segunda-feira, 27 de junho de 2011

¿Es Brasil una burbuja?

Este es el segundo tema que domina las conversaciones en Brasil. El primero, y mucho más popular, es la celebración de sus enormes éxitos: los millones de pobres que han dejado de serlo, la impresionante pujanza de sus empresas, las enormes oportunidades y la mayor prosperidad. Si bien los problemas aún son grandes (miseria, crimen, corrupción, desigualdad), el optimismo también lo es. Los brasileños, siempre alegres, están ahora más contentos que nunca. Y con mucha razón. Las cosas van muy bien. Y eso lleva a la segunda conversación obligada: ¿cuánto durará la fiesta? ¿Cómo -quién- nos puede descarrilar este raudo tren hacia la prosperidad?, se preguntan. Paradójicamente, los motivos del éxito también son la fuente de las ansiedades. En los últimos cinco años, el crédito ha crecido hasta alcanzar el 45% del tamaño de la economía. Así, los brasileños han encontrado quien les preste para comprar casas, motocicletas, refrigeradores y todo lo demás -muchos por primera vez-. Y no les ha importado que las tasas de interés de esos préstamos sean las segundas más altas del mundo o que las familias brasileñas deban hoy dedicar un 20% de sus ingresos a pagar sus deudas.

Este auge del crédito y el consumo obedece, en parte, a los millones de nuevos empleos y los mejores salarios generados por la expansión económica. Mientras las economías más ricas cayeron un 2,7% durante la crisis de 2008-2009, Brasil creció al 5%, y el año pasado lo hizo al 7,5%. El paro se ha reducido a los niveles más bajos en décadas y en muchos sectores las empresas no consiguen los trabajadores que necesitan. Los altos precios internacionales de los minerales y productos agrícolas, que Brasil exporta en grandes cantidades, contribuyen a esta expansión.

Los inversionistas internacionales también están eufóricos con Brasil. La inversión extranjera directa creció un 90% el año pasado. La avalancha de fondos foráneos que está cayendo sobre Brasil, atraídos por sus altas tasas de interés, está obligando al Gobierno a considerar la posibilidad de imponer límites más estrictos al capital especulativo. Los flujos de capital extranjero y los ingresos por exportaciones han llenado las arcas brasileñas con divisas de otros países, lo cual ha encarecido el valor de su moneda. El tipo de cambio ajustado a la inflación es hoy un 47% más caro de lo que fue su promedio en la última década. El real es la moneda más sobrevalorada del mundo.

Inevitablemente, la combinación de una moneda cara, la euforia de los inversionistas extranjeros, el aumento del consumo y los cuellos de botella que existen para satisfacer una demanda que crece aceleradamente hace que todo sea más caro. Brasil, que sigue siendo una nación muy pobre, es actualmente uno de los países más caros del planeta. El precio de la vivienda en Río de Janeiro y São Paulo casi se ha duplicado desde 2008. Alquilar oficinas en Río es hoy más costoso que hacerlo en Nueva York, y los salarios de los ejecutivos en São Paulo son mayores que en Londres o Manhattan. Y la inflación para todos está subiendo hasta el punto de que la presidenta, Dilma Rousseff, ha declarado que es su principal preocupación. No hay duda de que la economía esta sobrecalentada.

Pero ¿es Brasil una burbuja financiera? No. El progreso de Brasil y su potencial no son una ilusión. Se basan en logros concretos y fortalezas reales. Pero la economía brasileña sí tiene aspectos insostenibles. La expansión del crédito y el crecimiento del gasto público no pueden seguir al ritmo actual. Hay muchas reformas estructurales importantes que el expresidente Lula da Silva pospuso -Brasil tiene algunos de los jubilados más jóvenes del mundo, por ejemplo-. El Gobierno chino invierte anualmente en infraestructura (vías, aeropuertos, hospitales, etcétera) un monto equivalente al 12% de su economía. Brasil, tan solo el 1,5%. Esto explica, en parte, por qué la economía brasileña se “recalienta” a pesar de que este año solo crece al 4,5%. ¿Qué pasaría si creciera al 10% varios años seguidos? Su decrépita infraestructura no lo permitiría.

En estos momentos la prioridad es estabilizar la economía. Esto implica tomar medidas políticamente impopulares: desacelerar el consumo, por ejemplo. Y otras. O la presidenta Dilma Rousseff le baja el volumen a la fiesta y lo hace ahora de una manera controlada, o los mercados “se lo harán” de una manera descontrolada y socialmente más dolorosa. La euforia y la complacencia son las enemigas más amenazantes para el exitoso Brasil de hoy (por Moisés Naím para El País).


Imagem: Crystal Bubble Fine Art

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Um desabafo inflamado ou inframado? A polêmica em torno do livro POR UMA VIDA MELHOR

Gente, li muitas coisas, ouvi muitas coisas, muitos argumentos – bons argumentos – de um lado e de outro da questão. E muita besteira também. Resolvi dar minha opinião. Antes de tudo é preciso ler o tal capítulo do livro que gerou tanta polêmica a respeito do ensino da língua. Muita gente comentou Brasil afora, na mídia, na mesa de bares, nas escolas, nas redes sociais, sem ao menos tê-lo lido, criticando só a partir de frases tiradas de seu contexto e dos famosos “achismos” tão caros aos que não são da área. Por que será que temos esse gosto pelas dicotomias, polaridades, falsas polêmicas? Por que tudo vira um ringue entre os que acusam e os que defendem ardorosamente uma causa? Não podemos, como educadores que pensam a linguagem, cair na armadilha dessa dicotomia tosca que se criou. E o engraçado é que o livro propõe justamente o ensino da gramática, da norma culta da língua... Talvez a autora tenha, de fato, sido infeliz – até ingênua, talvez – no modo de colocar certas coisas, talvez até superestimando a capacidade dos seus leitores em compreender a questão em toda sua complexidade. Talvez ela tenha passado rápido demais pelo tema, não distinguindo a fundo a norma escrita e a falada, a norma ideal da gramática (que ninguém fala, nem os letrados) e a norma real, o padrão e o culto, a gramática e a língua. Talvez ela tenha sido apressada no trecho que indica que “claro que pode falar assim”, considerando a complexidade da questão e a delicadeza do tema para quem não é da área e não acompanha as discussões sobre a variação lingüística. Acho que ela não pensou que pudesse ser tão chocante para uns, algo tão já discutido no meio lingüístico. Talvez. Talvez ela pudesse ter sido mais cuidadosa na transposição do que é saber da lingüística e o modo de abordar, no ensino, a realidade da existência de variedades faladas (para ensinar a norma, diga-se de passagem). Mas daí a essa reação apaixonada contra o que ela trata no capítulo, me parece mais equivocada ainda. Caímos de novo naquela de que a gramática, a norma culta, etc, etc, são tesouros intocáveis, quase divinos? Precisava tanta inflamação?

Acho que é preciso sim reconhecer as variedades, sua legitimidade como língua portuguesa, para partir daí para o ensino da linguagem valorizada socialmente. Só assim milhares de alunos serão reconhecidos como falantes do português, embora passem a tomar consciência de que sua variedade não tem muito prestígio social. Vão aprender sabendo o porquê de aprender, não achando que é porque não falam português. Acho justíssimo sim, esse tema ser tema de estudo da área de linguagem na escola, se a escola é para todos.

Marcar de forma redundante o plural numa frase, como faz a língua portuguesa, não é necessariamente a única forma de marcar plural e isso pode até mudar, como já mudou em várias línguas, argumento que, evidentemente, não invalida a norma atual da língua culta. Talvez a autora tenha se apressado no modo de fazer suas colocações, mas sua perspectiva é a da ciência lingüística. Não concordo que haja uma separação estanque entre a ciência lingüística e a prática educativa. Fosse assim, não teria havido mudanças essenciais no ensino da língua a partir dos estudos da língua nas últimas décadas. Há a tal “transposição didática”, evidentemente, não se trata de uma aplicação direta. É evidente que os conhecimentos lingüísticos, descritivos da língua, não são para serem, todos, repassados para os alunos tal e qual. Saber como funciona e ensinar, realmente, não são a mesma coisa. Mas também não são objetos estanques, impermeáveis. Parece-me essencial a contribuição da sociolingüística desde os anos 70 e da lingüística contemporânea para o ensino da língua hoje e, mais ainda, junto com isso, para a mudança de atitude quanto ao tratamento das questões de linguagem na escola. Em especial o tratamento dado em relação às variedades faladas pelos alunos, o modo como os acolhemos na escola. A língua culta não é um tijolo maciço estanque, inquebrável, imutável e intocável. E é assim que ela tem aparecido na mídia!

De novo vemos os burgueses letrados tremerem de medo do falar de grande parte do povo brasileiro, por esse falar estar explicitado em um livro, outro objeto intocável, símbolo do que é mais culto! Nossa, que heresia, hein?!!!

O livro em questão, no entanto, não prega falar “errado” nem ensinar aos letrados as variedades não cultas da língua para que possam falá-la também. Que despautério desses que foram à TV afirmá-lo! E como se pode constatar ao lê-lo, curiosamente, o livro pretende, justamente, ensinar a norma culta. Colocar as coisas nos seus lugares é muito saudável, inclusive destronando a norma culta de um trono imaculado, com a faixa “língua portuguesa” atravessada no peito, acho que é isso que a lingüística faz, e que o livro acusado tentava fazer.

O que os lingüistas discutem hoje, de sua perspectiva descritiva da língua falada, não pode ser ignorado pela escola. Especialmente a escola pública, que recebe alunos que falam variedades bem distantes da norma culta. Isso já sabemos. Os modos de fazê-lo podem, esses, ser discutidos, sim, concordo. Não ensinar a norma culta é reafirmar o fosso, concordo. A própria autora do livro, sem dúvida, sabe disso. Ninguém está pregando “cada um no seu quadrado”!!! Mas ignorar o fenômeno da variação é uma injustiça ainda maior. Reconhecer a variedade e conceber a norma como uma variedade de prestígio – e que o é por razões diversas, inclusive históricas, sociais, políticas – é um primeiro passo para uma atitude de não preconceito, que me parece, é papel da educação. Aliás, é bom lembrar, a expressão “preconceito lingüístico” não foi um delírio cunhado por essa autora em especial, como muitos estão dizendo, mas faz parte do campo conceitual da ciência lingüística. Não dá para separar de todo linguagem, educação e poder. Não é possível que, com tudo que sabemos hoje sobre a história da constituição de uma língua padrão, sobre fenômenos e mudanças lingüísticas, continuemos tratando a norma culta como “a língua portuguesa” e as demais variedades todas como distorções dela. E é esse trono que está sendo propalado pela mídia.

Porque ninguém se incomoda que hoje se fale a palavra “balde” como /baudji/ e não como /balde/, como falava meu avô e uns poucos de cabeça branca que ainda restam vivos? (tentar falar assim, para nós, hoje, faz uma dobra na língua que parece até inglês!!!). Porque não incomoda os defensores da língua culta que uma moça bem letrada diga a seu marido, filho ou a seu funcionário: “Benhê, traz um copo d’água, por favor. Você traz?”, "João, leva esse livro pra estante, tá?", “Filho, vem cá! Você quer jogar?”. Por que para os letrados a tolerância é maior? O letramento permite que todos se policiem para usar a norma culta nas situações sociais em que esta é exigida. Para falar “se eu vir...”, “assisti ao filme...” muitos de nós temos que nos policiar (ao menos enquanto a língua não mude nesses aspectos), e relaxamos entre amigos, não? Por que toleramos as diferenças entre norma ideal e real quando quem abre a boca é de uma camada mais culta da sociedade? E por que incomoda tanto os que dizem “Eu toco frauta muito bem”? O preconceito lingüístico é sim, antes de tudo, preconceito social. Acredito nisso sim! Isso nós precisamos, como educadores, ter em mente e combater a cada dia. E é a lingüística que pode nos dar essa dimensão (ainda que, por vezes alguns também relativizem demais a questão, do ponto de vista da educação). Não podemos ignorar esse fato, ao preço de mascararmos a questão do poder que está entranhada nas questões de linguagem. Até porque o grande Camões não só falou, como escreveu frauta em seu texto mais famoso. E por quê? Por que a língua muda! E porque só valem as mudanças estabelecidas pelas camadas sociais mais prestigiadas? Precisa responder? Acho que não, né? Aliás, não fosse esse tipo de fenômeno linguístico nem haveria língua portuguesa! O certo é que esses fenômenos existem e são eles os responsáveis por formar as línguas, além de modificá-las (não necessariamente deturpá-las, como querem alguns).

Bom, isso tudo evidentemente não quer dizer que não seja para ensinar a norma culta escrita, e até mesmo a falada. Por questões sociais, sim, e em especial pelo direito ao acesso à língua em que se registram os textos escritos na nossa sociedade. Todo o livro da autora massacrada é isso, para ensinar a norma culta da língua! Ainda que essa repercussão do livro possa também gerar uma discussão fecunda, estou com Faraco, Possenti, Magda Soares, até mesmo Marcos Bagno, dentre outros, que reconhecem nessa querela toda uma falsa polêmica, uma polaridade absurda, estanque e que, feita dessa forma tão inflamada, penso eu, é burra. A complexidade da questão não cabe em cinco minutos de noticiário no jornal e nos melindres de defensores ardorosos da redoma de vidro inquebrável da norma culta, que desconhecem a própria dinâmica das línguas. Toda polaridade absoluta é burra.

Estou também com Bakhtin, para quem há na linguagem, como na vida social, forças centrípetas que tendem para a conservação, a homogeneização e forças centrífugas que impelem para o descentramento, a transformação, a diversidade. Essa tensão entre elas permeia o movimento incessante da linguagem. É a dinâmica da linguagem, da língua, da vida!!! É como penso (por Liane Castro de Araujo, doutoranda em educação pela Faced/Ufba, supervisora de Escrita e Leitura da Escola Via Magia, permitiu aqui a publicação do seu desabafo).



Imagens: Maurício de Souza

segunda-feira, 13 de junho de 2011

Santo Antônio: um santo popular

Santo Antônio nasceu no ano de 1192 em Lisboa (Portugal) e não em Pádua (Itália), onde descansam seus despojos. Foi batizado com o nome de Fernando, que mais tarde trocaria por Antônio. Era filho de pais ilustres: Martinho de Bulhões, cavaleiro do rei Afonso II de Portugal, e Maria, aparentada com Failo I, o quarto rei das Astúrias. Mas os maiores títulos de nobreza do pai de Fernando eram de ordem espiritual, já que os dois professavam uma grande fé, tinham hábitos honestos e eram distinguidos por sua enorme prodigalidade para com os mais necessitados.

Fernando herdou essas virtudes dos pais. No que se refere à piedade, cabe salientar sua especial devoção a Nossa Senhora. Desde muito jovem escolheu-a como guia e mãe, visitando com freqüência as igrejas e os mosteiros dedicados a Santa Mãe. Também de mostrava generoso com os mais pobres que acudiam ao palácio de seus pais. Por isso os biógrafos comentam que ao jovem Fernando poderiam ser aplicadas as palavras do profeta Jó: “Desde a infância eduquei como um pai” (Jó 31,18). O jovem recebeu uma esmerada formação na escola anexa à Catedral de Lisboa. Dotado de uma memória extraordinária e de um grande poder de síntese, causava admiração em seus preceptores.

Desde bem jovem Fernando estabelecera seu futuro. Apesar de ter pais exemplares, o mesmo não ocorria no ambiente social da nobreza: a futilidade e o desperdício invadiam palácios e castelos. Decepcionado e desprezando essa vida, Fernando dobrava o seu tempo de oração e pedia a Nossa Senhora que o iluminasse. Depois, decidido, renunciou à herança paterna e aos títulos nobiliários e ingressou na comunidade dos cônegos regulares de santo Agostinho, no Mosteiro de São Vicente de Fora, que, como o nome indica, estava localizado nos arredores de Lisboa. Era o ano de 1208. Fernando acabava de completar 16 anos.

Na solidão do claustro, Fernando entregou-se com empenho à oração e ao estudo. Aprofundou-se na doutrina do grande doutor da Igreja, santo Agostinho, e começou a saborear a doçura e a suavidade do Senhor. Em razão da proximidade do mosteiro com a capital, Fernando recebia muitas visitas dos parentes e amigos, que perturbavam a paz que ele havia escolhido. Por esse motivo escolheu abandonar aquele local e transferir-se para o mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, sem trocar de ordem religiosa. Lá continuou a sua formação espiritual e intelectual com o intuito de viver em Cristo e por Cristo. Provavelmente entre 1218 e 1219 Fernando ordenou-se sacerdote.

Na Itália, São Francisco de Assis havia fundado um novo movimento religioso: a Ordem dos Frades Menores. Pouco tempo depois já eram muitos os companheiros que o seguiam. Francisco remetia seus discípulos à observância do Evangelho; foi o primeiro fundador que, em sua regra, animava aqueles que desejavam partir em missão para outros países. Durante uma longa viagem em direção ao Marrocos, um grupo deles se hospedou em Coimbra, justamente no mosteiro de Santa Cruz, onde Fernando era o encarregado da hospedaria. O exemplo dos Frades Menores inspirou Fernando que em 1221 incorporou-se à ordem do bem-aventurado Francisco. Mudou a correia preta e lisa pelo cordão branco e nodoso; o nome Fernando para o de Antônio; e a vida monástica e estática pela missionária e andarilha.

Fernando estava com 29 anos e gozava de boa saúde. Uma vez professo, pediu para ser enviado para o Marrocos. Recém chegado a terras africanas, acometeu-o uma grave doença que o manteve sem poder se mexer. Posteriormente recuperou-se, mas como a convalescença era longa e a saúde precária, teve de ser enviado de volta ao seu país para que, recuperado completamente, pudesse regressar ao Marrocos. Com esse propósito pegou o navio, mas um vento impetuoso, freqüente no estreito de Gibraltar, desviou a nau para o Oriente até as costas da Sicília. Provavelmente desembarcou em Taormina e refugiou-se no convento dos franciscanos nas proximidades da cidade de Mesina.

Ao tomar conhecimento da celebração do capítulo geral da Ordem Franciscana, convocado para Assis por São Francisco, em 30 de maio de 1221, frei Antônio completamente recuperado, dirigiu-se para lá, apesar da distância de 600 quilômetros. Chegou a Assis e teve a alegria de conhecer pessoalmente o fundador da Ordem, que ficou impressionado com a humildade do frei Antônio, reconhecendo de antemão a extraordinária sabedoria da qual era dotado.

Frei Antônio havia aprendido com São Francisco alguns métodos de pregação inspirados no Evangelho. Era preciso apresentar-se para o combate com as armas das boas obras que edificam e não destroem; com o fogo da Palavra de Deus que seduz e não obriga, que persuade e não condena; apresentar-se sempre humilde, carregando poucas coisas, sem bastão nem alforje. Frei Antônio também aprendera com o “Pobrezinho de Assis” o amor pelas coisas belas, que era um aspecto próprio de sua espiritualidade. Se Francisco se apaixonou pelo cosmo material e por tudo que ele continha, frei Antônio apaixonou-se pelo dom gratuito da palavra. Em seus sermões comentava a necessidade que temos da palavra que ele denomina pulcra, delicada, eco do Verbo eterno do Pai, encarnado em Jesus Cristo. Também era um entusiasta das Ciências Humanas. Conjugava com simplicidade o conhecimento da teologia com o saber humano, porque aos olhos do frade menor nada era profano; tudo era obra maravilhosa e gratuita de Deus Altíssimo.

No ano de 1230, frei Antônio retirou-se para uma localidade perto da cidade de Pádua. Morou no convento-eremitário de Arcela. Um dia, enquanto fazia a frugal refeição no convento, foi acometido por um forte mal-estar que paralisou todos os membros do seu corpo. Os frades o levantaram e deitaram sobre um leito de palhas. Antônio foi piorando progressivamente. Pediu a presença de um religioso para se confessar, que lhe ministrou também o sacramento da unção dos enfermos. Depois de ter comungado, entoou seu hino predileto dedicado a Nossa Senhora, “Ó Senhora gloriosa, excelsa sobre as estrelas”. Depois, com um sorriso e uma expressão de paz imensa, disse aos que o cercavam: “Vejo o meu Senhor”, e entregou a alma a Deus. Era sexta-feira, 13 de junho de 1231. Tinha apenas 39 anos. Um ano depois, em 30 de maio de 1232, o papa Gregório IX inscreveu-o no catálogo dos santos. Posteriormente, foi construída uma grande basílica em Pádua, na qual descansam suas relíquias, que têm sido e são veneradas por milhares de peregrinos que para aí se dirigem, vindos do mundo inteiro (Fonte: Santo Antônio: palavra e pobreza, por Francesc Gamissans).

PALAVRAS DE SANTO ANTÔNIO – “Assim como não se ateia fogo em uma casa onde um morto está sendo velado, vocês também não podem a casa onde Deus é menosprezado pelas investidas e agitações da heresia. Mesmo que vocês tivessem a certeza de sua obstinação, sempre é preciso deixar um lugar para a TOLERÂNCIA, para a PACIÊNCIA, para a ESPERA, porque o Senhor é o primeiro a nos dar o exemplo”. Mais atual, impossível.

E viva a Santo Antônio!

Imagem: Sant'Antonio da Padova con il Bambino, 1656, por Guernico.

domingo, 5 de junho de 2011

POEMA FALADO: Quadrilha

O amor por vezes é paixão, por vezes é alegria, por vezes, solidão. O amor por vezes é tudo, por vezes, nada. Há momentos em que o amor se converte em magníficos encontros. Em outros, porém, o amor é só desencontro, tristeza, morte. Talvez o amor seja mesmo um grande labirinto repleto de vias estreitas e encruzilhadas perfeitas. Para homenagear o amor no mês em que o amor homenageia os enamorados, o Salvador na sola do pé por meio do Poema Falado traz em junho o magnífico texto QUADRILHA, do sempre, e por isso mesmo, não menos magnífico poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade, que diz assim: “João amava Teresa / que amava Raimundo / que amava Maria / que amava Joaquim / que amava Lili / que não amava ninguém. // João foi para os Estados Unidos / Teresa para o convento / Raimundo morreu de desastre / Maria ficou para tia / Joaquim suicidou-se / e Lili casou com J. Pinto Fernandes / que não tinha entrado na história”. Boa leitura audiovisual!



Imagem: Eros e Psique, por François Gêrard.

segunda-feira, 30 de maio de 2011

Deu no Fantástico: Fernando Henrique defende regulamentação da maconha e causa polêmica

Na postagem anterior o Salvador na sola do pé reproduziu uma entrevista do professor e pesquisador Antonio Nery Filho, um dos principais responsáveis pela criação do CETAD – Centro de Estudos e Terapia do Abuso de Drogas, vinculado à Universidade Federal da Bahia, e, hoje, consultor da Secretaria da Saúde de Salvador para Álcool e Outras Drogas. Na entrevista ele afirma ser um absurdo a idéia de que para os usuários de crack só há duas opções: cadeia ou caixão. “Não gosto desta dicotomia do ‘crack é cadeia ou caixão’. Parece que não há alternativa para o usuário. Ninguém se trata, ninguém muda”?

As drogas fazem parte da parte do nosso dia a dia quer queiramos ou não. Se as sociedades classificam-nas como um problema, então, é preciso buscar soluções para esse problema pautadas em argumentos consistentes e não em preconceitos ou tabus que em nada ajudam. Tratar a questão das drogas como caso de polícia já se mostrou uma saída pouco eficiente. Sendo assim, será preciso encontrar outras formas de combate como, talvez, a regulamentação do consumo. “O que nenhum político tem falado é da violência. Hoje, o usuário, para comprar drogas, tem que entrar em contato com o tráfico, que é regido por uma imensa violência. E do outro lado estão os problemas de saúde relacionados ao consumo. Se eu retirasse a violência do tráfico e cuidasse apenas dos problemas de saúde, não seria mais interessante? Quando um adolescente vai comprar maconha, ele encontra no mesmo lugar cocaína e crack. Se o contato com o comerciante generalista fosse evitado, isso não reduziria a possibilidade de ele fazer experiências com drogas mais graves”?

Esta semana o programa Fantástico da Rede Globo exibiu uma matéria sobre o documentário “Quebrando o tabu”, dirigido por Fernando Gronstein Andrade, no qual o ex-presidente do Brasil e outras autoridades defendem a regulamentação do uso da maconha como uma maneira mais eficiente de se combater o tráfico, já que a repressão pura e simples praticada ao longos dessas últimas três décadas não tem surtido nenhum efeito positivo. Abaixo está reproduzida a matéria exibida no Fantástico do dia 29/05/2011. O debate está posto (por Sílvio Benevides).

Ex-presidente conduz o documentário “Quebrando o tabu”. No filme, ex-presidentes reconhecem que falharam em suas políticas de combate às drogas – Um ex-presidente da república roda o mundo, grava um documentário e levanta uma bandeira bem polêmica. Segundo ele, o consumo de maconha deveria ser regulamentado. Sábado, 21 de maio, Centro de São Paulo. A Marcha da Maconha, proibida pela Justiça, vai às ruas e é reprimida pela polícia. “Não adianta querer tratar um debate de ideias com porrada. A gente não vai aceitar, a gente vai continuar”, argumenta o jornalista Júlio Delmanto.

As vozes pela descriminalização, ou até pela liberação da maconha, estão ganhando apoio de peso. O líder do PT na Câmara dos Deputados, Paulo Teixeira, já defendeu publicamente até a formação de cooperativas para o plantio de maconha. E agora o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, prestes a completar 80 anos, conduz um documentário que defende a descriminalização do uso de drogas e a regulação do uso da maconha. Por que o presidente resolveu meter a mão nesse vespeiro? “Porque é um vespeiro. As pessoas não tem coragem de quebrar o tabu e dizer: vamos discutir a questão”, diz Fernando Henrique Cardoso.

No filme “Quebrando o tabu”, que estreia nesta semana, Fernando Henrique Cardoso e ex-presidentes do México, Ernesto Zedillo; da Colômbia, César Gaviria; e dos Estados Unidos, Jimmy Carter e Bill Clinton reconhecem: falharam em suas políticas de combate às drogas. Perguntado sobre o motivo pelo qual não foi implementado em seu governo, Fernando Henrique Cardoso responde: “Primeiro porque eu não tinha a consciência que tenho hoje. Segundo que eu também achava que a repressão era o caminho”.

Todos concluem que a guerra mundial contra as drogas, iniciada há 40 anos, é uma guerra fracassada. Bilhões de dólares são gastos no mundo inteiro, mas o consumo cresce, e cresce o poder do tráfico, espalhando a violência. As armas constantemente recolhidas dos traficantes no Rio de Janeiro são a prova de que a polícia trabalha enxugando gelo. É preciso ir além das apreensões de drogas e do combate aos traficantes. “Um ponto central é questionar a lógica de guerra, não é defender o uso da droga. É apenas dizer: ‘vamos ver, vamos pensar se não existem jeitos mais inteligentes e mais eficientes de lidar com esse assunto’”, diz o diretor do filme Fernando Gronstein Andrade.

No Brasil, a maconha é a droga mais difundida. Consumida por 80% dos usuários de drogas; 5% da população adulta. Mas é inofensiva a ponto de ser legalizada? “Não há droga inofensiva. Qualquer coisa depende da dose, da sensibilidade do indivíduo. Agora, entre as drogas usadas sem finalidade médica para fins de divertimento, para fins de recreação, a maconha é bastante segura”, afirma Elisaldo Carlini,médico da Unifesp especializado em drogas. Palavra de quem há mais de 40 anos estuda a questão e trata dependentes. O professor Elisaldo Carlini representa o Brasil nas comissões de drogas da Organização Mundial da Saúde (OMS) e das Nações Unidas. “Defendo totalmente a descriminalização”, diz Carlini.

“Eu sou contra porque quanto mais fácil você tornar a droga disponível na sociedade, maior será o consumo”, defende o psiquiatra da Unifesp Ronaldo Laranjeira. O professor Ronaldo Laranjeira trata de dependentes químicos há 35 anos. “Ela é uma droga perigosa. Um dos principais exemplos é que 10% de todos os adolescentes menores de 15 anos que experimentam com a maconha vão ter um quadro psicótico”, afirma.

Na lista das drogas mais perigosas publicada na revista médica “Lancet”, respeitada no mundo inteiro, a maconha aparece em 11º lugar, bem atrás do álcool e até mesmo do cigarro, que são vendidos legalmente. “Álcool é mais letal do que maconha. Não se diz isso, mas é. Pelo menos os dados mostram isso. Então, temos que discutir e diferenciar, regular o que pode e o que não pode”, defende o ex-presidente Fernando Henrique.

Regular não é o mesmo que legalizar. E foi isso que Fernando Henrique Cardoso descobriu indo para a Holanda. Lá a maconha é vendida em cafés. Mas o governo não legalizou o uso indiscriminado. Funciona assim: a regulamentação determina que você não pode consumir nas ruas, nem vender fora dos cafés; nos locais determinados, fuma-se maconha sem repressão policial. “Na Holanda é muito interessante. Os meninos de colégio – eu conversei com eles - não têm curiosidade pela maconha, porque é livre”, garante Fernando Henrique Cardoso.

O consumo de maconha é tolerado e, mesmo assim, vem caindo. Desde 2006, a lei brasileira já trocou a prisão por penas alternativas para quem é pego com drogas e considerado usuário, não traficante. Mas que quantidade de drogas, que situação caracteriza o tráfico? Isso a lei deixa a critério do juiz. É uma linha difícil de estabelecer. Como o doutor Drauzio Varella explica no documentário: “Como a droga é criminalizada, é um crime você possuir a droga, não vão dez pessoas comprar se uma pode comprar e dividir entre as dez. E o menino que usa droga percebe que, dessa maneira, também se ele vender um pouquinho mais caro, a dele sai de graça”, argumenta o médico no filme. Nesse caso, o usuário vira traficante e acaba na prisão, onde, como se sabe, a droga circula facilmente.

Em Portugal, o consumo de entorpecentes não dá mais cadeia desde 2001. Mas há uma penalidade: o usuário tem que fazer tratamento médico e prestar serviço social. “A maior parte dos que usam drogas quer sair dessa situação. E a existência de um caminho que não os leve à cadeia, mas que leve ao tratamento, é positiva”, ressalta Fernando Henrique. O ministro da Saúde de Portugal explica que dez anos depois o tratamento é gratuito para dependência em todo tipo de droga – da maconha ao crack. “Dez anos depois, o que nós vemos? Os nossos jovens consomem menos drogas ilícitas”, revela o ministro.

“Eu não vejo nenhum sentido em criminalizar o uso e a posse dessas drogas todas. É um caso de saúde, não é um caso de polícia”, avalia Elisaldo Carlini. Mas qual é a estrutura que o Brasil tem hoje para tratar seus dependentes? “Essas pessoas ficam perambulando pelo sistema de saúde ou perambulando, literalmente, pelas ruas, no caso dos usuários de crack. E você fica desassistindo ativamente essa população”, comenta Ronaldo Laranjeira.

O Ministério da Saúde já fez as contas do que falta para tratar dependentes químicos: 3,5 mil leitos hospitalares, 900 casas de acolhimento e 150 consultórios de rua, para chegar às cracolândias, por exemplo. Mas a previsão é atingir essa meta só em 2014. “Como Ministro da Saúde, tenho opinião como ministro. Exatamente isso: nós do Sistema Único de Saúde (SUS) precisamos reorganizar essa rede e ampliá-la rede para acolher usuários de drogas, sejam lícitas ou ilícitas”, afirma Alexandre Padilha.

Na Suíça e na Holanda, existem os projetos chamados de redução de danos: dependentes de drogas pesadas, como heroína, recebem do governo a droga e agulhas limpas. “É terrível ver isso. Mas você vê também que ali está um doente, não um criminoso”, constata Fernando Henrique Cardoso. Triste, mas é essa redução de danos que evita a transmissão de doenças infecciosas, mortes por overdose e a ligação dos usuários com o crime. “Eu não estou pregando isso para o Brasil, porque a situação é diferente, o nível de cultura, riqueza e violência é diferente. Cada país tem que buscar seu caminho. É isso que eu acho fundamental. Quebrar o tabu, começar a discutir e ver o que nos fazemos com a droga”, diz Fernando Henrique Cardoso.

Ouvindo um ex-usuário famoso, o documentário dá uma pista: campanhas de prevenção abertas e honestas podem funcionar. “O grande perigo da droga é que ela mata a coisa mais importante que você vai precisar na vida: o seu poder de decidir. A única coisa que você tem na sua vida é o seu poder de decisão. Você quer isso ou quer aquilo? Seja aberto, seja honesto. Realmente, a droga é fantástica, você vai gostar. Mas cuidado, porque você não vai poder decidir mais nada. Basta isso”, alerta o escritor Paulo Coelho (Fonte: fantastico.globo.com).

Imagem: Priscila Marotti.

segunda-feira, 23 de maio de 2011

A questão das drogas no Brasil

As drogas, especialmente as ilícitas, ainda são um tema tabu. Devido a constante associação entre drogas e criminalidade, costuma-se evitar a discussão sobre a função que estas substâncias sempre desempenharam e desempenham na história da humanidade, como se essa atitude pudesse resolver os problemas decorrentes do uso e abuso de drogas. Quando a discussão ocorre, comumente ela vem destituída de argumentos técnico-científicos pouco consistentes ou, o que é pior, vem impregnada de falsos moralismos. Seja como for, trata-se de um tema que não pode ser ignorado, mas, sim, debatido e enfrentado por meio de políticas públicas realmente eficazes e não com terrorismo publicitário. O uso de drogas ilícitas ou não tem um impacto na sociedade. Em relação às ilícitas, por exemplo, é preciso discutir o fortalecimento do narcotráfico decorrente do seu uso. Em relação às lícitas, como álcool, é preciso avaliar o seu impacto na sociedade. Não se trata aqui de defender a proibição ou legalização desta ou daquela substância. Trata-se, apenas, de levantar uma importante discussão.

O que não pode ocorrer de maneira alguma é tratar a questão das drogas com dois pesos e duas medidas, de acordo com os interesses do mercado, como vem ocorrendo. Eu não entendo, por exemplo, porque o álcool, uma droga que pode causar dependência tanto quanto outras drogas e que costuma estar associada aos inúmeros casos de violência doméstica, contra mulheres, crianças e adolescentes, violência no trânsito urbano e nos vários casos de acidentes e mortes nas estradas brasileiras, além, é claro, da violência em grandes festas, a exemplo do carnaval, tem o seu comércio e propaganda liberados e outras com um potencial destrutivo infinitamente menor, ao menos no que tange às relações sociais, são consideradas verdadeiras obras do demônio e, por isso, proibidas. O tabaco, por exemplo, tem sofrido constantes ataques que denunciam o mal que ele faz à saúde. As campanhas publicitárias sofrem diversos tipos de controle, várias leis municipais e estaduais restringem o seu uso, especialmente em locais fechados. Entretanto, não me consta que existam casos de maridos que bateram nas suas esposas e/ou filhos após passar a noite toda fumando tabaco, nem de gente que iniciou uma violenta briga no carnaval após ter fumado um maço de cigarros. Por que tanta campanha contra o cigarro e pouca contra o álcool? Não entendo. Será que é porque os fabricantes de bebidas alcoólicas são grandes patrocinados de astros e estrelas das artes, principalmente da música, são grandes patrocinadores de festas, shows e eventos esportivos? Talvez (por Sílvio Benevides).

São muitos os questionamentos e as dúvidas. Por essa razão o Salvador na sola do pé decidiu reproduzir abaixo a entrevista do professor e pesquisador Antônio Nery, realizada pela jornalista Tatiana Mendonça para a revista Muito. Leia, reflita, opine.

CRACK: É CADEIA OU CAIXÃO – UMA PROPOSIÇÃO INDECENTE - O crack ganhou ruelas e outdoors. O do governo dizia que a substância é responsável por 80% dos homicídios no Estado. O de grupos de comunicação, que é cadeia ou caixão. O professor e pesquisador Antonio Nery Filho, 66, não acredita em nada disso. Dê ouvidos ao que ele diz, porque passou 30 anos, quase metade da vida, estudando drogas. Mas Nery não concordaria com essa afirmação. Diria que estuda pessoas. “As pessoas são mais importantes porque é o homem que pensa. As drogas não pensam”. Formado em medicina pela Ufba e doutor em ciências sociais pela Universidade de Lyon, na França, criou há 25 anos o Cetad – Centro de Estudos e Terapia do Abuso de Drogas, vinculado à Universidade Federal da Bahia. Ele também é consultor da Secretaria da Saúde de Salvador para Álcool e Outras Drogas.

COMO AS CAMPANHAS CONTRA O CRACK REPERCUTEM NOS USUÁRIOS?

As campanhas transversais, de curta duração, nunca produziram grandes efeitos positivos. Elas causam efeitos negativos, à medida que as mudanças positivas demoram muito. Do ponto de vista da natureza humana, não é fácil a adoção de um comportamento que venha quase contra um certo instinto natural, que é o da desordem e da destruição. A organização humana se faz pela via da violência, não da paz. Agora, na medida em que a violência se instala, os humanos começam a fazer leis para controlar aquilo que é “natural”. Lembro que, no final dos anos 1970, o LSD era uma substância muito temida. As pessoas achavam que ela ia ganhar o mundo e nós dizíamos que não, porque o ácido lisérgico não é capaz de produzir dependência química ou física e, por outro lado, produz muita doença. As pessoas não procuravam doença. Então, não era uma boa substância de mercado. Com o crack, é a mesma coisa.

POR QUE?

Porque é uma substância que produz doença e morte muito fácil. Crack é cloridrato de cocaína, é a mesma cocaína associada a outros produtos. Quando alguém usa cocaína via pulmonar, a quantidade de princípio ativo que ocupa o organismo e, particularmente, o sistema nervoso central é tão grande que produz gravíssimos danos. Os usuários se desorganizam muito rápido, psiquicamente, fisicamente e socialmente. Isso quer dizer que um dependente de crack não é bom para o comércio porque ele não é, do ponto de vista social, acessível; do ponto de vista psíquico, enlouquece rapidamente; e, do ponto de vista físico, corre o risco de morrer muito rapidamente. Logo, é um mau cliente. E os traficantes sabem disso. Então, apoiado nisto e em estudos epidemiológicos, tenho dito que o consumo de crack não tem futuro. Primeiro, pela pouca viabilidade comercial e, segundo, pelo fato de que os usuários têm se restringido quase que exclusivamente aos excluídos dentre os excluídos. Mas esse público que o senhor diz que morre rapidamente também se renova. Essa é uma questão. Se considerarmos que temos uma grande população periférica abandonada, é evidente que haverá uma circulação do crack durante um certo tempo entre essa população. O problema é que se fala do crack como se ele estivesse sendo acessado por todas as camadas sociais e de modo epidêmico. Penso que isso não é verdade. Li que a novela Passione tem um personagem que era um ciclista, bonito, rico, que começa a usar anfetamina para ter bons resultados e que da anfetamina passa para o crack. Acho que a intenção de chamar atenção para o produto produzirá mais danos que benefícios. As pessoas não passam da anfetamina para o crack, porque quem usa anfetamina necessita de uma substância para o desempenho. Para mostrar isso, a novela precisaria evidenciar o quanto este personagem era doente do ponto de vista social ou psíquico.

ENTÃO O SENHOR NÃO ACREDITA QUE O CRACK VÁ SE EXPANDIR PARA A CLASSE MÉDIA.

Vem-se falando muito disso, como se falava do ácido, ou que a maconha tomaria o Brasil e nossos filhos seriam todos usuários. E nós continuamos tendo no álcool e no tabaco danos sociais muito maiores. Uma recente pesquisa da Secretaria Nacional de Políticas sobre Drogas (Senad) com universitários mostrou que 0,2% entre 14 mil interrogados tiveram algum contato com o crack. Por quê? Porque eles sabem que usar crack é saltar de paraquedas sem paraquedas. As pessoas usam droga pelo prazer ou para uma suprir uma necessidade subjetiva. E o crack é uma droga monstruosa que supre necessidades monstruosas. Quem disse que a classe média tem faltas monstruosas a serem suprimidas? Depois, não gosto desta dicotomia do ‘crack é cadeia ou caixão’. Parece que não há alternativa para o usuário. Ninguém se trata, ninguém muda? O que nenhum político tem falado é da violência. Hoje, o usuário, para comprar drogas, tem que entrar em contato com o tráfico, que é regido por uma imensa violência. E do outro lado estão os problemas de saúde relacionados ao consumo. Se eu retirasse a violência do tráfico e cuidasse apenas dos problemas de saúde, não seria mais interessante? Quando um adolescente vai comprar maconha, ele encontra no mesmo lugar cocaína e crack. Se o contato com o comerciante generalista fosse evitado, isso não reduziria a possibilidade de ele fazer experiências com drogas mais graves?

HÁ UMA IDEIA MUITO DIFUNDIDA DE QUE O DEPENDENTE DE CRACK E OUTRAS SUBSTÂNCIAS MAIS AGRESSIVAS É ALGUÉM “POSSUÍDO” PELA DROGA. QUANTO DISSO É REAL?

Em 30 anos de trabalho, tenho defendido que nós podemos ter contato com coisas boas e ruins, transitoriamente, inclusive. Uma pessoa pode, num determinado momento, usar cocaína e, depois, não precisar mais. Por outro lado, nós sabemos que os seres humanos têm muitos outros recursos, além das drogas, para encarar suas dificuldades. Portanto, quando se diz que alguém virou um possuído, se esquece de dizer que esse é o estágio final do uso de drogas para estas pessoas.

ESPECIALISTAS DIZEM QUE O IDEAL É QUE O TRATAMENTO E EVENTUAL INTERNAÇÃO SEJAM VOLUNTÁRIOS. ISSO VALE APENAS PARA OS CASOS MAIS EXTREMOS?

Quando alguém se torna dependente, um dos comprometimentos da doença é a perda da vontade. Então nessa condição as pessoas não buscam tratamento. Mas os adolescentes que não estão doentes buscam; as pessoas que começam a beber um pouco mais buscam informação, algum tipo de cuidado, sem o comprometimento da sua vontade. Então é saber que oferta nós estamos fazendo na saúde. As pessoas têm muito medo de serem tratadas como loucas quando elas de fato não são. É preciso que nós possamos transmitir que orientação, informação, psicoterapia não significam que essa pessoa será considerada uma louca incurável que precise de internação. A pessoa deve ser internada quando não há mais alternativa de um tratamento ambulatorial ou quando ela está completamente doente do ponto de vista físico, psíquico e social.

COMO O SENHOR VÊ OS TRATAMENTOS QUE SÃO VINCULADOS À RELIGIÃO, COMO SE A “CURA” VIESSE DE DEUS?

As comunidades terapêuticas se tornaram uma alternativa à insuficiência de meios da saúde pública. Mas elas não fazem distinção de quem é quem e aceitam todas as pessoas: psicóticas, não-psicóticas, adolescentes... A porta de entrada é muito larga. É preciso separar as categorias de consumidores, para que um adolescente que use maconha não seja colocado junto a pessoas que estão em outras dimensões mais graves de uso. O segundo aspecto é que elas usam como pressuposto do acolhimento a fé. E a fé fica comprometida quando há uma doença mental ou uma relação com a droga.

EM QUE O CETAD MAIS CONTRIBUIU PARA MUDAR A VISÃO SOBRE DROGAS NA BAHIA?

Inauguramos um novo modo de pensar a partir da pessoa, ajudando a “desdemonizar” o consumo. As pessoas são mais importantes que as drogas porque é o homem quem pensa, as drogas não pensam. Isso é fundamental. Também inauguramos, em 1995, a prática da redução de danos, que significa reconhecer a liberdade da pessoa no contato com as coisas do mundo, ajudando-a a se prejudicar menos. Isso foi uma revolução. Em 1995, nós criamos o consultório de rua, para atender pessoas que, por impossibilidade social, nunca viriam até aqui. Há dois meses, o consultório foi reativado e funciona em Salvador e Lauro de Freitas, atendendo crianças e jovens que vivem nas ruas. Vamos implantar outro em Camaçari.

POR QUE O SENHOR ACEITOU O CONVITE PARA SER CONSULTOR DA PREFEITURA?

Porque envelheci (risos), porque acho que 30 anos de trabalho me permitiram acumular uma experiência grande e, terceiro, porque estamos vivendo um momento especial. Veja que o Cetad foi o único serviço de assistência aos usuários durante 20 anos. Hoje, temos dois, o Centro de Atenção Psicossocial – Álcool e Drogas de Pernambués e o Gey Espinheira. Esse é o mais importante, porque não havia na Bahia nenhuma possibilidade de internar crianças e adolescentes. E funciona também como ambulatório, atende a família... A ideia é implantar mais quatro Caps AD até 2011 (por Tatiana Mendonça para a Revista Muito, n. 131, 03/10/2010).

Imagem: Célio Costa

segunda-feira, 16 de maio de 2011

O poderoso THOR

O filme Thor, em cartaz nos cinemas de Salvador, não é só ação e aventura, como convém às boas histórias de super-heróis e deuses míticos. Trata-se de um filme que pode levar muitos dos seus espectadores a elaborarem reflexões interessantes sobre, por exemplo, a relação entre pais e filhos, entre as diferentes gerações, sobre poder, respeito, sabedoria e, também, sobre o temperamento intempestivo e rebelde, geralmente referido como uma característica nata dos jovens. Rebeldia necessária para promover mudanças, mas que deve ser bem canalizada e orientada para que, ao invés de mudanças saudáveis, promova tragédias irreparáveis. Desconfio que isso se deva ao trabalho do diretor Kenneth Branagh, um profissional das artes com conteúdo. Ao contrário do que muitos por aí costumam pensar e difundir, conteúdo faz muita diferença, especialmente se ele vem acompanhado de talento. Trata-se de uma produção voltada para arrecadar grandes somas nas bilheterias do mundo e, portanto, sem compromisso com reflexões filosóficas profundas. Ainda assim, para quem desejar, claro, é possível ir além do óbvio para acessar o discurso que é dito de forma nada explícita. Vale a pena assistir essa super produção hollywoodiana. Confira abaixo entrevista com o diretor. Boa leitura (por Sílvio Benevides).

Formado pela Academia Real de Arte Dramática, fundador da Companhia de Teatro Renaissance... o currículo de Kenneth Branagh transborda erudição. Nos palcos e no cinema, o ator e cineasta irlandês de 50 anos é conhecido como um expert na obra do poeta e dramaturgo inglês William Shakespeare (1564-1616), por trás de filmes como Henrique V (1989), Muito barulho por nada (1993) e Hamlet (1996).

Mas Branagh também é pop. Fã assumido dos super-heróis criados por Stan Lee e Jack Kirby, ele foi convocado para dirigir a adaptação para o cinema de “Thor” e insinua que pode haver mais semelhanças entre as fantasias kitsch e cenários multicoloridos do filme e as intrigas e tragédias dos reis e príncipes de Shakespeare do que sonha a nossa vã filosofia.

“Há uma associação superficial que todos nós fazemos, do tipo cultura alta e baixa. Alguns pensam que histórias em quadrinhos não são literatura de verdade, só por causa da forma que são contadas: através de desenhos e letrinhas dentro de balõezinhos. Eles estão completamente enganados”, sentencia o ator e diretor em entrevista concedida ao G1 em Londres no início de abril.

G1 - Quem foi a primeira pessoa que você quis escalar para o filme?
Kenneth Branagh
- Claro que foi o Thor. Decidimos desde o início que teria de ser alguém razoavelmente desconhecido. Sabíamos que teria de ser um ator que pudesse se preparar fisicamente e que, ao mesmo tempo, fosse bastante sensível. Após longa pesquisa, achamos o Chris Hemsworth.

G1 - Você já dirigiu e atuou em pequenas produções além de historias baseadas na obra de William Shakespeare. Realizar "Thor" foi mais difícil do que adaptar Shakespeare para o cinema?
Branagh
- Foi fenomenalmente difícil. Realizar um blockbuster de verão pode ser, de alguma forma, muito mais complicado do que montar uma obscura peça em um teatro alternativo ou dirigir um filme independente.

G1 - Por quê?
Branagh
- Porque há uma associação superficial, que todos nós fazemos, do tipo cultura alta e baixa. As pessoas imaginam que deve ser fácil realizar um trabalho simplesmente por que ele está relacionado aos quadrinhos. Alguns pensam que histórias em quadrinhos não são literatura de verdade, só por causa da forma que são contadas: através de desenhos e letrinhas dentro de balõezinhos. Eles estão completamente enganados. [Nos quadrinhos] A história de Thor tem 48 anos de idade. Pessoas como o fantástico artista Jack Kirby e o incrível Stan Lee inspiraram o filme. Capturar a atenção do público para um filme como este é muito difícil. As pessoas são muito exigentes. Se elas não gostam, abandonam o filme no meio e tchau.

G1 - Foi por isso que você usou a tecnologia 3D [o filme tem cópias nos dois formatos]?
Branagh
- Eu queria a aventura do 3D, mas não queria filmar em 3D. Eu não sou inteligente o suficiente para isso [risos]. Você precisa de uma graduação em Física dada a complexidade que o 3D requer. Sério [risos]! Foram 18 meses para construir os créditos finais com a ajuda de uma companhia francesa que trabalhou todo aquele visual. Só para os créditos! Com o 3D, eu queria trabalhar a noção de profundidade dos cenários e achar detalhes que poderiam ser intensificados.

G1 - Como manteve a história de “Thor” conectada com a realidade? Houve inspiração de algum filme em particular para ligar um universo tão fantástico com o mundo real?
Branagh
- Em termos de realidade, violência e o lado militar, eu diria que o filme “Gladiador” me impressiona bastante. Eu espero não termos roubado nada diretamente, mas o “Gladiador” tem alguma relação com este lado de “Thor”.

G1 - Qual a diferença deste “Thor” para seus antigos longas, como “Frankenstein”?
Branagh
- Engraçado. “Frankenstein” foi feito exatamente antes da era digital. Lembro de perguntar ao [ator britânico] Stephen Fry o que ele fazia com aquela enorme máquina, e ele me respondeu: “Estou enviando um e-mail” [risos]! Isso foi em 1995. Claro que eu faria "Frankenstein" de uma maneira diferente se tivesse os recursos atuais e a disponibilidade financeira de “Thor”, mas tenho certeza que alguém o fará - se já não estiver fazendo.

G1 - O que quer dizer com isso?
Branagh
- Aquele filme foi um grande fracasso e foi interessante sair pelo mundo promovendo-o, tendo que responder a questões duras dos jornalistas. Porém sempre lembro de um jornalista que elogiou minha ousadia em realizar o filme. Você aprende muito com o sucesso, mas muito mais com o fracasso eu diria.

Graças ao trabalho do ator e diretor irlandês especializado em Shakespeare o filme “Thor” consegue romper o território dos fãs dos quadrinhos e resultar em um projeto interessante para o público em geral - e para os produtores de Hollywood, claro, que injetaram US$ 150 milhões na brincadeira. Para Kenneth Branagh, a história do personagem “bonitão, charmoso e destinado ao trono”, mas que “não tem o menor talento para se tornar super-herói”, tinha tudo para garantir boas risadas. “A ideia de um viking na Terra, quebrando tudo e entretido com os terráqueos, me parecia engraçada o suficiente para adicionar um elemento de humor a esta historia”, defendeu o cineasta em entrevista realizada no início de abril, em Londres.

Mas o filme “Thor” conta também com um supertime para ajudar a conquistar a simpatia dos fãs. O elenco conta com a presença da Natalie Portman, na pele do par romântico do herói, e Sir Anthony Hopkins, como o deus nórdico Odin. Como se não bastasse, o filme contou com a supervisão de um dos mais respeitados roteiristas da Marvel, J.M. Straczynski, que esteve à frente do título de Thor na editora entre 2007 e 2008 e escreveu algumas das histórias que inspiram livremente o roteiro do longa.

No filme, Thor está prestes a herdar a coroa de Odin e assumir o mítico Reino de Asgard quando, em uma tentativa pouco sensata de demonstração de força, resolve atacar por conta própria os Gigantes de Gelo do planeta rival Jotunheim. Decepcionado e irado, Odin decide punir o filho, removendo seus poderes e enviando-o à Terra para aprender a lição vivendo como uma pessoa comum.

Abrutalhado e inseparável de seu martelo - Mjolnir -, o personagem é vivido pelo ator de 28 anos Chris Hemsworth, um australiano ainda desconhecido do grande público. Em entrevista em Londres, Hemsworth reconhece que “foi intimidador” interpretar um super-herói tão querido e conhecido pelos fãs - sua primeira aparição foi em 1962, na edição nº 83 da revista “Journey into mistery”. Mas, se nas HQs Thor é o “deus do trovão”, para o ator australiano o segredo foi fincar os pés do personagem de volta ao chão. “Eu apostei em simplificar e procurei não pensar que interpretaria um Deus, mas, sim, um irmão em meio a uma família”, explicou o novo candidato a galã, que mede 1,91 m de altura e passou por preparação física intensa de quatro meses para viver o herói - ele já disse que chegou a ganhar 10 kg.

O irmão de Thor a quem Hemsworth se refere é Loki, vivido por Tom Hiddleston. O ator britânico rouba a cena como o invejoso irmão que assume o trono de Asgard, depois que Odin adoece e destitui Thor de seus poderes. “Você percebe que Loki é psicologicamente frágil. Ele tem um sentimento de que não pertence àquele lugar e sabe que nunca vai ter seu lugar ao sol. Eu acho que o ímpeto de sua busca por autoestima vem desse sentimento de ser pouco valorizado e pouco amado”, comentou o ator sobre seu personagem tipicamente shakesperiano.

Enquanto, na ficção, a disputa fratricida se dá entre Loki e Thor, na vida real, Hemsworth também teve de enfrentar alguém da própria família para ficar com o papel de protragonista. “Nos testes finais de elenco eu competi com meu próprio irmão mais novo (Liam Hemsworth). Ele estava entre os quatro últimos da lista, mas acabou não sendo chamado e eu ganhei o papel”, explicou o ator, esclarecendo que nenhuma gota de sangue foi derramada no processo (por Pedro Caiado para o portal G1).

Imagem: Marvel

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Reflexões sobre a morte e a morte de Osama Bin Laden

Pra início de conversa quero deixar claro que não estou a escrever estas linhas para defender nenhum ato ou grupo terrorista, assim como nenhum indivíduo em geral ou em particular. Quero apenas compartilhar alguns questionamentos que me ocorreram após o pronunciamento do presidente estadunidense Barack Obama comunicando ao mundo a morte do Osama Bin Laden. Nada contra a operação militar que culminou com o extermínio do líder da Al-Qaeda. Como diz um velho aforismo popular bem conhecido dos brasileiros, quem sai na chuva é para se molhar, ou seja, se o Bin Laden escolheu viver como terrorista, nada mais natural do que morrer como um terrorista. Ademais, cá entre nós, já foi tarde. O problema para mim não é este. Aliás, acho que isto não tem a menor importância. Entretanto, toda essa história de caçada ao líder terrorista mais procurado do mundo trouxe a tona duas questões, estas sim bem graves, pois comprometem o futuro político da humanidade.

A primeira delas diz respeito ao uso da tortura em interrogatórios de prisioneiros acusados de terrorismo que, supostamente, teriam conexões com membros da Al-Qaeda, conforme admitiu Leon Panetta , diretor da Central de Inteligência Americana (CIA). A tortura é uma prática hedionda contrária tanto a democracia quanto aos direitos humanos. A prática de tortura se torna ainda mais hedionda quando utilizada por um Estado que diz nortear suas ações pelos princípios e valores basilares da democracia e dos direitos humanos e que, como se não bastasse, tenta impor o seu modelo de democracia como o modelo a ser seguido por todos, como é o caso dos Estados Unidos. Então a democracia desse país se utiliza de dois pesos e duas medidas? Como confiar no discurso de uma gente que prega uma coisa e por debaixo dos panos pratica outra bem diferente? Tenho certeza que se o governo da Venezuela admitisse ter praticado tortura nas suas investigações, os Estados Unidos seriam os primeiros a condenar e no rastro deles outros tantos países que, hoje, evitam tocar nesse assunto ou mesmo comentá-lo, fariam o mesmo. Ouviríamos muitos analistas, especialistas e jornalistas condenando veementemente o Hugo Chávez. Alguns diriam até mesmo que esse tipo de coisa só poderia ocorrer em democracias deficientes ou frágeis, ou, ainda, em simulacros de democracia, a exemplo do que muitos acreditam ser as democracias latino-americanas.

Outra questão que me chamou a atenção nesse acontecimento diz respeito à “captura” do Bin Laden ter ocorrido em território paquistanês sem o conhecimento das autoridades locais. Essa atitude me levou a pensar que o Paquistão foi invadido sem a aprovação de organismos internacionais cuja legitimidade os autoriza a aprovar ou não esse tipo de ação. Até onde eu sei isso pode ser considerado uma declaração de guerra, uma vez que a boa relação entre as nações, entre outras coisas, depende, principalmente, do respeito à soberania de cada Estado. Assim aprendi. Esse respeito, me parece, não ocorreu no caso em questão. Temo que de agora em diante as regras que regem as relações internacionais sejam meras retóricas sem nenhuma aplicação prática. Como se isso não bastasse, tenta-se desviar a atenção desse fato para um outro de menor importância que é o fato de as autoridades paquistaneses serem ou muito incompetentes por não terem descoberto o paradeiro de Bin Laden que se escondia em Abbottabad, cidade que fica a menos de 100 km de Islamabad, capital do país, ou coniventes com o terrorismo. Jamais saberemos a verdade. Entretanto, é preciso tomar cuidado para que as sociedades de hoje não estejam a cultivar novas bases sobre as quais se sustentarão ações que aterrorizarão as sociedades de amanhã (por Sílvio Benevides).

Imagem: AFP

domingo, 1 de maio de 2011

Poema Falado: Esperando os Bárbaros

De acordo com o dicionário, a palavra bárbaro se origina do latim barbàrus, que se refere a um estrangeiro, isto é, um indivíduo não identificado com os costumes do observador. Para os antigos gregos, bárbaros eram aqueles que pertenciam a outra raça ou civilização e falava outra língua que não a deles. No Império Romano, o termo adquiriu outro significado, passando a designar que ou quem é incivilizado, rude, grosseiro. Os chamados povos bárbaros, principalmente, os Hunos e os Germânicos, promoveram sucessivas invasões ao Império Romano do Oriente e do Ocidente o que, por sua vez, desencadeou mudanças irreversíveis no curso da história ocidental. Os bárbaros são assim, inquietos, rebeldes. E essa rebeldia é extremamente saudável, pois ela é o motor que impulsiona as mudanças. Ao longo da história humana existiram vários bárbaros. Nas décadas de 1960 e 1970 eles foram tão numerosos que por todo o mundo ajudaram a derrubar ditaduras políticas, regimes conservadores, costumes, práticas e idéias opressivas, pregaram a paz, oxigenaram o mundo e a vida em sociedade com seus ideais de liberdade e suas utopias maravilhosas. Hoje em dia, porém, o tilintar dos metais preciosos e seus valores perniciosos parecem ter silenciado as utopias. Onde foi parar a rebeldia? Por onde andam os bárbaros? O mundo precisa dos bárbaros como escreveu o poeta grego nascido em Alexandria, Konstantinos Kaváfis, que o Poema Falado deste mês homenageia. Diz ele: “Mas que esperamos nós aqui n'Ágora reunidos? / É que os bárbaros hoje vão chegar! / Mas porque reina no Senado tanta apatia? / Porque deixaram de fazer leis os nossos senadores? / É que os bárbaros hoje vão chegar. / Que leis hão-de fazer os senadores? / Os bárbaros que vêm, que as façam eles. // Mas porque tão cedo se ergueu hoje o nosso imperador, / E se sentou na magna porta da cidade à espera, / Oficial, no trono, co'a coroa na cabeça? / É que os bárbaros hoje vão chegar. / O nosso imperador espera receber / O chefe. E certamente preparou / Um pergaminho para lhe dar, onde / Inscreveu vários títulos e nomes. // Porque é que os nossos dois bons cônsules e os dois pretores / trouxeram hoje à rua as togas vermelhas bordadas? / E porque passeiam com pulseiras ricas de ametistas, / e porque trazem os anéis de esmeraldas refulgentes, / por que razão empunham hoje bastões preciosos / com tão finos ornatos de ouro e prata cravejados? / É que os bárbaros hoje vão chegar. / E tais coisas os deixam deslumbrados. // Por que não acorrem como sempre nossos ilustres oradores / a brindar-nos com o jorro feliz de sua eloqüência? / Porque hoje chegam os bárbaros / que odeiam a retórica e os longos discursos. // Por que de repente essa inquietude / e movimento? (Quanta Gravidade nos rostos!) / Por que esvazia a multidão ruas e praças / e sombria regressa a suas moradas? // Porque a noite cai e não chegam os bárbaros / e gente vinda da fronteira / afirma que já não há bárbaros. // E o que será agora de nós sem bárbaros? / Talvez eles fossem uma solução afinal de contas”. Boa áudio-leitua! (por Sílvio Benevides)




Imagem: Jason Momoa in Conan, the barbarian. Foto de Simon Varsano.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Epidemia do ódio: o extermínio de homossexuais no Brasil

A violência é um fenômeno social gerado por múltiplas causas, porque múltiplos são os tipos de violência. Para cada tipo, uma causa distinta. A violência resultante do narcotráfico, por exemplo, não pode ser considerada a mesma coisa que a violência no trânsito ou a violência doméstica, ou, ainda, a violência gerada pela homofobia. Gays, lésbicas, travestis e transexuais são freqüentemente assassinados no Brasil por conta do puro e simples ódio, explícito ou não, que vários segmentos da sociedade difundem e/ou praticam seja por meio de palavras, gestos ou omissão. Para aqueles e aquelas que pensam que tudo isso dito até aqui é um exagero ou que a aprovação do Projeto de Lei que visa criminalizar a homofobia (PLC 122/2006) é um atentado contra a liberdade de expressão, de expressão do ódio, vale ressaltar, sugiro ler o relatório anual divulgado pelo Grupo Gay da Bahia (GGB) sobre a violência praticada contra a população LGBTT brasileira. Os resultados do relatório nos mostram que a não aprovação de uma lei que coíba a homofobia é que se configura num verdadeiro atentado à liberdade de expressão, da livre expressão da sexualidade, o que, em última instância, se converte em um abominável atentado à própria democracia (por Sílvio Benevides).

260 homossexuais foram assassinados no Brasil em 2010 – O Grupo Gay da Bahia (GGB), que há três décadas coleta informações sobre homofobia em nosso país, denuncia a irresponsabilidade do governo Lula/Dilma em garantir a segurança da comunidade LGBT: a cada dia e meio um homossexual brasileiro é assassinado, vítima da homofobia. Nunca antes na história desse país foram assassinados e cometidos tantos crimes homofóbicos. Nos três primeiros meses de 2011 já foram documentados 65 homicídios contra homossexuais.

A Bahia pelo segundo ano consecutivo lidera essa lista macabra: 29 homicídios, seguida de Alagoas, com 24 mortes, Rio de Janeiro e São Paulo com 23 cada. Rio Grande do Norte e Roraima registraram apenas um assassinato cada. Se relacionarmos a população total dos estados com o número de LGBT assassinados, Alagoas repete a mesma tendência dos últimos anos: é o Estado que oferece maior risco de morte para os homossexuais, cujo número de vítimas ultrapassa o total de todos os estados juntos da região Norte do país. Maceió igualmente é a capital onde mais gays são assassinados: com menos de um milhão de habitantes, registrou 9 homocídios, contra 8 em Salvador (3 milhões) , 7 no Rio de Janeiro (6 milhões) e surpreendentemente, 3 mortes na cidade de São Paulo, com 10 milhões de habitantes.

O Nordeste confirma ser a região mais homofóbica: abriga 30% da população brasileira e registrou 43% dos LGBT assassinados. 27% destes crimes letais ocorreram no Sudeste, 9% no Sul, 10% no Centro-Oeste, 10% no Norte. O risco de um homossexual do Nordeste ser assassinado é aproximadamente 80% mais elevado do que no sul/sudeste! 36% destes homicídios foram cometidos nas capitais, 64% nas cidades do interior.

Quanto a idade, 7% das vítimas eram “menor de idade” ao serem assassinados, 14% com menos de 20 anos; 46% menos de 30 anos, 6% na terceira idade. A faixa etária que apresenta maior risco de assassinato situa-se entre 20-29 anos: 28%. A vítima mais nova tinha 14 anos: a travesti Érica, morta com 14 tiros no Centro de Maceió e o mais velho, Josué Amorim, 78 anos, aposentado, assassinado por três rapazes a golpes de facão em sua residência em União dos Palmares (AL).

43% dos homossexuais foram mortos a tiros, 27% com facas, 18% vítimas de espancamento ou pedrada e 17%, sufocados ou enforcados. Vários destes crimes revelam o ódio da homofobia, sendo praticados com requintes de crueldade, tortura, empalamento, castração. A travesti Mauri, de Montalvânia, MG, foi morta com 72 facadas! 90% das travestis foram mortas a tiros na rua, enquanto gays morrem dentro de casa. As vítimas pertenciam a mais de 60 profissões, demonstrando a crueldade da homofobia em todos os segmentos sociais, predominando profissionais do sexo, cabeleireiros, estudantes, profissionais liberais, incluindo diversos pais de santo e padres.

O Grupo Gay da Bahia (GGB) disponibiliza em seu SITE as tabelas em que se baseiam este relatório anual assim como o manual “Gay vivo não dorme com o inimigo” como estratégia para erradicar os crimes homofóbicos. O professor Luiz Mott, responsável por este levantamento, desabafa: “O aumento de 113% de assassinatos nos últimos cinco anos é genocídio! O Brasil tornou-se o epicentro mundial de crimes contra homossexuais. A Secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República não implementou em tempo hábil as deliberações do Programa Nacional de Direitos Humanos II, nem do Programa Brasil Sem Homofobia e da 1ª Conferencia Nacional GLBT. O GGBB está enviando denúncia contra o Governo Brasileiro junto à Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) da Organização dos Estados Americanos (OEA) e à Organização das Nações Unidas (ONU), pelo crime de prevaricação e lesa humanidade contra os homossexuais.” A própria Senadora Marta Suplicy tem repetido na mídia: “A situação dos homossexuais piorou no Brasil. Os assassinatos aumentaram!” O GGB reivindica como medida emergencial a divulgação de outdoors em todos os Estados com mensagens diretas alertando os homossexuais a evitarem situações de risco e estimulando a população respeitar as minorias sexuais.

Para o presidente do GGB, Marcelo Cerqueira, “há três soluções contra os crimes homofóbicos: ensinar à população a respeitar os direitos humanos dos homossexuais através de leis afirmativas da cidadania LGBT, exigir que a Polícia e Justiça punam com toda severidade a homofobia e sobretudo, que os próprios gays e travestis evitem situações de risco, não levando desconhecidos para casa, evitando transar com marginais.” Neste ano o GGB outorgou o troféu Pau de Sebo ao Deputado Jair Bolsonaro na condição de maior inimigo dos homossexuais, considerando que sua cruzada antigay estimula a prática de crimes homofóbicos.

Ao se questionar a presença da homofobia nos crimes contra homossexuais, o professor Luiz Mott contra argumenta: “quando se divulgam estatísticas de crimes contra mulheres, negros, índios não se questiona se foram ou não crimes motivados pelo ódio, sem falar na subnotificação dos “homocídios”. Nos crimes contra gays e travestis, mesmo quando há suspeita do envolvimento com drogas e prostituição, a vulnerabilidade dos homossexuais e a homofobia cultural e institucional justificam sua qualificação como crimes de ódio. É a homofobia que empurra as travestis para a prostituição e para a margens da sociedade. A certeza da impunidade e o estereótipo do gay como fraco, indefeso, estimulam a ação dos assassinos” (por Luiz Mott, Cláudio Almeida e Marcelo Cerqueira).





Imagem: Marcius Clapp