma lástima, saúde e educação um horror. Os versos “Triste Bahia”, escritos por Gregório de Matos no século XVII, parecem ter sido inspirados na atual gestão municipal soteropolitana. Vivemos tempos mui tristes e toda essa tristeza, desalento e indignação foram muito bem traduzidos pelo cordelista, natural de Santa Bárbara, Antonio Barreto na sua CARTA DE UM CORDELISTA BAIANO AO PREFEITO JOÃO HENRIQUE, abaixo reproduzida e fartamente divulgada no Facebook. Eis a carta:
I
Meu querido João Henrique
Prefeito de Salvador
Eu escrevo essa cartinha
Para traduzir o clamor
Que não é somente meu
Mas de todo o eleitor.

II

Não escrevo com rancor
Nem busco aqui confusão
Falo pela maioria
Da nossa população
Que quer ver nossa cidade
Em melhor situação.

III

Não vou aqui relatar
Tudo detalhadamente
Quero apenas atentar
Para o desmando presente
De coisas essenciais
Dessa cidade carente.

IV

Desde a primeira gestão
Que o senhor nos prometeu
Cuidar bem da nossa urbis
Mas parece que esqueceu
Pois já são quase seis anos
Porém nada floresceu.
V

No Brasil de Norte a Sul
E também no além mar
A imagem de Salvador
Começou a declinar
Por culpa da sua gestão
Que não pode piorar.

VI

O abandono é total
Da Ribeira a Itapuã
De Cajazeira a Paripe
Sob os olhos de Iansã
Parece até que o senhor
Está pra lá de Teerã!

VII

Acho que vossa excelência
Está dormindo demais
A cada dia que passa
Vem se mostrando incapaz.
E a querida Salvador
Vai ficando para trás!

VIII

A sua avaliação
É bastante negativa
Porque você colocou
Nossa cidade à deriva.
Dê no pé, desapareça
Levando sua comitiva.

IX

Falhas no transporte público
Os salários atrasados
Débito aos fornecedores
Os bairros abandonados
Buracos, lixo na rua
E os turistas assustados.
X

Aquele “velho metrô”
Aliás, digo atual,
Pelo andar da carruagem
É uma obra irreal
E agora representa
O seu grande inferno astral!

XI

Será que o senhor conhece
A Praça da Piedade?
Pois ali é o coração
Dos poetas, da cidade
Mas durante o seu governo
Tornou-se favelidade.

XII

O Jardim da Piedade
O antro da poesia
Transformou-se em favela
E agora é moradia
De pedintes e drogados
Seja noite ou luz do dia.

XIII

Não queira dizer que eu
Estou criando barulho
Perceba que o Pelourinho
Carlos Gomes, 2 de Julho
Campo Grande, Rua Chile
Parecem mais um entulho.

XIV

Vá visitar Nazaré,
Avenida Sete, Barra…
Veja de perto a desordem
Todo clima de algazarra.
Mas cuidado seo Prefeito
Ali o povo te agarra!
XV

Procure fazer a hora
Não espere acontecer.
Mas o senhor é teimoso
Não dá o braço a torcer
Sabe que já fracassou
E não quer reconhecer.

XVI

Esse tal PDDU
Rima com desarmonia
Favorece aos empresários
Vai de encontro à ecologia
E o IPTU, prefeito,
Haja tanta carestia!

XVII

Essa troca de partido
Já virou foi brincadeira
E o senhor não se dá conta
Que já está na ribanceira
Pois devolva a prefeitura
E volte a morar em Feira.

XVIII

Cadê o trem do subúrbio,
Não vai mais funcionar?
O povo da suburbana
Não aguenta mais penar
Justamente o eleitor
Que ajudou você ganhar.

XIX

E a prestação de contas
O que foi que aconteceu?
Conte logo essa estória
O povo não esqueceu.
O dinheiro foi torrado
Ou o “gato” então comeu?
XX

A SUCOM já não atende
Às queixas dos moradores
Que passam noites insones
Embaixo dos cobertores
A sofrer com o barulho
Dos barzinhos infratores.

XXI

Querido prefeito João
O senhor caiu no sono:
Salvador rima com lixo
Com sujeira e abandono
Tem cara de favelão
Parece terra sem dono.

XXII

O senhor é um sortudo
Conseguiu ser reeleito…
Tudo isso é brincadeira
Querido e nobre prefeito
O maluco aqui sou eu:
Um eleitor com despeito!

XXIII

O desgaste é tão visível
Que não dá para enganar.
Acho que o senhor precisa
Uma decisão tomar:
Entregar o cargo agora
Pra Luiza governar!

XXIV

Pois aqui eu me despeço
Do Astral Superior
Desejando paciência
Ao povo de Salvador:
O velho Tomé de Sousa
Com carinho e com amor!

FIM

domingo, 29 de janeiro de 2012

Poema Falado: POEMA EM LINHA RETA

Dizem que um poeta é universal quando ele ou ela consegue transpor os limites da sua individualidade, da sua gente, do seu espaço e do seu tempo. Se é assim, o Fernando Pessoa é um
dos poetas mais universais da história da poesia. Seus versos falam de sentimentos particulares que são partilhados por muita gente de ontem, de hoje e, certamente, de amanhã também. Quando há muito li os versos do POEMA EM LINHA RETA, o Poema Falado deste mês, o primeiro de 2012, logo me identifiquei. Relendo-o agora, vejo como ele é tão atual, nesses tempos em que todos buscam nada menos que a perfeição, querendo a todo custo ser (ou ao menos aparentar ser) sexualmente plenos, felizes, belos, fortes, destemidos, saudáveis, inteligentes e eternamente jovens. Em outras épocas me sentia um estranho estrangeiro nesse mundo de gente “tão perfeita”. Hoje, ao deparar-me com essas pessoas tenho “sido vil, literalmente vil, vil no sentido mesquinho e infame da vileza”. E é para homenagear mais uma vez o Fernando Pessoa na pessoa do Álvaro de Campos que o Poema Falado traz o POEMA EM LINHA RETA: “Nunca conheci quem tivesse levado porrada. / Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. // E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, / Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, / Indesculpavelmente sujo, / Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, / Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, / Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, / Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, / Que tenho sofrido enxovalhos e calado, / Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; / Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel, / Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, / Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar, / Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado / Para fora da possibilidade do soco; / Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas, / Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo. // Toda a gente que eu conheço e que fala comigo / Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho, / Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida... // Quem me dera ouvir de alguém a voz humana / Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia; / Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia! / Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam. / Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil? / Ó príncipes, meus irmãos, // Arre, estou farto de semideuses! / Onde é que há gente no mundo? // Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra? // Poderão as mulheres não os terem amado, / Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca! / E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído, / Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear? / Eu, que venho sido vil, literalmente vil, / Vil no sentido mesquinho e infame da vileza”. Boa áudio-leitura!


Imagem: Estrada Alentejana, por Jaime Carita.

segunda-feira, 23 de janeiro de 2012

Apesar de falso, uma verdade inexorável

O texto abaixo reproduzido sobre essa aberração midiática que se chama Big Brother Brasil (BBB), da Rede Globo, não é, como se tem divulgado pela internet, de autoria do magnífico escritor Luís Fernando Veríssimo. O próprio Veríssimo já confirmou isso em outro programa da Rede Globo, o Altas Horas, do Serginho Groisman (confira aqui). Parece que esse texto circula na internet desde 2010, quando em nota, o autor,com o seu costumeiro humor esclareceu: “Não fui eu que escrevi. Não poderia escrever nada sobre o Big Brother Brasil, a favor ou contra, porque sou um dos três ou quatro brasileiros que nunca o acompanharam”.
Como se pode ver, não devemos acreditar em tudo que encontramos na internet. Como qualquer ferramenta, seja de comunicação ou de outra natureza, ela pode ser ou não bem utilizada. Mas essa é outra questão. O fato de o texto abaixo ter sido atribuído a alguém que não o escreveu é algo grave. Vivemos em uma época em que escrúpulo (para dizer o mínimo) parece ser doença infectocontagiosa, por isso devemos evitá-lo a todo custo. Entretanto, seja de quem for a autoria do texto, ele discorre sobre um verdade, digamos, inexorável!
Esse tal de BBB bempoderia de chamar Big Bosta Brasil. Não consigo entender como os supostos milhões de telespectadores dão audiência a essa bosta. Não sou daqueles que acham que a televisão só deve ofertar programas educativos, culturais ou instrutivos. A televisão pode sim ofertar programas de entretenimento voltados tão somente para o entretenimento do telespectador. Mas isso não significa que em nome do entretenimento puro e simples devamos abrir mão da qualidade. Há inúmeros programas na TV que associam entretenimento com qualidade (ou alguma qualidade) e o Altas Horas é um bom exemplo disso. O mais grave no Big Bosta Brasil, para mim, é a inversão de valores. Vale tudo para ganhar o prêmio máximo, vale mentir, trapacear, falar mal do outro, ser dissimulado, brigar, xingar, trepar, sacanear e depois de tudo isso se o sujeito ou a sujeita conquista o prêmio máximo leva junto o título de bom/boa jogador/jogadora. Deprimente! Até quando teremos de conviver com isso? (esse texto é de minha própria autoria, Silvio Benevides)

EIS O TEXTO – Que me perdoem os ávidos telespectadores do Big BrotherBrasil (BBB), produzido e organizado pela nossa distinta Rede Globo, mas conseguimos chegar ao fundo do poço [...] Chega a ser difícil encontrar as palavras adequadas para qualificar tamanho atentado à nossa modesta inteligência [...] Pergunto-me, por exemplo, como um jornalista, documentarista e escritor como Pedro Bial que, faça-se justiça, cobriu a Queda do Muro de Berlim, se submete a ser apresentador de um programa desse nível. Em um e-mail que recebi há pouco tempo, Bial escreve maravilhosamente bem sobre a perda do humorista Bussunda referindo-se à pena de se morrer tão cedo. Eu gostaria de perguntar se ele não pensa que esse programa é a morte da cultura,de valores e princípios, da moral, da ética e da dignidade.
Outro dia, durante o intervalo de uma programação da Globo, um outro repórter acéfalo do BBB disse que, para ganhar o prêmio de um milhão e meio de reais, um Big Brother tem um caminho árduo pela frente, chamando-os de heróis. Caminho árduo? Heróis? São esses nossos exemplos de heróis?
Caminho árduo para mim é aquele percorrido por milhões de brasileiros, profissionais da saúde, professores da rede pública (aliás, todos os professores), carteiros, lixeiros e tantos outros trabalhadores incansáveis que, diariamente, passam horas exercendo suas funções com dedicação, competência e amor e quase sempre são mal remunerados.
Heróis são milhares de brasileiros que sequer tem um prato de comida por dia e um colchão decente para dormir, e conseguem sobreviver a isso todo santo dia. Heróis são crianças e adultos que lutam contra doenças complicadíssimas porque não tiveram chance de ter uma vida mais saudável e digna.
Heróis são inúmeras pessoas, entidades sociais e beneficentes, ONGs, voluntários, igrejas e hospitais que se dedicam ao cuidado de carentes, doentes e necessitados (vamos lembrar de nossa eterna heroína Zilda Arns). Heróis são aqueles que, apesar de ganharem um salário mínimo, pagam suas contas, restando apenas dezesseis reais para alimentação, como mostrado em outra reportagem apresentada meses atrás pela própria Rede Globo.
O Big Brother Brasil não é um programa cultural, nem educativo, não acrescenta informações e conhecimentos intelectuais aos telespectadores, nem aos participantes, e não há qualquer outro estímulo como, por exemplo, o incentivo ao esporte, à música, à criatividade ou ao ensino de conceitos como valor, ética, trabalho e moral. São apenas pessoas que se prestam a comer, beber, tomar sol, fofocar, dormir e agir estupidamente para que, ao final do programa, o “escolhido” receba um milhão e meio de reais. E ai vem algum psicólogo de vanguarda e me diz que o BBB ajuda a “entender o comportament ohumano”. Ah, tenha dó!!!
Veja o que está por de tra$$$ do BBB: José Neumani da Rádio Jovem Pan, fez um cálculo de que se vinte e nove milhões de pessoas ligarem a cada paredão, com o custo da ligação a trinta centavos, a Rede Globo e a Telefônica arrecadam oito milhões e setecentos mil reais. Eu vou repetir: oito milhões e setecentos mil reais a cada paredão. Já imaginaram quanto poderia ser feito com essa quantia se fosse dedicada aprogramas de inclusão social, moradia, alimentação, ensino e saúde de muitos brasileiros? (Poderia ser feito mais de 520 casas populares; ou comprar mais de 5.000 computadores). Essas palavras não são de revolta ou protesto, mas de vergonha e indignação, por ver tamanha aberração ter milhões de telespectadores.
Em vez de assistir ao BBB, que tal ler um livro, um poema de Mário Quintana ou de Neruda ou qualquer outra coisa, ir ao cinema, estudar, ouvir música, cuidar das flores e jardins, telefonar para um amigo, visitar os avós, pescar, brincar com as crianças, namorar ou simplesmente dormir. Assistir ao BBB é ajudar a Globo a ganhar rios de dinheiro e destruir o que ainda resta dos valores sobre os quais foi construída nossa sociedade.
Imagem: O cão andaluz, Dir. Luis Buñuel, 1928.

segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

Não vou deixar a vida sem viver

Alguém, não me lembro quem, já disse que o homem é o único animal que morre. Isso ocorre, segundo esse alguém de quem não lembro o nome, porque o ser humano é o único animal que pensa e reflete sobre a morte. Sendo assim, é, também, o único animal que antecipa a sua morte, ou seja, é o único que morre de véspera. Li o texto abaixo, de autoria da Diana Corso, e resolvi reproduzi-lo aqui, sem a permissão dela (espero não ter problemas). Fiz isso por três motivos: primeiro, porque acho que o texto vale a pena ser lido nesses tempos em que a vida é constantemente negada em nome de uma “perfeição” que beira a morbidez paranóica. Segundo, porque o buldogue francês da Diana Corso me lembrou meu beagle Kadu, um cão cuja raça nunca amadurece, caracterizando-se pela eterna infância. Terceiro, porque após uma semana especial cujo fim foi totalmente dedicado a celebrar a vida e a alegria de viver e estar junto como e com quem realmente importa, otexto se tornou mais significativo para mim. São palavras que me recordam muito o trecho de uma velha canção gravada pela Gal Costa no seu primeiro trabalho, “Domingo”(1967). A canção se chama “Maria Joana”, do Sidney Miller, e um de seus versos diz assim: “eu vou procurar um jeito de não padecer, porque não vou deixar a vida sem viver”. É isso aí. A morte não nos deixa nenhuma escolha, mas a vida nos oferece inúmeras. Sendo assim, porque não usufruir daquelas que estiverem ao nosso alcance? Façamos, então, como o refrão de um samba de roda cachoeirano que nos diz sabiamente “hei de morrer cantando, porque chorando eu nasci”. Boa leitura (por Silvio Benevides).
MORRER DE VÉSPERA – Bilbo tem 13 anos. Para humanos é o fim da infância, na sua trajetória canina é o fim da vida. Mas isso não é novidade para ele, nem para nós. Já faz cinco anos que dois veterinários diferentes lhe deram pouco tempo de vida. Alegavam, o que deve ser verdade, pois apareceu nos exames da época, que ele tinha o coração quase do tamanho da caixa torácica e 30% da função renal. A não ser que um milagre tenha acontecido, isso só podeter piorado. Na ocasião lhe receitaram remédios, ração especial, uma vida develho. Ele detestou. É próprio da sua raça a infância eterna. Nenhum buldogue francês amadurece, eles só ficam mais lentos. Os tratamentos o tornaram magro e deprimido, ficava de mau humor cada vez que lhe dávamos uma pastilha. Por isso decidimos deixa-lo em paz: que durasse pouco, mas fosse feliz! Cortamos os remédios, a ração insossa. Livre da existência terminal, voltou a brincar e correr. Hoje, se fosse gente, teria uns 80 anos.
Se fosse humano talvez já estivesse morto, de tristeza pela condenação que uma doença grave significa. Às vezes morremos de desesperança, achamos que a vida, se não for infinita, não adianta que dure. A religião tampouco consola, pois a suposta eternidade da alma já não conforta tanto. Mesmo com saúde é só olhar em volta e acabamos fazendo os cálculos de quantas décadas nos restam. Aliás o envelhecimento é exorcizado principalmente porque informa do tempo que já gastamos. Velhice é folha corrida. A fantasia de ser eterno e intacto, como os belos vampiros contemporâneos, faz a vida parecer fonte de infinitas possibilidades. A consciênciada morte obriga a objetivar as escolhas: não teremos tempo de ser e ter tudo. Mas entre a ignorância do animal e o pensamento negativista dos homens há outras atitudes bem mais inspiradoras.
Convivi com amigos que em vez de morrer de véspera fizeram de uma má notícia fonte de sabedoria. Há duas décadas o diagnóstico da contaminação pelo HIV era um prenúncio de morte. Felizmente, não foi assim para todos, mesmo antes da descoberta do coquetel. Em alguns casos, a ameaça da morte os livrou das dúvidas pueris, da adolescência eterna. Agarraram-se à vida com vontade, viabilizaram escolhas profissionais, relacionamentos estáveis. Pressionados, efetivaram-se no emprego da existência. A medicação que lhes devolveu a imunidade, já os encontrou de bem com a vida. Woody Allen dizia que a palavra mais bela que já tinha ouvido era: “benigno”. Sua hipocondria cômica sempre nos lembra que a consciência da morte pode ajudar a repactuar coma vida. Mesmo que o fim seja certo, por que não seguir alegremente? Como meu velho cão (por Diana Corso).
Imagem: Kadu, por Suzy Benevides.

terça-feira, 3 de janeiro de 2012

UFRB em Cachoeira sedia III EBECULT em abril

O III Encontro Baiano de Estudos em Cultura (EBECULT) será realizado de 18 a 20 de abril de 2012, em Cachoeira, cidade do Recôncavo da Bahia, a 110 km de Salvador. O objetivo do evento é incentivar o compartilhamento de pesquisas desenvolvidas no campo cultural do estado.

O evento é uma realização da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB). As duas primeiras edições foram realizadas, respectivamente, em Salvador, em 2008, pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e em 2009, pela Universidade Estadual de Feira de Santana (UEFS), em Feira de Santana. A proposta é desenvolver a cada ano um encontro que promova a visibilidade de pesquisas em cultura e o intercâmbio entre pesquisadores.

O EBECULT oferecerá uma conferência sobre políticas culturais e uma mesa redonda com destaque para a cultura como direito político-social e emancipação humana, além de uma plenária, que definirá uma síntese do encontro e as próximas edições. Como oportunidade de ampliar os saberes, haverá, também, comunicações de trabalhos em simpósios que terão 17 eixos (conforme exposto nos itens programação e inscrições). Fazem parte do evento, ainda, momentos de bate-papo chamados diálogos culturais, que buscam discutir a tradição e a cultura contemporânea, e oficinas e vivencias culturais, cujo objetivo é proporcionar um encontro produtivo entre saberes científicos e tradicionais. E para completar a proposta, o EBECULT em Cachoeira contará com uma rica programação artístico-cultural.

A cidade de Cachoeira sedia um dos campus da UFRB, o Centro de Artes, Humanidades e Letras (CAHL), e é município tombado pelo Instituto do Patrimônio e Histórico Artístico Nacional, desde 1971, quando passou a ser considerada Monumento Nacional por sua importância histórica. Além disso, é berço da independência do país e de manifestações culturais como a capoeira, o samba de roda e festas de caráter religioso como as D’Ajuda e a da Boa Morte, símbolo do sincretismo entre as religiões católica e de origem africana (Fonte: III EBECULT).
Imagem: III EBECULT

domingo, 25 de dezembro de 2011

Poema Falado: Versos de Natal

Como diria a Simone, então é Natal! Mais uma vez, Natal! Até onde sei nessa data os cristãos se reúnem para celebrar o nascimento do verbo que se fez carne e sangue a fim de nos redimir por meio do amor, o seu maior legado. Esse é o verdadeiro espírito do Natal, ou ao menos deveria ser. Entretanto, o que temos visto ultimamente é uma festa que a cada ano se distancia mais e mais da sua essência, tornando-se uma verdadeira orgia consumista. Orgia esta que pouco a pouco mata o Menino Jesus, assim como todos os meninos e meninas que em cada um de nós existe. Eu digo “mata” porque precisamos crescer com urgência para que, com urgência, nos tornemos consumidores ávidos e eficientes. Não tenho nada contra o consumo, tampouco odeio o bom velhinho. Quero apenas lembrar que o Natal existe porque o Menino Jesus nasceu. E é justamente para celebrar esse nascimento que o Poema Falado deste mês traz os Versos de Natal do Manuel Bandeira, escritos em 1939, que nos dizem: “Espelho, amigo verdadeiro / Tu refletes as minhas rugas, / Os meus cabelos brancos, / Os meus olhos míopes e cansados. / Espelho, amigo verdadeiro, / Mestre do realismo exato e minucioso, / Obrigado, obrigado! / Mas se fosses mágico, / Penetrarias até o fundo desse homem triste, / Descobririas o menino que sustenta esse homem, / Que não morrerá senão comigo, / O menino que todos os anos na véspera do Natal / Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta”. Boa áudio-leitura e Feliz Natal! (por Silvio Benevides)



Imagem: Silvio Benevides

sábado, 24 de dezembro de 2011

Texto para reflexão: o Natal, o Capital e o Ano Novo

Para refletirmos sobre o real significado do Natal, decidi reproduzir o texto abaixo de autoria do Pedro Estevam Serrano, colunista da Isto é. O texto propõe uma reflexão bastante pertinente e sempre apropriada para as sociedades contemporâneas cada vez mais mergulhadas no consumismo desenfreado e contaminadas por toda sorte de distúrbios e doenças que isso acarreta. Eis o texto!

O Natal, o Capital e o Ano Novo – Na tradição cristã o Natal é a data da comemoração do nascimento de Jesus, e como tal um momento em que valores como generosidade, solidariedade e fraternidade são lembrados como mote da celebração. Nos discursos apenas. Na realidade, Natal é época de compras, consumo. Mais do que momento em que expressamos afeto pela generosidade do presente, tratamos nosso desconforto civilizacional e nossas depressões existenciais indo ao shopping para obter o cumprimento da ilusória promessa de felicidade que o consumo oferece.

A hiper-complexidade das sociedades contemporâneas não facilita uma leitura mais bem acabada de suas macro-características. Não ousaria fazê-lo. Não me sinto habilitado a tanto. Mas minhas leituras e observações pessoais de nossa historia recente me trazem algumas reflexões que se consolidaram em meu espírito sobre a forma em que convivemos no mundo contemporâneo.

Me parece inegável que o correr do século XX e o inicio do XXI trouxe mudanças substancias na forma de organização e produção do sistema capitalista. Não apenas mudança de grau ou intensidade, mas verdadeiras mudanças de qualidade e substancia. Cada momento da história sociopolítica e econômica da humanidade ressalta características existentes na natureza das relações intersubjetivas de nossa espécie. Mercado existia como fenômeno há muito em nossas formas de organização social. A mercancia, a troca, é e foi instrumento relevante de sobrevivência da espécie conforme nossas formas de organização social e de produção foram se tornando mais complexas.

Mas é no capitalismo que esta forma coletiva de troca e produção atinge seu ápice de relevância na vida social, torna-se espinha dorsal de nossas formas de organização social, política e econômica. O capitalismo adquire inegável caráter progressista na história humana em sua versão industrial.

A natureza disciplinar desta forma de produção repercute efeitos sobre todos os ambientes da vida social. Instituições coletivas como escola, hospitais e até restaurantes, organizados em modo hierárquico e a partir de disciplinas substituem formas aristocráticas de acesso a bens coletivos. O Poder Estatal passa a ser exercido a partir de sua submissão a normas, disciplinas coletivas e não à mera vontade autônoma de seu governante. O capitalismo se traduz em sistema de contínua expansão. Por conta das conquistas dos trabalhadores europeus no inicio do século passado, em busca de ampliação de ganhos, o capital se espraia pelo mundo.

Desde o século XIX até os dias de hoje pudemos observar a transformação do capitalismo de forma europeia em modo global de produção. Na contemporaneidade, contudo, outro fator de expansão vem a provocar mudanças que me parecem substanciais no sistema. A produção de mercadorias é secundarizada pela produção de seu feitiche. Mais do que um sistema produtor de mercadorias, o capitalismo se transforma num sistema produtor de subjetividade. Expande-se para a significação humana. Ocupa todos os espaços da vida e do imaginário. A regra econômica do condicionamento da oferta pela demanda é invertida. Oferta produz demanda, como bem enxergou Steve Jobs.

Em verdade, modos de domínio e construção da subjetividade fazem parte do próprio conceito de civilização. Religião, educação e mesmo razão e ciência são formas de trabalho e domínio da subjetividade. Mas creio que nunca tivemos na história humana um sistema sociopolítico e econômico que tivesse na produção de subjetividade o vértice de seu funcionamento. E não me refiro apenas ao âmbito limitado da publicidade e suas técnicas de marketing e nem apenas ao espetáculo que tende a dominar a linguagem midiática. Falo de toda uma máquina de comunicação e sentidos que ocupam todo nosso espaço imaginário, racional e afetivo. Impossível imaginarmos hoje uma historia pessoal de romance sem os signos de Hollywood por exemplo.

Como consequência evidente deste processo, o papel do consumidor vai substituindo o do cidadão e os exércitos de reserva de mão de obra vão saindo da reserva para a cruel exclusão da vida. O sistema passa a ter pelo poder da exclusão o exercício máximo do que Schimitt entendia como soberania. A capacidade de transformar o direito em exceção, dando ao poder o condão de disposição da vida do destinatário.

Vivemos hoje um mundo recheado de estados democráticos, mas submetidos a uma governança global imperial que se realiza em rede, sem contar, portanto, com o lugar que a disciplina outorga ao poder, o que possibilitaria identificá-lo e limitá-lo. E assim vamos às compras, sem esquecer de comprar brinquedos e roupas para nossos entes queridos e mesmo para crianças desamparadas e pessoas desfavorecidas. Não nos perguntamos a que custo vital se produzem estes bens tão baratos em alguma parte do globo, seja pela quase escravidão dos trabalhadores que os produzem seja pela exclusão necessária da vida de amplos contingentes humanos que o sistema hoje exige para operar.

Mais que autonomia de vontade, ser livre no mundo contemporâneo é ser espontâneo, e no exercício desta espontaneidade entender que estamos todos inseridos num contexto sistêmico em que o custo de nossa inclusão e sobrevivência é compartilhar e fazer parte de um processo produtivo essencialmente antiético, em que nem sequer o lugar nobre da inocência nos é possível ocupar. Mas no florescer mais intenso desta espontaneidade podemos transformá-lo, traduzir em mecanismos de cidadania global o que hoje é ilimitado e regido apenas pela força. Assim desejo a todos os leitores, que este Natal seja o nascer de nossa espontaneidade e que, através dela, em 2012 venha a destruição não do mundo e da vida, mas da morte que ronda nossa civilização (por Pedro Estevam Serrano).


Imagem: Haddon Sundblom

segunda-feira, 19 de dezembro de 2011

Quem tem moral e quem não tem

Que o mundo da política está mais vulnerável (gosto de eufemismos) aos males oriundos e provocados pela corrupção, isso não é novidade para ninguém. O grave é ver a política virar sinônimo de corrupção. Por que grave? Porque somente por meio da política parlamentar os variados grupos sociais institucionalizam seus direitos, deveres e conquistas. É por meio da política parlamentar que as regras e normas que orientarão a vida em sociedade serão validadas. A política é sim uma atividade nobre e de fundamental importância para as sociedades, especialmente, as sociedades democráticas. Por isso considero gravíssimo ela estar sempre ou quase sempre associada à corrupção. Sei que não nos faltam razões para fazermos tal associação. Entretanto, dada a importância da política em nossas vidas, parafraseio o Caetano Veloso: “é preciso estar atento e forte” para separarmos o joio do trigo.

Esta semana lançou-se o livro A privataria tucana, do jornalista Amaury Ribeiro Júnior, sobre o processo de privatização de estatais durante o mandato do Fernando Henrique Cardoso. Escândalo! Alguma novidade? Creio que não. A primeira edição do livro se esgotou em 48 horas, mas é possível encontrá-lo na rede em formato PDF, caso alguém queira baixá-lo para seu computador. Eu já baixei o meu. Mas não é esse o objetivo dessa postagem. Três aspectos me chamaram a atenção nesse episódio, já comentados por outras pessoas. O primeiro diz respeito ao silêncio da grande mídia, ou da mídia tradicional como dizem alguns, sobre do lançamento. No mínimo, um fenômeno editorial comparável a outros fenômenos editoriais, a exemplo do Harry Potter, da escritora J.K. Rowling. Estranho silêncio, para dizer o mínimo. O segundo aspecto é sobre o poder das redes sociais no mundo atual. A despeito dos grandes veículos de comunicação terem ignorado o livro, as redes sociais fizeram o movimento contrário e o resultado foi uma curiosidade generalizada em torno do lançamento. Isso explica, em parte, o fato de a primeira edição de A privataria tucana ter se esgotado em apenas 48 horas. Terceiro aspecto se refere ao cinismo dos nossos homens públicos (e mulheres públicas, também, para garantir a inclusão de gênero). Membros do PT agora atacam o PSDB, que por sua vez ataca o PT e todos e todas se esquecem que todos e todas têm, como se costuma dizer, rabo preso ou sujo. O que me intriga nessa história é o seguinte: quem tem moral e quem não tem para atacar e/ou acusar quem que seja no Congresso Nacional? A galera da “privataria” ou a galera do “mensalão”? Em quem nos espelhar, eis a questão, já que pelo visto e revisto é bem mais fácil e provável topar com o Harry Potter estacionando sua vassoura mágica na Esplanada dos Ministérios do que encontrar em Brasília político que não tenha telhado de vidro (por Silvio Benevides).

Imagem: Angeli

Livro cria polêmica com acusações contra Serra e o PSDB

O jornalista investigativo Amaury Ribeiro Jr. denuncia possíveis casos de corrupção e outras improbidades nas gestões governamentais do PSDB no lançamento “A Privataria Tucana” (Geração Editorial, 2011). O título do volume alude à política de privatizar parte das empresas públicas nacionais adotada por Fernando Henrique Cardoso enquanto atuou como presidente do país.

De acordo com o autor, as irregularidades começaram a ser encontradas enquanto ele investigava a existência de uma rede de espionagem criada pelo próprio partido para desacreditar o ex-governador de Minas Gerais Aécio Neves (PSDB), concorrente à vaga de candidato à presidência pela legenda.

Na obra, o jornalista liga casos de enriquecimento ilícito e outras irregularidades ao ex-governador José Serra e seus familiares --entre outras pessoas relacionadas direta e indiretamente com partido-- e busca respaldar as afirmações com cópias de documentos, contas, contratos e cheques.

O volume acaba de chegar às prateleiras e promete criar tanto falatório como o polêmico “Honoráveis Bandidos”, do jornalista Palmério Dória, que expõe histórias de bastidores da família Sarney (Fonte: Livraria da Folha).


Imagem: Alpino

Sobre o livro "A privataria tucana"

O livro A privataria tucana, do jornalista Amaury Ribeiro Júnior, será seguramente um dos maiores best-sellers dos últimos tempos. Não é que muito do que divulgue não fosse do conhecimento público. Mas o era de modo fragmentado, perdido ao longo do tempo e, sobretudo, bastante escamoteado pela mídia. E serve para desmascarar o farisaísmo tucano, cujos dirigentes hoje vivem a procurar pelo em ovo, ao tentar localizar corrupção no Governo Federal, desconhecendo todos os esforços do Governo Lula e do Governo Dilma de combate cotidiano a quaisquer atitudes de desrespeito com o dinheiro público.

O mérito do livro é o de sistematização de um período. É resultado de um esforço de fôlego, fruto de 12 anos de trabalho. Devassa as privatizações na era Fernando Henrique Cardoso. Do livro, como diz o jornalista Leandro Fortes, na revista Carta Capital, emerge um personagem central, chamado José Serra, cujo tesoureiro de campanha, Ricardo Sérgio de Oliveira, ainda de acordo com a matéria de Carta Capital, movimentaria bilhões de dólares durante os anos dourados das privatizações e do domínio do PSDB no comando do País.

Dessa farra, valeram-se a filha e o genro de Serra, Verônica e Alexandre Bourgeois, além de Gregório Marin Preciado, casado com uma prima do tucano. Há vários outros personagens, como Carlos Jereissati, empresário e irmão do ex-Senador Tasso Jereissati e hoje um dos principais acionistas da operadora de telefonia Oi (ex-Telemar). Há mais, muito mais, e a população brasileira há de descobrir por conta própria. Não deve deixar de ler a cobertura de Carta Capital, cujas mais de dez páginas elucidam com riqueza de detalhes como era a “privataria” tucana, como foi aquilo que os tucanos de bico longo chamavam de o negócio do século. E não deve, sobretudo, deixar de ler o livro.

O que pretendo aqui, rapidamente, é, primeiro, dizer que o livro não faz mais do que demonstrar como foi conduzida a privatização do País. Para além do desastre que significou para o Brasil, como isso enfraqueceu a Nação diante das potências capitalistas, como se venderam empresas estratégicas a preço de banana, para além disso, o livro evidencia como se confundia os interesses privados com o público.

Dito de outra maneira, o poder público estava vinculado ao interesse patrimonial privado, ao interesse particular de quem detinha o poder, e é curioso ouvir o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso fazer perorações sobre moralidade pública, contra o nosso governo, e isso ele o fez nas últimas horas, com o livro já nas ruas, não sei se já sabendo de sua existência, e com isso tentando fazer alguma vacina, ou se desconhecendo, e com isso naturalmente pagando um mico de bom tamanho.

Além disso, fico impressionado com o silêncio da velha mídia. Impressionado é modo de dizer. É um silêncio compreensível. A velha mídia tem lado. Ataca o PT, e ponto final. Ataca o nosso projeto político, sempre. Nunca aceitou que Lula fosse o presidente do Brasil, menos que tivesse sucesso, menos ainda que fizesse as reformas que fez, que promovesse a melhoria nas condições de vida do nosso povo como promoveu. Como agora, não aceita a presidenta Dilma e quer que ela obedeça às suas ordens.

Salvo Carta Capital, ninguém mais noticiou. Claro que algum jornalista poderia falar em critério de noticiabilidade. Será que valia notícia? Ou será que seria melhor requentar alguma coisa, como fez Veja? Melhor requentar, de acordo com os estranhos critérios, corrijo-me, compreensíveis critérios de uma mídia que não tem mais sequer compromissos com seus manuais de redação. Os que não requentaram nada, não noticiaram. Um silêncio que desnuda nossa velha mídia, que se deteriora a olhos vistos, incapaz de adotar procedimentos minimamente aceitáveis por quem faz do jornalismo algo sério.

O livro foi lançado há uma semana. Os 15 mil exemplares esgotaram-se em 48 horas. Uma nova edição, de 30 mil, deve chegar às livrarias logo, logo. A expectativa é que exploda, chegue aos 200 mil exemplares. Todas essas informações são do editor Luiz Fernando Emediato. Então, como isso não é noticiado? Como uma explosão editorial dessas não é noticiada? Fala-se de um período recente, de 2003 a 2005, de uma negociata que envolveu o Brasil, de uma venda do Brasil, tudo fartamente documentado pelo autor. Os fatos, ora que se danem os fatos, esse é o procedimento da velha mídia. Notícia forte é aquela que interessa à perspectiva política dela.

O que for contra o seu projeto, o projeto neoliberal, que Fernando Henrique Cardoso, Serra e todo o tucanato expressam não pode ser noticiado. Ela tem lado, e projeto político. Por isso, combate cotidianamente o governo da presidenta Dilma, como o fez durante todos os oito anos do governo do presidente Lula. Eu não creio que a velha mídia perceba, ou se tem interesse em perceber, o quanto vai se degradando, o quanto vai se partidarizando, o quanto vai perdendo em qualidade, o quanto vai se tornando obscenamente parcial.

Houve um momento em que uma parte da mídia tentou ignorar a existência de milhões de pessoas nas ruas, clamando pelas diretas. Agora, faz de conta que A Privataria Tucana não existe. Luiz Fernando Emediato aposta que o silêncio da mídia será rompido em breve. Torço para que tenha razão, e que o livro, assim, venda mais e mais porque o povo brasileiro precisa conhecer mais profundamente o que foi a privataria tucana. Vender, o livro vai, não tenho dúvidas. Mas, a velha mídia noticiar? Sei não (por Emiliano José, Deputado Federal pelo Partido dos Trabalhadores – PT).


Imagem: Aroeira