segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Será que o carnaval é para todos? Onde?

Disse que não iria falar do carnaval de vitrine e ganância que se transformou o carnaval de Salvador. Mas não resisti ao comentário de Papillon e resolvi dar-lhe mais destaque por concordar plenamente com suas palavras. Faço apenas um acréscimo: como se não bastasse o fato de o carnaval soteropolitano ser segregacionista, pois fez das cordas e camarotes um mecanismo muito eficiente de separação social, alerto para o fato de que toda a riqueza por ele gerada não se reverte em benefícios concretos para a cidade. Não conheço, por exemplo, nenhuma praça, rede de esgoto, escola, posto de saúde ou hospital ou qualquer outro serviço de interesse da coletividade recuperado ou construído com o dinheiro gerado pela festa, cuja organização recebe muitos incentivos oriundos dos cofres públicos. Reflitamos sobre isso também (por Sílvio Benevides).

O desabafo de Papillon

É mesmo impossível não falar do carnaval!! Afinal, estamos bombardeados por ele quase que 100% por dia. Mesmo distante das ruas alimentamos essa máquina de fazer dinheiro de alguma maneira. Temos carnaval nos canais de TV, nos jornais e mesmo aqui na internet. Mas como bem fez Silvio devemos e podemos mudar o discurso dessa festa como sendo apenas a festa da felicidade!! Vamos questionar essa felicidade? Para quem é o carnaval hoje? Por que é assim? Cadê o carnaval que era do povo? Quem é esse “todos” para qual o carnaval foi feito?

Eu concordo com Silvio sobre a segregação, mas acho que não devemos calar sobre o carnaval e sim alertar para essa segregação que ocorre no carnaval!! O que a TV mostra como Salvador a terra do carnaval democrático, nós soteropolitanos sabemos que a frase deve ser outra. Salvador virou a empresa do carnaval e aqui diverte-se quem paga mais. Você tem dinheiro? Então venha para o carnaval da Bahia!!

Nós soteropolitanos, saímos das ruas para abrir espaço para o turista que chega do Brasil e do mundo com seu dinheiro para pagar os blocos protegidos por uma corda humana!! Como assim cordas humanas? Cordas formadas por Homens e Mulheres, que na sua maioria são negros. O que eles fazem? Eles estão ali sendo explorados na sua força física, algo que lembra demais a situação dos escravos com seus senhores!! E por receberem o pouco dinheiro que recebem para fazer esse “trabalho”, muda a nomenclatura. Eles são agora conhecidos como “cordeiros” e, assim, não são escravos!??! Muito diferente, não acham? Sim, o que mesmo fazem os “ cordeiros”? Fazem essa corda humana para separar(segregar) os que estão dentro dos que estão fora dos blocos. Eles fazem isso por dinheiro, por sobrevivência e por essa sobrevivência são explorados ao máximo. Você já se perguntou quanto ganha um cordeiro por dia? E quanto ganha o cantor? E quanto ganha o empresário? Quanto se paga para sair no bloco protegido por “cordeiros”? Acho que você não vai gostar muito de saber. Bem, mas um cordeiro não ganha 1/3 de um salário mínimo para sair todos os dias puxando a corda do bloco protegendo as pessoas. E um bloco, a depender da fama da sua atração principal, cobra de seu associado para sair protegido por esse “cordeiro” 4 vezes o valor de um salário mínimo em alguns blocos. Você acha isso democrático? Mas, você pode pensar: mas quem não tem dinheiro vai para rua e se diverte também com as atrações e de graça! Engana-se!! Não é possível fazer isso com as cordas que tomam os espaços das ruas e para piorar a situação quem não gosta de fazer o percurso do blocos correndo atrás do trio protegido dentro das cordas tem a nova opção de segregação que são os camarotes que também cobram fortunas de quem deseja entrar e ficar assistindo protegido da violência. Isso é uma nova separação social!! Os camarotes lotados por quem tem dinheiro tomam conta das calçadas e com isso acaba o espaço da rua e da calçada para quem não tem dinheiro. Então como falar de um carnaval democraticamente correto? Tenta você ir na rua e depois me diz!!

Então como ficam os que não tem mais espaço nas ruas para fazer uma “pipoca” (pipoca são as pessoas que pulam feito pipoca, mas sem a proteção das cordas) animada? Ou seja, ou cedemos à pressão empresarial com sua segregação ou nos retiramos da cena e damos lucro às mídias televisivas ou os que gostam muito da festa se sacrificam para pagar um bloco ou camarote para curtir de alguma maneira a festa que se diz “popular”....Claro que para os corajosos ainda se acha um cantinho apertado para dar uma olhadinha , uma espiada em seu cantor favorito. Sendo que para isso se deve ter coragem porque a violência fica justamente para quem está fora das cordas e das proteções dos camarotes. Eu ontem arrisquei essa experiência da pipoca!! Bem, saí muito cedo de casa para uma pequena espiada! As ruas tomadas por camarotes, as cordas, apertos e a violência. Voltei para a segurança da casa e fui falar com amigos que como eu fizeram a mesma escolha. O carnaval não é para todos mesmo!!! (por Papillon)
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Imagem : Delmiro Júnior

sábado, 21 de fevereiro de 2009

O coração do mundo bate aqui?

Não! Não vou falar do carnaval de Salvador. Não vou falar de um carnaval que no discurso democraticamente correto prega a mistura, mas nas ruas o que se vê é a prática da segregação. São cordas para todos os lados. São camarotes à exaustão, de preços cada vez mais elevados, pois o que interessa é encher as burras de poucos e agradar quem traz dinheiro à mão. Não! Não me interessa esse carnaval de vitrine que oprime quem não pode ou não deseja pagar caro para se divertir ou simplesmente gozar a vida sem dar bola para a televisão. Quero meu carnaval de volta!
(por Sílvio Benevides)

Em clima de carnaval, Tobby entrevista um guru oriental, que faz incríveis previsões para o carnaval. É pra ver e se divertir, afinal, é tempo de sorrir!
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Imagem: logomarca oficial do carnaval de Salvador 2009

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Brasil amado

O Brasil, oficialmente nomeado República Federativa do Brasil, é uma nação formada pela união de 26 estados federados e pelo Distrito Federal. O país conta com mais de 5 mil municípios, cerca de 190 milhões de habitantes e uma área superior a 8 milhões de quilômetros quadrados, equivalente a 47% do território de toda a América do Sul. Em comparação com outros países, o Brasil dispõe do quinto maior contingente populacional e da quinta maior área territorial do planeta. Sua economia é a nona maior do mundo e a maior da América Latina. Há quem diga que por conta desses dados o Brasil tem hoje forte influência internacional, tanto em âmbito regional quanto global. O País possui cerca de 20% da biodiversidade mundial, sendo exemplo desta riqueza a Floresta Amazônica, com 3,6 milhões de quilômetros quadrados. Números impressionantes que despertam a cobiça de alguns e a outros estarrecem. Como pode um país como esse, detentor de tantas potencialidades, permitir que a miséria ainda faça parte do cotidiano de boa parte da sua população? No Brasil os números sempre impressionam, seja para mais ou para menos. Mas não é desse Brasil que desejo falar. Ao menos não nesse momento. Quero falar de um Brasil que me percorre por dentro, tornando fértil o chão que me sustenta. Brasil que eu amo, não porque seja minha pátria, como escreveu o Mário de Andrade, abaixo reproduzido, afinal “pátria é acaso de migrações e do pão-nosso onde Deus der”. Brasil que eu amo, pois como escreveu um outro poeta genuinamente brasileiro, o João Cabral de Melo Neto, desse chão sou bem conhecido através de parentes e amigos dos mais próximos aos mais longínquos. Porque a partir desse chão erigi-me feito uma palmeira que só enxerga o céu onde há mais estrelas. Esse chão que me espera de recém-nascido bebeu meu suor vendido e aquele vertido no “balanço das minhas cantigas, amores e danças”. É o Brasil dos becos, do pandeiro, das violas, minhas violas, do samba-de-roda, do samba-enredo, da capoeira de Angola, do maculelê, do sarapatel, do dendê, da caipora, do caruru, do curupira, do vatapá, da iara bonita, do boto cor-de-rosa, da Yemanjá, do cuzcuz com leite e ovos no café da manhã, do cantarolar das araras, do balanço das ondas, do barulho incessante das ruas, do aimpim com carne do sol, da lua cheia nas folias de reis, das fogeuiras e traques do São João, dos coqueiros de Itapuã, dos trios elétricos, da água de côco na Praia do Flamengo, da sorveteria da Ribeira, da doce batida do coração materno. É esse o Brasil que sou. É esse o Brasil que quero (por Sílvio Benevides).
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Baseado em trecho do texto de Mário de Andrade (reproduzido adiante), produzi o clipe abaixo, intitulado BRASILEIRINHO, para declarar meu amor pelo Brasil que sou.
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O POETA COME AMENDOIM
(Mário de Andrade)
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Noites pesadas de cheiros e calores amontoados...
Foi o sol que por todo o sítio do Brasil
Andou marcando de moreno os brasileiros.
Estou pensando nos tempos de antes de eu nascer...
A noite era pra descansar. As gargalhadas brancas dos mulatos...
Silêncio! O imperador medita os seus versinhos.
Os Caramurus conspiram à sombra das mangueiras ovais.
Só o murmurejo dos cre'm-deus-padre irmanava os homens de meu país...
Duma feita os canhamboras perceberam que não tinha mais escravos,
Por causa disso muita virgem-do-rosário se perdeu...
Porém o desastre verdadeiro foi embonecar esta República temporã.
A gente inda não sabia se governar...
Progredir, progredimos um tiquinho
Que o progresso também é uma fatalidade...
Será o que Nosso Senhor quiser!...
Estou com desejos de desastres...
Com desejo do Amazonas e dos ventos muriçocas
Se encostando na canjerana dos batentes...
Tenho desejos de violas e solidões sem sentido...
Tenho desejos de gemer e de morrer...
Brasil...
Mastigando na gostosura quente do amendoim...
Falado numa língua curumim
De palavras incertas num remelexo melado melancólico...
Saem lentas frescas trituradas pelos meus dentes bons...
Molham meus beiços que dão beijos alastrados
E depois semitoam sem malícia as rezas bem nascidas...
Brasil amado não porque sejam minha pátria,
Pátria é acaso de migrações e do pão-nosso onde Deus der...
Brasil que eu amo porque é o ritmo no meu braço aventuroso,
O gosto dos meus descansos,
O balanço das minhas cantigas amores e danças.
Brasil que eu sou porque é a minha expressão muito engraçada,
Porque é o meu sentimento pachorrento,Porque é o meu jeito de ganhar dinheiro, de comer e de dormir.
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Imagem: Papagaio, foto de Danilo Chequito

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Ictu oculi

Em visita a Salvador pela primeira vez, uma amazonense de Manaus nos relata o que seus olhos perceberam sobre a Cidade da Bahia e sua gente. O Salvador na sola do pé agradece a valorosa colaboração da Paula Barros, a amazonense em questão. Valeu, Paula!
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Minha visita à cidade de Salvador
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Salvador é uma cidade linda! Seis dias nessa terra e pude chegar a esta conclusão. Claro que para conhecer melhor tudo o que a cidade tem pra oferecer, precisaria de mais tempo. À primeira vista me encantei com as praias. Salvador possui o litoral mais extenso do Brasil, me informaram! Visitei apenas três delas. Além do mar, os recifes de corais me impressionaram e o que dizer das palmeiras (coqueiros)? Elas ornamentam a maioria das praias da cidade. Pude conhecer também um pouco de sua história, visitei o Pelourinho, esse me deixou encantada com suas ruas, casarões e igrejas cheias de histórias pra contar! Gostaria muito de ter voltado outra vez lá, mas não foi possível, fica então para uma próxima visita! As pessoas dessa terra também me impressionaram por sua alegria, os baianos sabem como ninguém fazer festa, e por sua beleza: mulheres, crianças e homens de cores lindas, maravilha de olhar! Salvador, como toda cidade grande possui problemas, mas nenhum tira o charme dessa cidade que me encantou e deixou uma vontade enorme de voltar novamente! (por Paula Barros)
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Imagem: Gina Carla

Para inteirar-se


Salvador não é uma ilha isolada do resto do mundo, sendo assim para que nos inteiremos dos assuntos que nos circundam e que também nos dizem respeito, o Salvador na sola do pé indica um blog muito legal. Estou a falar do Pa’k te enteres, cuja proposta é a mesma deste blog daqui, isto é, fazer pensar, fazer refletir. Boa Leitura.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Dia de festa no mar

Como nos lembra o Dorival Caymmi dia dois de fevereiro é dia de festa no mar porque é o dia de reverenciar a mãe de todos os orixás, a senhora do mundo, Yemanjá!

A adoração a Yemanjá, como também aos demais orixás, foi trazida para o Brasil pelos negros africanos que aqui aportaram para trabalhar como escravos nas lavouras de cana-de-açúcar. Na África, de acordo com Pierre Verger (Orixás. São Paulo: Corrupio, 1981), o culto à mãe dos orixás se concentrava na região entre Ifé e Ibadan, banhada pelo rio Yemanjá, território do povo Egbá, uma nação Yorubá. Sucessivas guerras entre nações Yorubás forçaram o povo Egbá a migrar rumo ao oeste, em direção a Abeokutá, onde passaram a reverenciar Yemanjá no rio Ogum, cujo nome não deve ser confundido com o nome do orixá ferreiro, senhor dos metais. Em terrras brasileiras o culto a Yemanjá se voltou para os mares. É para as águas salgadas do Atlântico que os devotos daqui se dirigem quando desejam se unir e exaltar a generosa senhora.

Na soteropólis as homenagens a Yemanjá ocorrem no bairro do Rio Vermelho, onde uma multidão de fiéis (e não fiéis também) se dirige com o intuito de pedir benção, proteção e favores, assim como para render reverências e louvores à digníssima dama dos oceanos. A festa de Yemanjá em Salvador é genuinamente africana. Nela não ocorrem cruzamentos entre elementos de diferentes tradições mítico-religiosas, como nas demais festas populares da cidade. Entretanto, isso não impede que devotos das mais variadas crenças se misturem no dia dos festejos, afinal eles acontecem na Bahia e os baianos, no geral, não se prendem a rigorosos rigores do tipo ou isto ou aquilo simplesmente. No dia dois de fevereiro muitos baianos se dirigem à praia do Rio Vermelho para saudar Yemanjá seja com um grande balaio repleto de magníficos presentes, seja com uma pequena flor. O que importa mesmo é a intenção do louvor, isto é, ser feliz. Odô Iyá, Yemanjá! (por Sílvio Benevides)
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Ao dois de fevereiro
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O vídeo abaixo foi produzido por Coccinelle especialmente para o Salvador na sola do pé em homenagem ao dia 02 de fevereiro, dia de festa no mar, dia de Yemanjá!
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Foto: Sílvio Benevides

segunda-feira, 26 de janeiro de 2009

E por falar em Obama...

Na semana passada o tema que dominou os noticiários foi a tão inexplicavelmente esperada posse do presidente estadunidense Barack Obama. Digo inexplicavelmente porque, na boa, não consigo entender todo o estardalhaço que se criou em torno dele. Até parece que ele é o super-homem (espero que não seja vulnerável a Kriptonita). Conheço gente que não marcou ou desmarcou compromissos na terça-feira, dia 20 de janeiro, só para ficar em casa assistindo pela TV a cerimônia de posse. E o verão rolando solto na capital da Bahia, como também os assaltos a coletivos, a dengue e os assassinatos de jovens nas periferias de Salvador. Dá pra entender?

Muito foi falado, comentado, debatido, discutido e especulado sobre o Osama, digo Obama, e sua futura gestão. Para mim, o Barack Obama representa apenas o tão esperado fim da famigerada era Bush (pé de pato, mangalô três vezes) e a ascensão de um povo que chegou aos Estados Unidos, e em tantos outros lugares das Américas, para trabalhar como escravo, sendo vítima de todo tipo de violência e humilhação, e hoje passa a ocupar o poder máximo da nação mais poderosa do planeta. É como se a vitória do Obama quisesse dizer: Racistas tremei! De hoje em diante vocês vão ter de engolir seu racismo estúpido! Isso é mais que ótimo. É simplesmente divino, maravilhoso. No mais, nada mais espero.

Dentre as inúmeras manchetes publicadas sobre o Barack Obama a que mais me chamou a atenção foi a da revista Época. Podia-se ler na capa: o mito e a realidade. Ora, fiquei a pensar por que opor mito e realidade? Se pensarmos direitinho, por vezes o mito é tão ou mais real que a própria realidade e esta, por sua vez, pode ser uma grande criação e/ou narração mítica (midiática, talvez, considerando os avanços tecnológicos dos nossos tempos). O fato é que mito e realidade se interpenetram. Não dá para dizer com precisão onde começa um e termina o outro. Imagino que a atual crise econômica e financeira que vem assolando os mercados mundiais tenha um pouco dessa característica. Crise há, sempre houve e haverá. Nenhum sistema econômico está imune às crises. A coisa é séria? Não duvido. O que eu questiono não é a gravidade do fato. Tampouco sua existência. Questiono sua origem. A origem dessa crise não é econômica. A origem dela é moral. A tirinha Calvin e Haroldo, do Bill Watterson, abaixo reproduzida, pode muito bem ilustrar a crise moral (que gerou a famigerada crise econômica) que o mundo e o capitalismo enfrenta atualmente. PARA LER CLIQUE NA IMAGEM.

E então? A crise é econômica ou moral? E quanto à era Obama? Ela, de fato, representa o início de uma nova moral? É esperar pra ver. A História não costuma ser condescendente com quem quer que seja. Esperemos, pois (por Sílvio Benevides).

Imagens: Caricatura de Barack Obama, autoria do Greg Halbert. Calvin e Haroldo, criação do Bill Watterson.

Informes culturais – divulgação

LANÇAMENTO DO LIVRO DE JUSSILENE SANTANA
SOBRE TEATRO E JORNALISMO NA BAHIA

No dia 05 de fevereiro, 17h, na Livraria LDM (Praça da Piedade), a atriz e jornalista baiana Jussilene Santana lançará o livro Impressões Modernas – Teatro e Jornalismo na Bahia, pela editora Vento Leste.

A obra, fruto da pesquisa de mestrado de sua autora, analisa a formação do teatro como temática na imprensa baiana em meados do século XX, nos jornais A Tarde e Diário de Notícias, e investiga as mudanças que ocorreram tanto no exercício do teatro, quanto na cobertura jornalística. O livro reúne informações jamais analisadas sobre o teatro baiano. Vale destacar, entre elas, a complexa compreensão do papel do primeiro diretor da Escola de Teatro da Ufba, Martim Gonçalves, para as artes cênicas. Além disso, traz reflexões sobre: a relação complexa e dinâmica entre a cena teatral na Bahia e sua cobertura; a configuração do espaço cênico no jornalismo baiano; as repercussões do modernismo teatral no estado e no país; as inovações editoriais ocorridas à época; a percepção de questões do teatro em moldes modernos e o surgimento de vozes/fontes que as representem na imprensa.

Para a realização deste trabalho, a autora resgatou e digitalizou mais de duas mil fotos e matérias jornalísticas sobre teatro, publicadas entre os anos de 1956 e 1961, trazendo à tona inestimável acervo que contribui de modo preponderante para a escrita da história cultural brasileira. O livro publica uma seleção de 27 imagens deste acervo. Nos periódicos estudados, textos, entre outros, de Walter da Silveira, Paulo Francis e Glauber Rocha (que, ao lado do jornalismo, se desdobra na direção dos primeiros filmes do Cinema Novo).

Na pesquisa que dá base ao livro Jussilene Santana ainda entrevistou inúmeros artistas e jornalistas que fizeram a cultura baiana no período, a exemplo dos atores Sonia Robatto, Yumara Rodrigues, Maria Silva, Wilson Mello, Manoel Lopes Pontes, Mario Gadelha, Roberto Assis, Harildo Déda e do jornalista Florisvaldo Mattos. Alguns deles em seus últimos depoimentos, como Nilda Spencer, Carlos Petrovich e Álvaro Guimarães, já falecidos. Vale a pena dar uma espiada nesse lançamento porque Jussilene Santana é simplesmente sinônimo de qualidade e competência em todo trabalho que realiza. Quem já a viu atuando nos palcos baianos sabe muito bem do que eu estou a falar.

segunda-feira, 19 de janeiro de 2009

A nova UFBA?

A proposta do Salvador na sola do pé é fazer o leitor refletir sobre a realidade ao nosso redor. No que tange ao ensino superior, em 2008 foi implementado pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) o projeto Universidade Nova. Se o que foi implementado é de fato novo, deixemos que a história julgue. Mas não é isso que vem ao caso no momento. Para criticar a chamada Universidade Nova é necessário conhecer suas propostas. Por essa razão, reproduzo abaixo a saudação de Ano Novo do Reitor da UFBA, Prof. Naomar Almeida Filho. Façamos uma reflexão a partir de suas palavras. Se a Universidade Nova é nova, de fato, ainda não é possível saber. Porém, que ela precisa ser nova, não resta a menor dúvida.

AOS COMPANHEIROS DA UFBA

A partir de um fato relevante, compartilhamos com vocês algumas reflexões sobre o que pode significar, para a nossa UFBA, o ano que há pouco se encerrou.

Em 2008, a Bahia recebeu a visita de alguns importantes intelectuais contemporâneos. Boaventura Sousa Santos, o celebrado sociólogo português; Alain Coulon, pioneiro dos estudos sobre reforma universitária na França; Angela Davis, militante e intelectual feminista norte-americana; Edgard Morin, filósofo da complexidade; Michel Maffesoli, crítico da pós-modernidade; Antonio Negri, cientista político autor de Império e Multidão. Tivemos a honra de recebê-los, em momentos distintos, na Reitoria da UFBA. Todos muito simpáticos e respeitosos.

Com motivações diversas, estavam interessados em conhecer o projeto Universidade Nova, movimento de renovação da educação superior brasileira que começou na Bahia. Foram informados que o projeto ganhou esse nome por reverência a movimentos de ruptura com o estabelecido, também iniciados por baianos, principalmente a Escola Nova de Anísio Teixeira, bem como Música Nova (Ernst Widmer), Cinema Novo (Glauber Rocha), Bossa Nova (João Gilberto), Geografia Nova (Milton Santos). E que, com apoio do governo federal, da comunidade universitária e da sociedade baiana, temos superado obstáculos e resistências de conservadores de toda ordem. Conversamos, sobretudo, sobre como realizamos duas fases importantes de implantação do projeto.

Na primeira fase, mesmo sem ter uma idéia clara da viabilidade política da proposta nem dos seus desdobramentos posteriores, lutamos para abrir as portas da instituição aos dela excluídos por décadas de elitismo e alienação. Para tanto, implantamos um programa de ações afirmativas que serviu de modelo para o projeto de lei que hoje tramita, em fase conclusiva, no Congresso Nacional. O sucesso do programa, que incluiu um regime de cotas para alunos de escola pública, com recorte étnico-racial, permitiu mudar o perfil do alunado da UFBA. Há cinco anos, 70 % dos estudantes da UFBA tinham concluído o ensino médio em escolas particulares; hoje, mais da metade são provenientes de escolas públicas. Não houve aumento de evasão nem queda da qualidade do ensino. Assim, por um lado, recuperamos algo da missão social da universidade, mas, por outro lado, assumimos enorme desafio: como efetivamente renovar a instituição educadora de modo a não nos tornarmos meros cooptadores de segmentos sociais antes marginalizados?

Na segunda fase, dedicamo-nos a ampliar oferta de vagas e reestruturar a arquitetura curricular da universidade, com vistas a implantar um sistema de ciclos, inicialmente articulados à formação convencional. O primeiro ciclo compreende uma modalidade nova de graduação, denominada Bacharelado Interdisciplinar, com formação geral em artes, humanidades, saúde e ciência & tecnologia. O segundo ciclo inclui cursos de formação profissional, aproveitando a formação específica do primeiro ciclo. O terceiro ciclo complementa a formação acadêmica e profissional com mestrados e doutorados integrados. Este ano, aumentamos a oferta de vagas no vestibular como nunca: de 4.200 para quase 7.000 vagas. Em 2008, realizamos concursos para 200 novos professores; em 2009, serão 300 concursos. Para viabilizar a recepção dos quase mil alunos de bacharelados interdisciplinares, inauguramos uma nova unidade acadêmica, o Instituto de Humanidades, Artes e Ciências Professor Milton Santos.

Fizemos ver aos visitantes que, de modos distintos, muito devíamos a cada um deles. Do ponto de vista epistemológico, a ênfase na interdisciplinaridade em nosso projeto revela clara inspiração na obra de Morin e Boaventura. A renovação nos processos formativos recupera Anísio Teixeira e Paulo Freire, incorporando perspectivas pós-culturalistas como as de Coulon e Maffesoli. A construção de rupturas políticas inevitáveis na construção do novo em cenários conservadores encontra respaldo nas análises críticas de Angela Davis e Negri.

Mas também confirmamos que precisávamos do apoio intelectual que eles representam para ousarmos entrar na fase 3, crucial para garantir sustentabilidade à renovação institucional. Esta fase implica enfrentar o desafio de tornar a instituição universitária um efetivo vetor de transformação social. Não basta crescer territorialmente acessível, socialmente inclusiva e pedagogicamente renovada. A maneira mais respeitosa de trazer a universidade para perto do povo é fazendo muito bem o que ela de fato sabe fazer. A universidade pública brasileira poderá colaborar para um projeto de nação quando se revelar academicamente competente e intelectualmente responsável podendo, dessa forma, internacionalizar-se com soberania.

Nesses termos, convidamos os ilustres intelectuais a compor um conselho consultivo internacional do projeto Universidade Nova, destinado a avaliar nossos progressos com rigor crítico e orientar-nos na ousadia da fase 3. Todos aceitaram, com tanto entusiasmo que ficamos intrigados. Morin e Coulon nos explicaram simplesmente, com sincera humildade, que esperam aprender com nossa experiência. Boaventura descreveu os nossos BIs como precursores de uma nova “ecologia dos saberes”.

Talvez quem nos permita melhor entender o significado de tão inesperado e comovente engajamento, mostrando porque a renovação da universidade é uma pauta política por eles valorizada e compartilhada, é Antonio Negri: “Estou convencido que é fundamental tentar sempre novas aberturas, como se aliar a setores da produtivos, como a indústria, diante do que é o parasitismo do sistema financeiro. Só que hoje existe uma outra abertura que precisa existir: a abertura às forças do conhecimento. Não podemos subestimar as forças do conhecimento. Esse é um fato estratégico do desenvolvimento econômico mundial. Pode parecer realista demais, mas não é. Ao contrário, é alta a necessidade de articular projetos sociais com a produção intelectual. O que está acontecendo no século pós-socialista: o trabalho está ficando cada vez menos industrial. Os capitalistas, através das técnicas neoliberais, mobilizaram socialmente a produção. Colocaram a sociedade no trabalho. E são os intelectuais que dão valor à produção. Impõem a possibilidade de mudanças industriais, formam novas elites. O trabalho intelectual é um elemento fundamental que não exclui o capitalismo (por isto que o poder neoliberal se articula). Então é necessário se abrir à força do conhecimento para compor uma novo acúmulo de forças, para produzir novas resistências. Entrar nesse terreno é produzir uma ética do comum. Muitos amigos me indagam dizendo: 'Nossa, mas você não vê quanto miséria tem aqui do seu lado'. É um discurso que dá entender que o trabalho imaterial é algo utópico frente à realidade de miséria. Mas é o contrário. Só esse setor (o intelectual) renova a sociedade e expulsa essa miséria. Não adianta: a aliança com a indústria não vai fazer voltar o pleno emprego. Agora para produzir trabalho intelectual, imaterial, é preciso ser livre. Por isto que o capitalismo bota limite à liberdade hoje, coloca a não-expressão. E a liberdade do trabalho intelectual pode vencer o capitalismo. É necessário organizar o precariado, que são todas as pessoas que trabalham fora da relação salarial, como os trabalhadores dos serviços, dos serviços industriais, os imigrantes, os informáticos etc. Essas são massas que estão se tornando as maiorias. Não é à toa que na França foram às ruas contra os sindicatos. É porque o sindicato ainda sustenta que o emprego é a única solução. E o precariado produz fora da relação salarial, produz na circulação social. Por isso que projetos como a renda universal e a política de cotas se tornam centrais: não é um prêmio, é a base para mobilizar toda a sociedade” (A riqueza dos pobres. Conferência de Nova Iguaçu, em23/10/2005. Disponível em: http://fabiomalini.wordpress.com/2005/10/23/esquerda-abra-se-ao-precariado/).

Precisamos refletir sobre tudo o que aconteceu nesse ano de 2008, quatro décadas da revolução universitária do Maio de 68, duas décadas da Constituição de 88, bicentenário da UFBA, ano 1 da Universidade Nova. Pensemos sobre o significado deste projeto, que vem sendo construído com inédito grau de consenso e motivação da nossa comunidade acadêmica, culminando com as honrosas visitas registradas neste texto. Será que o interesse, engajamento e vínculo desses prestigiosos intelectuais são sinais de que temos, a partir da universidade, de novo, uma avant-garde na Bahia? Em 1958, nossa universidade teria representado uma vanguarda cultural e artística, rompendo as fronteira da velha província, conforme o registro riseriano. Começando em 2008, a renovação da universidade pode significar uma superação dessa metáfora militar e elitista, nos seus dois sentidos, tanto da noção leninista de vanguarda política de umproletariado mítico quanto de uma nostálgica avant-garde erudita, mas colonizada.

Em suma, a maior contribuição que a UFBA (e qualquer universidade) pode dar ao projeto de transformação política da sociedade brasileira, tornando-a mais justa, humana e solidária, será afirmar-se como uma excelente universidade.

Com votos de Feliz Ano Novo, pleno de realizações, paz e saúde, apresentamos nossas saudações universitárias.
Naomar de Almeida Filho, Reitor da Universidade Federal da Bahia.
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Imagem: Brasão da Universidade Federal da Bahia

segunda-feira, 12 de janeiro de 2009

Quem é vivo sempre aparece. E quem é morto?

Você se lembra de mim? Eu nunca vi você tão só. Oh, meu amor. Oh, meu xodó, minha Bahia. ACM, meu amor, quem gosta da Bahia quer”. Acordei hoje com esse antigo jingle de uma das campanhas do Antônio Carlos Magalhães na mente. O curioso é que depois de muito matutar, não conseguia entender a razão de esta música estar a ressoar na minha cabeça insistentemente. Não era uma canção lindamente cantada pela Elis Regina, Maria Bethânia, Gal Costa, Marisa Monte, Adriana Calcanhoto, Fernanda Takai ou pelo Ney Matogrosso ou Orlando Silva. Era um jingle enaltecendo o ACM. Estaria eu sendo acometido por uma espécie de surto com alto potencial de destruição da saúde mental? Preocupei-me. Pensei em ligar para uma amiga psicóloga quando me ocorreu um estalo. Eureka!

Não estava a acontecer comigo nenhum fenômeno de natureza patológica. Tratava-se, isto sim, de algo semelhante ao que a psicologia denomina de restos diurnos no caso da formação dos sonhos. Por vezes, nossos sonhos resultam de experiências sonoras, visuais, olfativas, entre outras, que vivenciamos durante o dia e, de alguma maneira, tais experiências aparecem nos nossos sonhos ao longo da noite. No meu caso especificamente não se tratavam de restos diurnos, mas sim noturnos. Explico.

Na noite anterior eu havia assistido na TV ao filme O retorno da Múmia (The Mummy returns, 2001), dirigido por Stephen Sommers, com o Brendan Fraser no papel do destemido herói Rick O’Connor. Não é um dos melhores filmes que já vi. Sequer é melhor que o anterior A Múmia (The Mummy, 1999), do mesmo diretor. Mas é um bom filme para curtir num final de domingo durante as férias. Só não imaginava que ao longo do dia seguinte ele me impressionaria a ponto de me fazer temer o retorno de múmias malvadas ao mundo dos vivos. Temo que algumas múmias retornem para aterrorizar nossa paz, especialmente a paz de nós baianos. Estou a falar, precisamente, daquele cujo nome não deveríamos pronunciar. Tenho medo, muito medo, do retorno do ACM. Pronto, disse. Seja o que Deus quiser. Mas que bobagem! Do que estou a falar?! Quanta sandice! Se, por acaso, isso de fato acontecer, a gente chama o Rick O’Connor para nos socorrer. E viva ao Senhor do Bonfim! (por Sílvio Benevides)
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Imagem: desenho do cartaz de divulgação do filme O retorno da Múmia