quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Cachoeira mais uma vez em cena com o II CachoeiraDoc

Entre os dias 07 e 11 de dezembro de 2011 acontecerá no Centro de Artes, Humanidades e Letras (CAHL), da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), na histórica cidade de Cachoeira, o II CachoeiraDoc – Festival de Documentários de Cachoeira. Na origem do CachoeiraDoc está o desejo de provocar um deslocamento nas rotas tradicionais dos documentários brasileiros para fazê-los chegar a Cachoeira, contribuindo, ao mesmo tempo, para fortalecer esta cidade como um espaço de produção de imagens e sons articulado com o mundo. No ano passado, quando a primeira edição do festival inaugurou esse movimento e fez circular por aqui documentários de muitos tempos e lugares, tivemos a certeza de sua força. Há algo de muito especial que se produz num lugar de encontro em que se cruzam filmes e pessoas, reunidas pela vontade de cinema, pela vontade de acessar (outros) mundos pelo cinema. E é por acreditarmos na potência dessa partilha, que começa na sala escura e se estende pelas ruas em cortejos de conversas animadas, que temos a alegria de apresentar o II CachoeiraDoc.

Escolhemos começar esta edição com um ato de memória e uma celebração do centenário de um dos grandes homens da história do país. Na sessão de abertura, Marighella, filme de Isa Grispum Ferraz, será exibido na praça. Embalado pela presença – afetiva e política – da família Marighella, o documentário projetará na cidade, entre casas e gente, seu gesto necessário de escritura da história.

E se o documentário povoa as praças da memória, ele também nos leva às praias dos afetos, da política dos afetos. Como sopros de brisa, uma pequena mas preciosa coleção de filmes de Agnès Varda, uma das mais inventivas documentaristas da história do cinema, atravessará o festival. A Mostra Documentários Experimentais reunirá filmes de realizadores brasileiros que compuseram também experiências documentais desafiadoras, articulando vida e invenção e aproximando o documentário das artes visuais. Esse diálogo será ainda festejado no encerramento do CachoeiraDoc com uma intervenção artística em que o movimento siderante das ruas da Moscou de Vertov vai transmutar os muros de Cachoeira.

Como um dos nossos desejos é contribuir para promover o encontro dos documentários com as pessoas, programamos uma sessão especial de Bahêa, minha vida, documentário baiano sobre o time de futebol que mobiliza paixões, inédito em Cachoeira, onde ainda não há sala de cinema.

Na nossa muito jovem trajetória, já temos alguns motivos para celebrar, e um dos mais importantes deles é o conjunto de filmes que recebemos de realizadores do Brasil inteiro, renovando a convicção fundadora de que há uma grande e rigorosa produção de documentários no país, e de que ela precisa ser vista. A Mostra Competitiva Nacional e, no âmbito local, a Mostra Competitiva Bahia constituem uma seleção que demonstra as múltiplas formas através das quais os realizadores brasileiros têm enfrentado os desafios do real. Não percam! (por Amaranta Cesar)



Imagem: Cartaz de divulgação

Dia mundial de combate a SIDA/AIDS: a doença no Brasil

Desde o início da epidemia, em 1980, até junho de 2011, O Brasil tem 608.230 casos registrados de AIDS (condição em que a doença já se manifestou), de acordo com o último Boletim Epidemiológico. Em 2010, foram notificados 34.218 casos da doença e a taxa de incidência de aids no Brasil foi de 17,9 casos por 100 mil habitantes.

Observando-se a epidemia por região em um período de 10 anos, 2000 a 2010, a taxa de incidência caiu no Sudeste de 24,5 para 17,6 casos por 100 mil habitantes. Nas outras regiões, cresceu: 27,1 para 28,8 no Sul; 7,0 para 20,6 no Norte; 13,9 para 15,7 no Centro-Oeste; e 7,1 para 12,6 no Nordeste. Vale lembrar que o maior número de casos acumulados está concentrado na região Sudeste (56%).

Atualmente, ainda há mais casos da doença entre os homens do que entre as mulheres, mas essa diferença vem diminuindo ao longo dos anos. Esse aumento proporcional do número de casos de aids entre mulheres pode ser observado pela razão de sexos (número de casos em homens dividido pelo número de casos em mulheres). Em 1989, a razão de sexos era de cerca de 6 casos de AIDS no sexo masculino para cada 1 caso no sexo feminino. Em 2010, chegou a 1,7 caso em homens para cada 1 em mulheres.

A faixa etária em que a aids é mais incidente, em ambos os sexos, é a de 25 a 49 anos de idade. Chama atenção a análise da razão de sexos em jovens de 13 a 19 anos. Essa é a única faixa etária em que o número de casos de aids é maior entre as mulheres. A inversão apresenta-se desde 1998. Em relação aos jovens, os dados apontam que, embora eles tenham elevado conhecimento sobre prevenção da aids e outras doenças sexualmente transmissíveis, há tendência de crescimento do HIV.

Quanto à forma de transmissão entre os maiores de 13 anos de idade, prevalece a sexual. Nas mulheres, 83,1% dos casos registrados em 2010 decorreram de relações heterossexuais com pessoas infectadas pelo HIV. Entre os homens, 42,4% dos casos se deram por relações heterossexuais, 22% por relações homossexuais e 7,7% por bissexuais. O restante ocorreu por transmissão sanguínea e vertical.

Apesar de o número de casos no sexo masculino ainda ser maior entre heterossexuais, a epidemia no país é concentrada. Ao longo dos últimos 12 anos, a porcentagem de casos na população de 15 a 24 anos caiu. Já entre os gays a mesma faixa houve aumento de 10,1% entre os gays da mesma faixa. Em 2010, para cada 16 homossexuais dessa faixa etária vivendo com AIDS, havia 10 heterossexuais. Essa relação, em 1998, era de 12 para 10.

Em números absolutos, é possível ver como a redução de casos de AIDS em menores de cinco anos é expressiva: passou de 863 casos, em 2000, para 482, no ano passado. Comparando-se os anos de 2000 e 2010, a redução chegou a 55%. O resultado confirma a eficácia da política de redução da transmissão vertical do HIV (da mãe para o bebê).

Quando todas as medidas preventivas são adotadas, a chance de transmissão vertical cai para menos de 1%. Às gestantes, o Ministério da Saúde recomenda o uso de medicamentos antirretrovirais durante o período de gravidez e no trabalho de parto, além de realização de cesárea para as mulheres que têm carga viral elevada ou desconhecida. Para o recém-nascido, a determinação é de substituição do aleitamento materno por fórmula infantil (leite em pó) e uso de antirretrovirais.

Atento a essa realidade, o governo brasileiro tem desenvolvido e fortalecido diversas ações para que a prevenção se torne um hábito na vida dos jovens. A distribuição de preservativos no país, por exemplo, cresceu mais de 60% entre 2005 e 2010 (de 202 milhões para 327 milhões de unidades). Os jovens são os que mais retiram preservativos no Sistema Único de Saúde (37%) e os que se previnem mais. Modelo matemático, calculado a partir dos dados da PCAP de 2008, mostra que quanto maior o acesso à camisinha no SUS, maior o uso do insumo. A PCAP é a Pesquisa de Conhecimentos, Atitudes e Práticas relacionada às DST e AIDS da População Brasileira de 15 a 64 anos de idade.

Em relação à taxa de mortalidade, o Boletim também sinaliza queda. Em 12 anos, a taxa de incidência baixou de 7,6 para 6,3 a cada 100 mil pessoas. A queda foi de 17%.

Questões de vulnerabilidade – O levantamento feito entre jovens, realizado com mais de 35 mil meninos de 17 a 20 anos de idade, indica que, em cinco anos, a prevalência do HIV nessa população passou de 0,09% para 0,12%. O estudo também revela que quanto menor a escolaridade, maior o percentual de infectados pelo vírus da AIDS (prevalência de 0,17% entre os meninos com ensino fundamental incompleto e 0,10% entre os que têm ensino fundamental completo).

O resultado positivo para o HIV está relacionado, principalmente, ao número de parcerias (quanto mais parceiros, maior a vulnerabilidade), à coinfecção com outras doenças sexualmente transmissíveis e às relações homossexuais. O estudo é representativo da população masculina brasileira nessa faixa etária e revela um retrato das novas infecções. Veja também o Boletim Epidemiológico 2011 (Fonte: Departamento de DST, AIDS e Hepatites Virais do Ministério da Saúde do Brasil).

Na maioria das vezes o preconceito surge por falta de informação. A AIDS pode afetar a qualquer um, tem tratamento e o apoio da família e dos amigos é essencial. Deixe o preconceito de lado, sem ele, mais pessoas se previnem.




Imagem: GUGDesign

Por que usar a camisinha?

A camisinha é o método mais eficaz para se prevenir contra muitas doenças sexualmente transmissíveis, como a aids, alguns tipos de hepatites e a sífilis, por exemplo. Além disso, evita uma gravidez não planejada. Por isso, use camisinha sempre.

Mas o preservativo não deve ser uma opção somente para quem não se infectou com o HIV. Além de evitar a transmissão de outras doenças, que podem prejudicar ainda mais o sistema imunológico, previne contra a reinfecção pelo vírus causador da aids, o que pode agravar ainda mais a saúde da pessoa.

Guardar e manusear a camisinha é muito fácil. Treine antes, assim você não erra na hora. Nas preliminares, colocar a camisinha no(a) parceiro(a) pode se tornar um momento prazeroso. Só é preciso seguir o modo correto de uso. Mas atenção: nunca use duas camisinhas ao mesmo tempo. Aí sim, ela pode se romper ou estourar.

A camisinha é impermeável – A impermeabilidade é um dos fatores que mais preocupam as pessoas. Pesquisadores dos Institutos Nacionais de Saúde dos Estados Unidos esticaram e ampliaram 2 mil vezes o látex do preservativo masculino (utilizando-se de microscópio eletrônico) e não foi encontrado nenhum poro. Em outro estudo, foram examinadas as 40 marcas de camisinha mais utilizadas em todo o mundo. A borracha foi ampliada 30 mil vezes (nível de ampliação que possibilita a visão do HIV) e nenhum exemplar apresentou poros.

Em 1992, cientistas usaram microesferas semelhantes ao HIV em concentração 100 vezes maior que a quantidade encontrada no sêmen. Os resultados demonstraram que, mesmo nos casos em que a resistência dos preservativos mostrou-se menor, os vazamentos foram inferiores a 0,01% do volume total. Ou seja, mesmo nas piores condições, os preservativos oferecem 10 mil vezes mais proteção contra o vírus da aids do que a sua não utilização.

Onde pegar – O preservativo masculino é distribuído gratuitamente em toda a rede pública de saúde. Caso não saiba onde retirar, ligue para o Disque Saúde (0800 61 1997). Também é possível pegar camisinha em algumas escolas parceiras do projeto Saúde e Prevenção nas Escolas.

Você sabia... Que o preservativo começou a ser distribuído pelo Ministério da Saúde em 1994?

Como é feita a distribuição – A compra da maior parte de preservativos e géis lubrificantes disponíveis é feita pelo Ministério da Saúde. Aos governos estaduais e municipais cabe a compra e distribuição de, no mínimo, 10% do total de preservativos nas regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste e de 20% nas regiões Sudeste e Sul. Veja a distribuição nos estados.

Após a aquisição, os chamados insumos de prevenção saem do Almoxarifado Central do Ministério da Saúde, do Almoxarifado Auxiliar de São Paulo e da Fábrica de Preservativos Natex e seguem para os almoxarifados centrais dos estados e das capitais (Fonte: Departamento de DST, AIDS e Hepatites Virais do Ministério da Saúde do Brasil).





Imagem: Kazuo Okubo

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Samba de roda, patrimônio da humanidade

No último dia 25 de novembro, comemorou-se o dia internacional do samba de roda. Mais que uma manifestação cultural baiana, o samba de roda é uma expressão musical, coreográfica, poética e festiva das mais importantes e significantes da cultura brasileira. Presente em todo Estado da Bahia, ele é especialmente forte, e em todo caso melhor conhecido, na região do Recôncavo, a faixa de terra que se estende atrás da Baía de Todos os Santos. Seus primeiros registros, já com o nome e com muitas das características que ainda hoje o identificam, datam dos anos 1860.

Desde estes registros já se testemunhavam a ligação do samba de roda às tradições culturais transmitidas por africanos escravizados e seus descendentes. Tais tradições incluem, entre outros, o culto aos orixás e caboclos, o jogo de capoeira e a chamada “comida de azeite”. A herança negro-africana no samba de roda se mesclou de maneira singular a traços culturais trazidos pelos portugueses, como instrumentos musicais (viola e pandeiro, principalmente) e a própria língua portuguesa com elementos de suas formas poéticas. Esta mescla, assim como outras mais recentes, não exclui o fato de que o samba de roda continua a ser um patrimônio definido, sobretudo, por afro-descendentes, que se reconhecem como tais.

O samba de roda pode ser realizado em associação com o calendário festivo, caso, entre outros, dos sambas de roda de São Cosme e Damião (setembro), do samba da Boa Morte em Cachoeira (agosto) e de sambas em “toques” para caboclos em terreiros de candomblé. Mas pode, também, ser realizado a qualquer momento como uma diversão coletiva pelo prazer de sambar. Possui inúmeras variantes que podem, grosso modo, ser divididas em dois tipos principais: O “samba chula” (mais típico na região de Santo Amaro e, cujo similar, na região de Cachoeira chama-se de “barra-vento”) e o “samba corrido”. No primeiro ninguém samba enquanto os cantores principais estão “tirando” ou “gritando” a “chula”, nome dado a parte poética desse tipo de samba. A chula é seguida pelo “relativo”, resposta coral cantada, sobretudo, pelas mulheres. Quando termina a parte cantada, samba só uma pessoa de cada vez no meio da roda e apenas ao som dos instrumentos e das palmas, com destaque para o ponteado feito na viola. A viola típica da região de Santo Amaro é chamada de “machete” (substantivo masculino, pronuncia-se com o “e”do meio fechado “machête”) e tem dimensões reduzidas, sendo um pouco maior que o cavaquinho. Na coreografia o gesto mais típico é o chamado “miudinho”. Executado, sobretudo, da cintura para baixo, consiste num quase imperceptível deslizar para frente e para trás dos pés colados ao chão com movimentação correspondente dos quadris. No samba corrido o canto é mais tipicamente responsorial, alternando-se rapidamente entre um ou dois solistas e a “resposta” coral dos participantes. A dança acontece ao mesmo tempo em que o canto e várias pessoas podem sambar de cada vez.

Em 25 de novembro de 2005 o samba de roda do Recôncavo Baiano foi incluído pela UNESCO na terceira declaração das obras-primas do patrimônio oral e imaterial do Brasil (compilação realizada por Wilson de Jesus Souza).


Imagem: Selo postal comemorativo com ilustração realizada por Anderson Moreira Lima

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Tortura contra mulheres lésbicas no Equador

O mundo está finalmente abrindo os olhos para uma situação horripilante no Equador, onde a população LGBT e grupos de direitos das mulheres estão denunciando há muitos meses a existência de clínicas ilegais no Equador, que estão mantendo em cativeiros mulheres para serem estupradas, torturadas, violentadas e privadas de água e comida, pelas mãos dos chamados “profissionais de saúde ou cuidadores”. O por quê disso? Para curá-las da “doença” que é ser lésbica.

Enquanto o Governo do Equador mostrou ter fechado mais de 30 clínicas nos últimos meses, ativistas afirmam que ainda há mais de 200 clínicas como estas em todo o país, mantendo em cárcere privado centenas de mulheres contra a sua vontade. Muitas pessoas, a maioria mulheres, ainda estão correndo risco.

Estas clínicas que “curam os gays” ainda existem em várias partes do mundo, apesar de não terem nenhum reconhecimento por parte da comunidade psiquiátrica e associações médicas internacionais, tendo estas inclusive afirmado que as clínicas podem prejudicar a saúde das pessoas. Há algumas semanas atrás, uma jovem no Equador disse à imprensa que ficou presa em uma das clínicas por muitos meses, sendo abusada sexualmente e com seguranças jogando água e urinando sobre o seu corpo. Finalmente, com a ajuda da sua mãe, ela foi libertada.

Muitos pais e mães forçam jovens a um regime de “quarentena” nestas perigosas clinicas, mas o fato é que elas são ilegais. O Equador recentemente aprovou uma constituição progressista que apóia os direitos dos gays, incluindo, uniões civis entre pessoas do mesmo sexo. O país também possui leis robustas para punir a violência contra as mulheres. Mas mesmo com as penalidades previstas em seus códigos essas perigosas clínicas ainda se mantêm.

Ativistas no Equador e os seus parceiros na Change.org tem enviado petições ao Ministro da Saúde para fechar estas clínicas. Mas a responsabilidade para tomar alguma providência também é daquele que foi eleito por meio do voto para que se mantivesse o estado de direito no país – o Presidente Rafael Correa. Divulgue esta carta para que o Presidente Correa saiba que a pressão internacional sobre este assunto é notória e crescente, e ignorar o que está acontecendo em seu país não irá resolver o atual problema.

Caso prefira, assine aqui a carta e nós vamos entregá-la diretamente ao Presidente do Equador, assim como o Presidente da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, exigindo que estas clínicas ilegais sejam fechadas de uma vez por todas. Se o Presidente Correa, um líder que construiu a rua reputação com base em ideais progressistas, souber que existe uma comunidade internacional que está de olho no Equador, ele tomará uma providência CLIQUE AQUI: www.allout.org/pt/ecuadorclinics (Fonte: All Out).


Imagem: Duncan Walker

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Nos embalos de Nossa Senhora D’Ajuda

Manhã de inverno mineiro em plena primavera baiana. Assim teve início o domingo que encerrou os embalos profanos da Festa D’Ajuda, em Cachoeira, Recôncavo da Bahia. Trata-se de uma festa única, bem ao estilo de um povo que sabe misturar com maestria chuva, suor, cerveja, sensualidade, devoção e simpatia sem adicionar a esta mistura nenhuma pitada de dramas psicanalíticos.

O domingo de embalo foi precedido por uma noitada agitada pelo mais autêntico e contagiante samba de roda do Recôncavo baiano. Samba que faz o sangue borbulhar e o corpo remexer mesmo que estejamos na roda não para quebrar, mas, sim, tão somente para apreciar. Samba que ensina a viver quando nos diz em alto e bom som: “eu hei de morrer cantando porque chorando eu nasci”. E foi assim até alta madrugada.

Por volta das cinco da manhã, com o dia ainda escuro por conta do horário de verão e da forte cerração que a tudo encobria, o samba de roda cedeu lugar ao animado embalo. O que se viu, então, foram as ruas da cidade serem tomadas por uma multidão de homens, mulheres, negros, brancos, pardos, velhos, jovens, crianças, turistas, rastas, jornalistas, professores, maconheiros, gays, lésbicas, sem-terra, sem-teto, feministas a ostentarem seus slogans de protesto, barbies desinibidas e outras tantas enrustidas, piriguetes assumidas, travestis e travestidos a desfilar suas fantasias de índios, pierrots apaixonados, joaninhas, hippies safados, árabes, bruxas, enfermeiras, melindrosas bem formosas, cangaceiras bem ruidosas, bebês fanfarrões, diabos valentões, caretas, chocolates Biss ambulantes, super-heróis flamejantes, Fred Flintstone sem a Vilma, vampiros, operários do DNIT, noivas e noivos em delírio, padres e afrodites. Até mesmo o casal Sherk e Fiona, assim como, os irmãos Super Mário e Luigi apareceram na festa, acompanhados da Amy Winehouse ressuscitada. Do mesmo modo compareceram os Filhos de Gandhy ao lado de nobres oriundos do carnaval de Veneza. É claro que não faltaram as personagens principais dessa onírica festa, os famosos e divertidos MUNDUS, sempre seguidos pelos elegantes CABEÇORRAS.

Toda a festa um ritual de prazeroso delírio, que seguia ao som da charanga rua acima, rua abaixo da histórica Cachoeira, a dissipar a cerração com o intenso calor de uma alegria esfuziante. Só me resta dizer, então, viva à Bahia! Viva ao Recôncavo da Bahia! E viva, especialmente, à comunidade de Cachoeira, que sabe como poucos se conectar ao mundo sem abrir mão de suas raízes, sua história, sua identidade! Oxalá isso não se perca em nome das drogas inúteis trazidas por uma modernidade cada vez mais vazia e insossa (por Silvio Benevides).

NOTA: A festa de Nossa Senhora D’Ajuda acontece na cidade de Cachoeira, Recôncavo baiano. Trata-se de uma tradição secular trazida pelos católicos portugueses. Os festejos misturam o sagrado e o profano, que dialogam de forma única nessa grande manifestação popular. O auge da festa acontece no Terno da Alvorada, quando cabeçorras, mandus (imagem ao lado) e mascarados se juntam aos foliões para brincar e folgar ao som de charangas integradas por músicos cachoeiranos desde as primeiras horas da manhã até o início da tarde. Ao anoitecer os católicos saem em procissão com a imagem de Nossa Senhora D’Ajuda. As primeiras manifestações dessa festa das quais se tem registro datam do século XIX. A festa tem um grande destaque na região por resgatar a cultura e a identidade local.
Imagens: Enéas Guerra (cartaz), Silvio Benevides e Fátima Pitombo (Mandus).

domingo, 6 de novembro de 2011

Poema Falado: O NAVIO NEGREIRO

O mês de novembro é considerado o Mês da Consciência Negra, pois foi no dia 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, que morreu o líder negro Zumbi dos Palmares, ícone da luta negra no Brasil contra a escravidão e a opressão dela decorrente. O Mês da Consciência Negra é também um período para reflexão. A escravidão pode fazer parte do nosso passado, mas o racismo, não. Mesmo que alguns insistam em dizer o contrário, a sociedade brasileira ainda está impregnada de idéias e valores racistas. E esse racismo que insiste em persistir tem suas origens, obviamente, no nosso passado escravocrata, passado este retratado nos versos de um dos maiores poetas românticos da língua portuguesa – e, também, abolicionista – o nosso Antônio Frederico de Castro Alves. Refiro-me ao magistral poema O NAVIO NEGREIRO, que pode ser contemplado no Poema Falado abaixo, mais uma vez na voz do magnífico Paulo Autran. O texto de Castro Alves pode ser acessado na íntegra no sítio DOMÍNIO PÚBLICO. Boa áudio-leitura! (por Silvio Benevides)

Não podemos fechar os olhos para a veracidade de nossa história. Esta é uma delas” (KellenFMS).



Imagem: Madeira e tijolo, por Miguel Aleixos

segunda-feira, 31 de outubro de 2011

O dia D

A data de hoje, 31 de outubro, dia do aniversário de Carlos Drummond de Andrade, nascido na cidade mineira de Itabira, em1902, foi transformada pelo Instituto Moreira Salles, entidade que cuida do valiosíssimo acervo do poeta, no Dia D – Dia Drummond, que passa a figurar no calendário cultural do País. “Não queríamos que um material tão rico ficasse limitado aos muros do instituto”, disse Flávio Moura, um dos curadores da festa, ao lado do poeta Eucanaã Ferraz. “Nossa inspiração foi o Bloomsday, que acontece todo 16 de junho, quando os irlandeses (e todo o mundo) comemoram a vida e a obra de James Joyce”, completou. Da presente data em diante passaremos, pois, a comemorar o dia Drummond, aquele cuja pena traduziu em palavras sentimentos que apenas podem ser ouvidos por meio dos batimentos cardíacos. O Carlos Drummond de Andrade sempre esteve e sempre estará presente na série Poemas Falados do Salvador na sola do pé, porque ele é o anjo torto que nos ensinou com seus versos raros a arte de voar a gauche pela vida a fora. E como é bom ser gauche na vida!

Para marcar esse dia, um dos meus poemas prediletos, O HOMEM, AS VIAGENS, que diz: “O homem, bicho da Terra tão pequeno, chateia-se na Terra, lugar de muita miséria e pouca diversão. Faz um foguete, uma cápsula, um módulo, toca para a Lua, desce cauteloso na Lua, pisa na Lua, planta bandeirola na Lua, experimenta a Lua, coloniza a Lua, civiliza a Lua, humaniza a Lua. Lua humanizada: tão igual à Terra. O homem chateia-se na Lua. Vamos para Marte! Ordena a suas máquinas. Elas obedecem. O homem desce em Marte, pisa em Marte, experimenta, coloniza, civiliza, humaniza Marte com engenho e arte. Marte humanizado, que lugar quadrado. Vamos a outra parte? Claro! Diz o engenho sofisticado e dócil. Vamos a Vênus. O homem põe o pé em Vênus, vê o visto – é isto? Idem, idem, idem...O homem funde a cuca se não for a Júpiter proclamar justiça junto com injustiça, repetir a fossa, repetir o inquieto repetitório. Outros planetas restam para outras colônias. O espaço todo vira Terra-a-Terra. O homem chega ao Sol ou dá uma volta só pra te ver? Não vê que ele inventa roupa insiderável de viver no Sol. Põe o pé e: mas que chato é o Sol, falso touro espanhol domado. Restam outros sistemas fora do solar a colonizar. Ao acabarem todos só resta ao homem (estará equipado?) a dificílima dangerosíssima viagem de si a si mesmo: pôr o pé no chão do seu coração, experimentar, colonizar, humanizar o homem, descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas a perene, insuspeitada alegria de conviver”. Na voz do próprio Drummond, ao som de Bach, interpretado pelo Yo Yo Ma, o meu Poema Falado preferido. Boa áudio-leitura! (por Silvio Benevides).



Imagem: Agência Estado

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

A defesa do meio ambiente é uma luta anticapitalista

Não há dúvida que a questão ambiental é uma das mais urgentes na atualidade. Trata-se de uma questão de sobrevivência, não do planeta, mas, sim, da humanidade. Trata-se, também, de uma questão moral. Como assim? Muitos, talvez, se perguntem. A resposta é simples. A humanidade não encontrará soluções adequadas para a questão da degradação ambiental se não promover uma mudança radical de valores e padrões morais/éticos. A primeira mudança a ser promovida deve ser na idéia de que a vida humana é a mais valorosa do planeta e, por isso, a única que importa. Todas as vidas existentes na terra são importantes, porque as inúmeras espécies existentes são interdependentes. O equilíbrio ambiental somente se efetivará quando essa consciência estiver, de fato, disseminada e profundamente enraizada nas consciências humanas. Talvez devêssemos promover um resgate significativo de valores e padrões culturais de sociedades dizimadas pelo colonialismo mercantilista e pelo imperialismo capitalista, ambos vistos por séculos como modelos civilizatórios ideais. Desse ponto advém outra constatação. Se não houver uma mudança radical dos padrões civilizatórios atuais, o que implica, também, uma mudança radical no modo de produção, não haverá futuro promissor para a humanidade ou para qualquer outra forma de vida que habite este planeta. Urge modificarmos a maneira como produzimos e consumimos, pois o modo como as coisas estão e são tem se revelado extremamente nocivo.

Por e-mail me enviaram um texto no qual uma senhora idosa é interpelada pelo caixa do supermercado, que, preocupado com a questão ambiental, lhe diz que sacolas plásticas não são amigáveis com o meio ambiente e, por isso, ela deveria ter levado suas próprias sacolas para as compras ou, então, comprar uma retornável fornecida pelo próprio supermercado pelo valor irrisório de R$ 3,00. Desculpando-se, a senhora responde ao caixa politicamente correto que em seu tempo de juventude não havia preocupação com o meio ambiente, talvez fosse esta a razão dela sempre se esquecer de levar suas próprias sacolas quando ia às compras. Do alto da sua elevada consciência ambiental, o rapaz afirma ser este o grande problema dos nossos dias, ou seja, as gerações mais velhas não se preocuparam o suficiente com a questão ambiental. Sem discordar, a velha senhora se sentiu na obrigação de complementar o argumento do jovem caixa, informando-lhe que nos idos tempos da sua juventude “as garrafas de leite, de refrigerante e cerveja eram devolvidas à loja. A loja mandava de volta para a fábrica, onde eram lavadas e esterilizadas antes de cada reuso, e eles, os fabricantes de bebidas, usavam as garrafas, umas tantas outras vezes”. E a senhora não se restringiu a este exemplo, apenas.

“Realmente, continuou ela, não nos preocupávamos com o ambiente no nosso tempo. Subíamos as escadas, porque não havia escadas rolantes nas lojas e nos escritórios. Caminhávamos até o comércio, ao invés de usar o nosso carro de 300 cavalos de potência a cada vez que precisávamos ir a dois quarteirões para comprar pão, por exemplo. Mas você está certo. Nós não nos preocupávamos com o ambiente. Até então, as fraldas de bebês eram lavadas, porque não havia fraldas descartáveis, tampouco absorventes íntimos descartáveis para as mulheres quando ficavam menstruadas. A secagem das roupas não era feita nestas máquinas bamboleantes de 220 volts. A energia solar e eólica é que realmente secava nossas roupas. Os meninos pequenos usavam as roupas que tinham sido de seus irmãos mais velhos, e não roupas sempre novas. Mas é verdade: não havia preocupação com o ambiente, naqueles dias. Naquela época só tínhamos somente uma TV ou rádio em casa, e não uma TV em cada quarto. E a TV tinha uma tela do tamanho de um lenço, não um telão do tamanho de um estádio; que, depois, quase ninguém sabe como será descartado. Também não tínhamos controles remotos, laptops e aparelhos celulares com suas baterias altamente nocivas ao meio ambiente. Na cozinha, tínhamos que bater tudo com as mãos porque não havia máquinas elétricas, que fazem tudo por nós. Quando embalávamos algo frágil para enviar pelo correio, usávamos jornal amassado para protegê-lo, não plástico-bolha ou pellets de plástico que duram cinco séculos para começar a degradar. Naqueles tempos não se usava um motor a gasolina apenas para cortar a grama. Utilizava-se um cortador de grama que exigia músculos. O exercício era extraordinário, e não precisávamos ir a uma academia para usar esteiras elétricas. Mas você tem razão: não havia naquela época preocupação com o ambiente. Bebíamos em copos de vidro quando estávamos com sede, em vez de usar copos plásticos e garrafas pet que agora lotam os oceanos. Recarregávamos as canetas com tinta ao invés de comprar novas. Os homens barbeavam-se com navalhas e, por isso, deixavam de jogar no lixo aparelhos descartáveis e poluentes só porque a lâmina ficou sem corte. Na verdade, tivemos uma onda verde naquela época, quando as pessoas tomavam o bonde ou ônibus e os meninos iam para a escola a pé ou em suas bicicletas, ao invés de usar a mãe como um serviço de táxi 24 horas. Tínhamos apenas uma tomada em cada quarto, e não um quadro de tomadas em cada parede para alimentar uma dúzia de aparelhos eletrônicos. Também não precisávamos de um GPS para receber sinais de satélites a milhas de distância no espaço, só para encontrar a pizzaria mais próxima”. Satisfeita, a senhora conclui com uma provocação destinada à reflexão: “não é risível que a atual geração fale tanto em meio ambiente, mas não queira abrir mão de nada e não pense em viver um pouco como na minha época”?

Não se trata aqui de defender um retorno ao passado. É óbvio que ninguém deseja cruzar o Atlântico rumo à Europa, por exemplo, do mesmo modo faziam os antigos navegantes em suas caravelas movidas pela força dos ventos. Definitivamente, não é isso que está em debate aqui. Entretanto, é preciso considerar que a fictícia senhora, de fato, tem razão, embora ela tenha se esquecido de admitir que, sim, as gerações mais velhas não se preocuparam com a questão ambiental porque estavam empenhadas em promover o desenvolvimento tecnológico e econômico em bases capitalistas. Muitas vezes a preocupação ambiental/ecológica dos dias de hoje chega a ser risível, não tanto pelos argumentos, mas, sobretudo, pela total ausência de politização dos fatos. Para salvar o meio ambiente da sua total degradação é preciso mudar maneiras de agir e pensar; é preciso transformar o modo de produção capitalista, que tem se mostrado cada vez mais insustentável sob todos os aspectos. Isso implica, também, em mudar todo um conjunto de relações sociais nos mais variados âmbitos, do político-econômico ao religioso, passando, claro, pelo educacional. Sem essas mudanças, caros defensores do discurso ambientalmente correto, não haverá futuro nem para o meio ambiente, nem para a humanidade. E nem adianta dizer que cada um fazendo a sua parte, como, por exemplo, fazer xixi durante o banho para evitar dar descarga ou tomar banhos rápidos de no máximo cinco minutos para diminuir o consumo de água, vai resolver o problema. Não vai, porque outro valor que precisamos resgatar é o sentimento de coletividade. Problemas coletivos exigem soluções pensadas, refletidas, debatidas e encontradas coletivamente e não individualmente. O individualismo é tão nocivo ao meio ambiente quanto a bomba atômica (por Sílvio Benevides).


Imagem: Lady Bug heart, por Tiago Sousa

segunda-feira, 10 de outubro de 2011

Câmara aprova o Estatuto da Juventude

O Plenário da Câmara Federal aprovou o Projeto de Lei 4529/04, que institui o Estatuto da Juventude, com princípios e diretrizes para o Poder Público criar e organizar políticas para essa idade, considerada pelo texto como a faixa de 15 a 29 anos. A matéria, aprovada na forma de um substitutivo, em votação simbólica, será enviada para análise do Senado.

A autoria do projeto é da comissão especial de políticas públicas para a juventude. No acordo feito antes da votação, a relatora Manuela d’Ávila (PCdoB-RS) ajustou o texto sobre a inclusão de temas relacionados à sexualidade nos currículos escolares.

A relatora manteve o combate a todas as formas de discriminação, assim como o respeito às crenças. “Pela primeira vez, produzimos um acordo que garante os direitos para a comunidade LGBT e também a liberdade de credo tão aclamada e exigida pelos evangélicos. Agradeço a todos os deputados que participaram da construção desse acordo”, disse a relatora.

Outro ponto alterado se refere ao transporte de estudantes. Em vez de prever o direito ao transporte gratuito, o texto aprovado diz que os programas suplementares de transporte escolar serão progressivamente estendidos aos jovens estudantes de todos os níveis educacionais, no campo e na cidade.

Já o desconto de 50% nas passagens intermunicipais e interestaduais deverá obedecer às legislações federal, estaduais e municipais. Nos dois casos, os recursos para o subsídio deverão ser suportados, preferencialmente, com dotações orçamentárias específicas.

Para melhorar o ensino, Manuela d´Ávila incluiu como prioridade do Poder Público a universalização da educação em tempo integral.

O presidente da Câmara, Marco Maia, elogiou a aprovação do estatuto, que já tramita há mais de sete anos na Casa. Para ele, haverá um avanço no tratamento que o Brasil deve dar à juventude nos próximos anos. Ele ressaltou que a proposta estabelece políticas claras e concretas de atuação das entidades públicas.

O deputado Domingos Neto (PSB-CE), que é presidente da Frente Parlamentar da Juventude, destacou o acordo feito com a Frente Parlamentar Evangélica que permitiu a aprovação do projeto. “Tivemos a oportunidade de, depois de sete anos tramitando nesta Casa, ver o extraordinário trabalho da deputada Manuela d'Ávila que, em conjunto com a Frente Parlamentar da Juventude, conseguiu uma vitória histórica para o País”, afirmou.

Em seu substitutivo, Manuela d´Ávila também atendeu a apelo do deputado Vanderlei Macris (PSDB-SP) para manter no texto a proibição de propagandas de bebidas com qualquer teor alcoólico quando esta tiver a participação de jovem menor de 18 anos.

Esse tópico faz parte dos direitos de atenção à saúde, cuja política deverá ter como uma das diretrizes a garantia de inclusão do tema no currículo escolar.

Entre os assuntos que deverão ser tratados pelos professores, destacam-se os relativos ao consumo de álcool, drogas, às doenças sexualmente transmissíveis, ao planejamento familiar e ao impacto da gravidez, seja planejada ou não.

Quanto ao desporto, o texto determina que as escolas com mais de 200 alunos, ou conjunto de escolas que agreguem esse número, deverão buscar um local apropriado para a prática de atividades poliesportivas.

A deputada Manuela, na época do debate na comissão especial, abriu uma comunidade virtual no e-Democracia para receber contribuições da sociedade. Algumas delas foram acatadas e acrescentadas ao texto do substitutivo aprovado no Plenário (Fonte: Agência Câmara de Notícias).

Imagem: Chris Heads