segunda-feira, 21 de março de 2011

Grandes são os desertos...

Grandes são os desertos, e tudo é deserto. Não são algumas toneladas de pedras ou tijolos ao alto Que disfarçam o solo, o tal solo que é tudo. Grandes são os desertos e as almas desertas e grandes – Desertas porque não passa por elas senão elas mesmas, Grandes porque de ali se vê tudo, e tudo morreu. Grandes são os desertos, minha alma! Grandes são os desertos. Não tirei bilhete para a vida, Errei a porta do sentimento, Não houve vontade ou ocasião que eu não perdesse. Hoje não me resta, em vésperas de viagem, Com a mala aberta esperando a arrumação adiada, Sentado na cadeira em companhia com as camisas que não cabem, Hoje não me resta (à parte o incômodo de estar assim sentado) Senão saber isto: Grandes são os desertos, e tudo é deserto. Grande é a vida, e não vale a pena haver vida, Arrumo melhor a mala com os olhos de pensar em arrumar Que com arrumação das mãos factícias (e creio que digo bem) Acendo o cigarro para adiar a viagem, Para adiar todas as viagens. Para adiar o universo inteiro. Volta amanhã, realidade! Basta por hoje, gentes! Adia-te, presente absoluto! Mais vale não ser que ser assim. Comprem chocolates à criança a quem sucedi por erro, E tirem a tabuleta porque amanhã é infinito. Mas tenho que arrumar mala, Tenho por força que arrumar a mala, A mala. Não posso levar as camisas na hipótese e a mala na razão. Sim, toda a vida tenho tido que arrumar a mala. Mas também, toda a vida, tenho ficado sentado sobre o canto das camisas empilhadas, A ruminar, como um boi que não chegou a Ápis, destino. Tenho que arrumar a mala de ser. Tenho que existir a arrumar malas. A cinza do cigarro cai sobre a camisa de cima do monte. Olho para o lado, verifico que estou a dormir. Sei só que tenho que arrumar a mala, E que os desertos são grandes e tudo é deserto, E qualquer parábola a respeito disto, mas dessa é que já me esqueci. Ergo-me de repente todos os Césares. Vou definitivamente arrumar a mala. Arre, hei de arrumá-la e fechá-la; Hei de vê-la levar de aqui, Hei de existir independentemente dela. Grandes são os desertos e tudo é deserto, Salvo erro, naturalmente. Pobre da alma humana com oásis só no deserto ao lado! Mais vale arrumar a mala. Fim. (por Fernando Pessoa na pessoa do Álvaro de Campos)

Imagem: Wind River Roadless Area, Wyoming (USA), por Jack Dykinga.

segunda-feira, 14 de março de 2011

Faça do Brasil um território sem homofobia

Findo o carnaval é hora de retomarmos a discussão sobre assuntos há muito pendentes. No mês passado a ministra da Secretaria Especial de Direitos Humanos, Maria do Rosário, acompanhada da vice-presidente do Senado, senadora Marta Suplicy e de outras autoridades, lançou em São Paulo, um disque-denúncia que prestará atendimento nacional e gratuito dedicado a denúncias de discriminação e violência por orientação sexual e identidade de gênero, em outras palavras, homofobia. O número 100 ficará disponível 24 horas e a identidade do denunciante será mantida em sigilo.

Na mesma ocasião, também foi lançado o selo “Faça do Brasil um território sem homofobia”, cujo propósito é se transformar num símbolo de uma campanha de combate à homofobia.“Vamos atuar com estados e municípios em uma rede nacional contra a homofobia. Nossa meta é atuar no auxilio às pessoas que precisam, e esta é uma população vulnerável à violência”, disse a ministra. Segundo Rosário, o disque-denúncia já funcionava em caráter experimental, quando foi firmada uma parceria entre o governo federal, prefeituras e estados para ajudar no combate à violência contra a população LGBTT. Entre os dias 23 de dezembro de 2010 e 16 de fevereiro de 2011, período em que durou o caráter experimental do Disque-Denúncia 100, foram registradas 343 denúncias de violência contra homossexuais, que representam 1.015 violações. A maior parte dos casos denunciados foi de violência psicológica (42%), seguida de discriminação (25%), violência física (17%) e violência sexual (10%).

Os casos considerados mais graves, a exemplo da violência física, a ministra afirmou que a polícia poderá ser acionada rapidamente. Não está descartada, também, a possibilidade de oferta de proteção para as vítimas, assim como acontece nos casos de violência contra a mulheres e crianças, igualmente atendidas por serviços de disque-denúncia.“Se tivermos situações mais graves, emergenciais, imediatamente vamos telefonar para a polícia e pedir auxílio para localizar o agressor. É possível que se dê proteção para as pessoas vítimas de violência, mas quem terá de fazer isso são os órgãos locais. Para isso, vamos fazer um trabalho de apoio em rede”, afirmou a ministra. É esperar para ver, afinal, a quem denunciar a homofobia nas instituições? Daí a importância do projeto de lei que criminaliza a homofobia.

Aprovado pela Câmara em 2006, o projeto da então deputada Iara Bernardi (PT-SP) foi enviado ao Senado, mas foi arquivado após o encerramento da última legislatura. Por meio de um requerimento apresentado pela a senadora Marta Suplicy (PT-SP), que será a relatora do projeto que torna crime a discriminação de homossexuais, idosos e deficientes, e aprovado pelo plenário no último dia 8 de fevereiro, o projeto foi desarquivado e voltará a tramitar na Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa do Senado. A proposta visa alterar a Lei 7.716/1989, que tipifica “os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional” e inclui entre esses crimes o de discriminação por gênero, sexo, orientação sexual ou identidade de gênero, segundo informou a Agência Senado. A ministra Maria do Rosário, que, como deputada federal, defendia a causa contra a homofobia, afirmou que o governo ainda não tem uma posição oficial manifestada sobre o projeto, mas ela, particularmente, apóia a iniciativa. “Acho que vamos ter um forte debate no Congresso, mas eu faço questão de dizer que temos responsabilidade na defesa dos direitos da diversidade sexual e religiosa, entre outras. A diversidade como um todo é importante, e o governo estará disposto a participar desta discussão”, afirmou a ministra.

A despeito das bem-aventuradas palavras da ministra Maria do Rosário, não se trata de estar disposto ou não. A presidente Dilma Rousseff foi eleita para governar um Estado laico e democrático. Sendo assim, não pode furtar-se de participar e, até mesmo, defender ideias e princípios que visam tão somente ampliar e aprofundar a democracia no país. Iniciativas como o Disque 100 para denunciar a violência homofóbica demonstram que o Executivo está fazendo a sua parte. E quanto ao Legislativo? Até quando o Congresso Nacional esperará para reconhecer que homossexuais são cidadãos como quaisquer outros e, por isso, possuem direitos, entre os quais está o direito a uma vida com dignidade e sem violência? Até quando os parlamentares vão se conscientizar de que legislam para todos/as e não apenas para seus pares? O Brasil precisa entender que ou somos uma nação democrática ou não somos. Não existe democracia pela metade e ela só pode se tornar plena, isto é, uma realidade para a população se as nossas instituições, de fato, reconhecerem que todos/as têm direitos a ter direitos (por Sílvio Benevides).
*

Monteiro Lobato, Ziraldo e Ana Maria Gonçalves

Nunca tinha ouvido falar na Ana Maria Gonçalves até chegar ao meu e-mail a carta abaixo reproduzida. Poucas vezes li um texto tão contundente, lúcido e bem fundamentado, no que diz respeito à defesa de uma causa, no caso específico, o combate ao racismo, que no Brasil é insistentemente negado. Se a carta da Ana Maria Gonçalves fosse a apresentação de um abaixo-assinado, eu o assinaria de imediato. O racismo brasileiro, tão “afetuoso”, precisa ser combatido nas mais variadas frentes e as escolas são, sem dúvida, uma dessas frentes. Nas escolas formam-se mentes. Nelas, definem-se os rumos de um povo, de uma sociedade, de um país, de uma nação. Por isso as escolas são tão importantes. Por isso a educação é um direito fundamental. Sendo um direito fundamental, precisa ser defendido, como o faz brilhantemente a Ana Maria Gonçalves, de quem já me tornei um admirador. Gostaria, entretanto, de fazer uma ressalva. De fato, o Monteiro Lobato foi um dos intelectuais mais racistas desse país. Não é preciso ser um profundo conhecedor da sua obra para constatar isso. A despeito dessa constatação, não estou certo se impedir que crianças leiam suas obras nas escolas brasileiras é a melhor solução para se combater as idéias racistas e eugênicas que ele tanto defendia. Idéias se combatem com idéias e não se pode combater algo que não se conhece. Impedir que o Monteiro Lobato seja lido nas escolas, não ajuda a combater as suas terríveis idéias sobre os negros e mestiços, mas, apenas, a escamoteá-las, o que, definitivamente, contribui, tão somente, para negar o já negado racismo nosso de cada dia. Bom mesmo é o debate. E não há melhor lugar para se debater esse assunto do que as escolas e as universidades. Então, que venha o Monteiro Lobato e tantos outros que, a despeito do talento, não passavam de reles racistas (por Sílvio Benevides).

Carta aberta ao Ziraldo

Caro Ziraldo,

Olho a triste figura de Monteiro Lobato abraçado a uma mulata, estampada nas camisetas do bloco carnavalesco carioca "Que merda é essa?" e vejo que foi obra sua. Fiquei curiosa para saber se você conhece a opinião de Lobato sobre os mestiços brasileiros e, de verdade, queria que não. Eu te respeitava, Ziraldo. Esperava que fosse o seu senso de humor falando mais alto do que a ignorância dos fatos, e por breves momentos até me senti vingada. Vingada contra o racismo do eugenista Monteiro Lobato que, em carta ao amigo Godofredo Rangel, desabafou: "(...)Dizem que a mestiçagem liquefaz essa cristalização racial que é o caráter e dá uns produtos instáveis. Isso no moral – e no físico, que feiúra! Num desfile, à tarde, pela horrível Rua Marechal Floriano, da gente que volta para os subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal. Os negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão, vingaram-se do português de maneira mais terrível – amulatando-o e liquefazendo-o, dando aquela coisa residual que vem dos subúrbios pela manhã e reflui para os subúrbios à tarde. E vão apinhados como sardinhas e há um desastre por dia, metade não tem braço ou não tem perna, ou falta-lhes um dedo, ou mostram uma terrível cicatriz na cara. “Que foi?” “Desastre na Central.” Como consertar essa gente? Como sermos gente, no concerto dos povos? Que problema terríveis o pobre negro da África nos criou aqui, na sua inconsciente vingança!..." (em "A barca de Gleyre". São Paulo: Cia. Editora Nacional, 1944. p.133).

Ironia das ironias, Ziraldo, o nome do livro de onde foi tirado o trecho acima é inspirado em um quadro do pintor suíço Charles Gleyre (1808-1874), Ilusões Perdidas. Porque foi isso que aconteceu. Porque lendo uma matéria sobre o bloco e a sua participação, você assim o endossa : "Para acabar com a polêmica, coloquei o Monteiro Lobato sambando com uma mulata. Ele tem um conto sobre uma neguinha que é uma maravilha. Racismo tem ódio. Racismo sem ódio não é racismo. A ideia é acabar com essa brincadeira de achar que a gente é racista". A gente quem, Ziraldo? Para quem você se (auto) justifica? Quem te disse que racismo sem ódio, mesmo aquele com o "humor negro" de unir uma mulata a quem grande ódio teve por ela e pelo que ela representava, não é racismo? Monteiro Lobato, sempre que se referiu a negros e mulatos, foi com ódio, com desprezo, com a certeza absoluta da própria superioridade, fazendo uso do dom que lhe foi dado e pelo qual é admirado e defendido até hoje. Em uma das cartas que iam e vinham na barca de Gleyre (nem todas estão publicadas no livro, pois a seleção foi feita por Lobato, que as censurou, claro) com seu amigo Godofredo Rangel, Lobato confessou que sabia que a escrita "é um processo indireto de fazer eugenia, e os processos indiretos, no Brasil, 'work' muito mais eficientemente".

Lobato estava certo. Certíssimo. Até hoje, muitos dos que o leram não veem nada de errado em seu processo de chamar negro de burro aqui, de fedorento ali, de macaco acolá, de urubu mais além. Porque os processos indiretos, ou seja, sem ódio, fazendo-se passar por gente boa e amiga das crianças e do Brasil, "work" muito bem. Lobato ficou frustradíssimo quando seu "processo" sem ódio, só na inteligência, não funcionou com os norte-americanos, quando ele tentou em vão encontrar editora que publicasse o que considerava ser sua obra prima em favor da eugenia e da eliminação, via esterilização, de todos os negros. Ele falava do livro "O presidente negro ou O choque das raças" que, ao contrário do que aconteceu nos Estados Unidos, país daquele povo que odeia negros, como você diz, Ziraldo, foi publicado no Brasil. Primeiro em capítulos no jornal carioca A Manhã, do qual Lobato era colaborador, e logo em seguida em edição da Editora Companhia Nacional, pertencente a Lobato. Tal livro foi dedicado secretamente ao amigo e médico eugenista Renato Kehl, em meio à vasta e duradoura correspondência trocada pelos dois: “Renato, tu és o pai da eugenia no Brasil e a ti devia eu dedicar meu Choque, grito de guerra pró-eugenia. Vejo que errei não te pondo lá no frontispício, mas perdoai a este estropeado amigo. (...) Precisamos lançar, vulgarizar estas idéias. A humanidade precisa de uma coisa só: póda. É como a vinha".

Impossibilitado de colher os frutos dessa poda nos EUA, Lobato desabafou com Godofredo Rangel: "Meu romance não encontra editor. [...]. Acham-no ofensivo à dignidade americana, visto admitir que depois de tantos séculos de progresso moral possa este povo, coletivamente, cometer a sangue frio o belo crime que sugeri. Errei vindo cá tão verde. Devia ter vindo no tempo em que eles linchavam os negros." Tempos depois, voltou a se animar: "Um escândalo literário equivale no mínimo a 2.000.000 dólares para o autor (...) Esse ovo de escândalo foi recusado por cinco editores conservadores e amigos de obras bem comportadas, mas acaba de encher de entusiasmo um editor judeu que quer que eu o refaça e ponha mais matéria de exasperação. Penso como ele e estou com idéias de enxertar um capítulo no qual conte a guerra donde resultou a conquista pelos Estados Unidos do México e toda essa infecção spanish da América Central. O meu judeu acha que com isso até uma proibição policial obteremos - o que vale um milhão de dólares. Um livro proibido aqui sai na Inglaterra e entra boothegued como o whisky e outras implicâncias dos puritanos". Lobato percebeu, Ziraldo, que talvez devesse apenas exasperar-se mais, ser mais claro em suas ideias, explicar melhor seu ódio e seu racismo, não importando a quem atingiria e nem por quanto tempo perduraria, e nem o quão fundo se instalaria na sociedade brasileira. Importava o dinheiro, não a exasperação dos ofendidos. 2.000.000 de dólares, ele pensava, por um ovo de escândalo. Como também foi por dinheiro que o Jeca Tatu, reabilitado, estampou as propagandas do Biotônico Fontoura.

Você sabe que isso dá dinheiro, Ziraldo, mesmo que o investimento tenha sido a longo prazo, como ironiza Ivan Lessa: "Ziraldo, o guerrilheiro do traço, está de parabéns. Finalmente o governo brasileiro tomou vergonha na cara e acabou de pagar o que devia pelo passe de Jeremias, o Bom, imortal personagem criado por aquele que também é conhecido como “o Lamarca do nanquim”. Depois do imenso sucesso do calunguinha nas páginas de diversas publicações, assim como também na venda de diversos produtos farmacêuticos, principalmente doenças da tireóide, nos idos de 70, Ziraldo, cognominado ainda nos meios esclarecidos como “o subversivo da caneta Pilot”, houve por bem (como Brutus, Ziraldo é um homem de bem; são todos uns homens de bem – e de bens também) vender a imagem de Jeremias para a loteca, ou seja, para a Caixa Econômica Federal (federal como em República Federativa do Brasil) durante o governo Médici ou Geisel (os déspotas esclarecidos em muito se assemelham, sendo por isso mesmo intercambiáveis)".

No tempo em que linchavam negros, disse Lobato, como se o linchamento ainda não fosse desse nosso tempo. Lincham-se negros nas ruas, nas portas dos shoppings e bancos, nas escolas de todos os níveis de ensino, inclusive o superior. O que é até irônico, porque Lobato nunca poderia imaginar que chegariam lá. Lincham-se negros, sem violência física, é claro, sem ódio, nos livros, nos artigos de jornais e revistas, nos cartoons e nas redes sociais, há muitos e muitos carnavais. Racismo não nasce do ódio ou amor, Ziraldo, sendo talvez a causa e não a consequência da presença daquele ou da ausência desse. Racismo nasce da relação de poder. De poder ter influência ou gerência sobre as vidas de quem é considerado inferior. "Em que estado voltaremos, Rangel," se pergunta Lobato, ao se lembrar do quadro para justificar a escolha do nome do livro de cartas trocadas, "desta nossa aventura de arte pelos mares da vida em fora? Como o velho de Gleyre? Cansados, rotos? As ilusões daquele homem eram as velas da barca – e não ficou nenhuma. Nossos dois barquinhos estão hoje cheios de velas novas e arrogantes, atadas ao mastro da nossa petulância. São as nossas ilusões". Ah, Ziraldo, quanta ilusão (ou seria petulância? arrogância; talvez? sensação de poder?) achar que impor à mulata a presença de Lobato nessa festa tipicamente negra, vá acabar com a polêmica e todos poderemos soltar as ancas e cada um que sambe como sabe e pode. Sem censura. Ou com censura, como querem os quemerdenses. Mesmo que nesse do Caçadas de Pedrinho a palavra censura não corresponda à verdade, servindo como mero pretexto para manifestação de discordância política, sem se importar com a carnavalização de um tema tão dolorido e tão caro a milhares de brasileiros. E o que torna tudo ainda mais apelativo é que o bloco aponta censura onde não existe e se submete, calado, ao pedido da prefeitura para que não use o próprio nome no desfile. Não foi assim? Você não teve que escrever "M*" porque a palavra "merda" foi censurada? Como é que se explica isso, Ziraldo? Mente-se e cala-se quando convém? Coerência é uma questão de caráter.

O que o MEC solicita não é censura. É respeito aos Direitos Humanos. Ao direito de uma criança negra em uma sala de aula do ensino básico e público, não se ver representada (sim, porque os processos indiretos, como Lobato nos ensinou, "work" muito mais eficientemente) em personagens chamados de macacos, fedidos, burros, feios e outras indiretas mais. Você conhece os direitos humanos, inclusive foi o artista escolhido para ilustrar a Cartilha de Direitos Humanos encomendada pela Presidência da República, pelas secretarias Especial de Direitos Humanos e de Promoção dos Direitos Humanos, pela ONU, a UNESCO, pelo MEC e por vários outros órgãos. Muitos dos quais você agora desrespeita ao querer, com a sua ilustração, acabar de vez com a polêmica causada por gente que estudou e trabalhou com seriedade as questões de educação e desigualdade racial no Brasil. A adoção do Caçadas de Pedrinho vai contra a lei de Igualdade Racial e o Estatuto da Criança e do Adolescente, que você conhece e ilustrou tão bem. Na página 25 da sua Cartilha de Direitos Humanos, está escrito: "O único jeito de uma sociedade melhorar é caprichar nas suas crianças. Por isso, crianças e adolescentes têm prioridade em tudo que a sociedade faz para garantir os direitos humanos. Devem ser colocados a salvo de tudo que é violência e abuso. É como se os direitos humanos formassem um ninho para as crianças crescerem." Está lá, Ziraldo, leia de novo: "crianças e adolescentes têm prioridade". Em tudo. Principalmente em situações nas quais são desrespeitadas, como na leitura de um livro com passagens racistas, escrito por um escritor racista com finalidades racistas. Mas você não vê racismo e chama de patrulhamento do politicamente correto e censura. Você está pensando nas crianças, Ziraldo? Ou com medo de que, se a moda pega, a "censura" chegue ao seu direito de continuar brincando com o assunto? "Acho injusto fazer isso com uma figura da grandeza de Lobato", você disse em uma reportagem. E com as crianças, o público-alvo que você divide com Lobato, você acha justo? Sim, vocês dividem o mesmo público e, inclusive, alguns personagens, como uma boneca e pano e o Saci, da sua Turma do Pererê. Medo de censura, Ziraldo, talvez aos deslizes, chamemos assim, que podem ser cometidos apenas porque se acostuma a eles, a ponto de pensar que não são, de novo chamemos assim, deslizes.

A gente se acostuma, Ziraldo. Como o seu menino marrom se acostumou com as sandálias de dedo: "O menino marrom estava tão acostumado com aquelas sandálias que era capaz de jogar futebol com elas, apostar corridas, saltar obstáculos sem que as sandálias desgrudassem de seus pés. Vai ver, elas já faziam parte dele" (ZIRALDO, 1986,p. 06, em O Menino Marrom). O menino marrom, embora seja a figura simpática e esperta e bonita que você descreve, estava acostumado e fadado a ser pé-de-chinelo, em comparação ao seu amigo menino cor-de-rosa, porque "(...) um já está quase formado e o outro não estuda mais (...). Um já conseguiu um emprego, o outro foi despedido do quinto que conseguiu. Um passa seus dias lendo (...), um não lê coisa alguma, deixa tudo pra depois (...). Um pode ser diplomata ou chofer de caminhão. O outro vai ser poeta ou viver na contramão (...). Um adora um som moderno e o outro – Como é que pode? – se amarra é num pagode. (...) Um é um cara ótimo e o outro, sem qualquer duvida, é um sujeito muito bom. Um já não é mais rosado e o outro está mais marrom" (ZIRALDO, 1986, p.31). O menino marrom, ao crescer, talvez virasse marginal, fado de muito negro, como você nos mostra aqui: "(...) o menino cor-de-rosa resolveu perguntar: por que você vem todo o dia ver a velhinha atravessar a rua? E o menino marrom respondeu: Eu quero ver ela ser atropelada" (ZIRALDO, 1986, p.24), porque a própria professora tinha ensinado para ele a diferença e a (não) mistura das cores. Então ele pensou que "Ficar sozinho, às vezes, é bom: você começa a refletir, a pensar muito e consegue descobrir coisas lindas. Nessa de saber de cor e de luz (...) o menino marrom começou a entender porque é que o branco dava uma idéia de paz, de pureza e de alegria. E porque razão o preto simbolizava a angústia, a solidão, a tristeza. Ele pensava: o preto é a escuridão, o olho fechado; você não vê nada. O branco é o olho aberto, é a luz!" (ZIRALDO, 1986, p.29), e que deveria se conformar com isso e não se revoltar, não ter ódio nenhum ao ser ensinado que, daquela beleza, pureza e alegria que havia na cor branca, ele não tinha nada. O seu texto nos ensina que é assim, sem ódio, que se doma e se educa para que cada um saiba o seu lugar, com docilidade e resignação: "Meu querido amigo: Eu andava muito triste ultimamente, pois estava sentindo muito sua falta. Agora estou mais contente porque acabo de descobrir uma coisa importante: preto é, apenas, a ausência do branco" (ZIRALDO, 1986, p.30).

Olha que interessante, Ziraldo: nós que sabemos do racismo confesso de Lobato e conseguimos vê-lo em sua obra, somos acusados por você de "macaquear" (olha o termo aí) os Estados Unidos, vendo racismo em tudo. "Macaqueando" um pouco mais, será que eu poderia também acusá-lo de estar "macaqueando" Lobato, em trechos como os citados acima? Sem saber, é claro, mas como fruto da introjeção de um "processo" que ele provou que "work" com grande eficiência e ao qual podemos estar todos sujeitos, depois de sermos submetidos a ele na infância e crescermos em uma sociedade na qual não é combatido. Afinal, há quem diga que não somos racistas. Que quem vê o racismo, na maioria os negros, que o sofrem, estão apenas "macaqueando". Deveriam ficar calados e deixar dessa bobagem. Deveriam se inspirar no menino marrom e se resignarem. Como não fazem muitos meninos e meninas pretos e marrons, aqueles que são a ausência do branco, que se chateiam, que se ofendem, que sofrem preconceito nas ruas e nas escolas e ficam doídos, pensando nisso o tempo inteiro, pensando tanto nisso que perdem a vontade de ir à escola, começam a tirar notas baixas porque ficam matutando, ressentindo, a atenção guardadinha lá debaixo da dor. E como chegam à conclusão de que aquilo não vai mudar, que não vão dar em nada mesmo, que serão sempre pés-de-chinelo, saem por aí especializando-se na arte de esperar pelo atropelamento de velhinhas.

Racismo é um dos principais fatores responsáveis pela limitada participação do negro no sistema escolar, Ziraldo, porque desvia o foco, porque baixa a auto-estima, porque desvia o foco das atividades, porque a criança fica o tempo todo tendo que pensar em como não sofrer mais humilhações, e o material didático, em muitos casos, não facilita nada a vida delas. E quando alguma dessas crianças encontra um jeito de fugir a esse destino, mesmo que não tenha sido através da educação, fica insuportável e merece o linchamento público e exemplar, como o sofrido por Wilson Simonal. Como exemplo, temos a sua opinião sobre ele: "Era tolo, se achava o rei da cocada preta, coitado. E era mesmo. Era metido, insuportável". Sabe, Ziraldo, é por causa da perpetuação de estereótipos como esses que às vezes a gente nem percebe que eles estão ali, reproduzidos a partir de preconceitos adquiridos na infância, que a SEPPIR pediu que o MEC reavaliasse a adoção de Caçadas de Pedrinho. Não a censura, mas a reavaliação. Uma nota, talvez, para ser colocada junto com as outras notas que já estão lá para proteger os direitos das onças de não serem caçadas e o da ortografia, de evoluir. Já estão lá no livro essas duas notas e a SEPPIR pede mais uma apenas, para que as crianças e os adolescentes sejam "colocados a salvo de tudo que é violência e abuso", como está na cartilha que você ilustrou. Isso é um direito delas, como seres humanos. É por isso que tem gente lutando, como você também já lutou por direitos humanos e por reparação. É isso que a SEPPIR pede: reparação pelos danos causados pela escravidão e pelo racismo.

Assim você se defendeu de quem o atacou na época em que conseguiu fazer valer os seus direitos: "(…) Espero apenas que os leitores (que o criticam) não tenham sua casa invadida e, diante de seus filhos, sejam seqüestrados por componentes do exército brasileiro pelo fato de exercerem o direito de emitir sua corajosa opinião a meu respeito, eu, uma figura tão poderosa”. Ziraldo, você tem noção do que aconteceu com os, citando Lobato, "negros da África, caçados a tiro e trazidos à força para a escravidão", e do que acontece todos os dias com seus descendentes em um país que naturalizou e, paradoxalmente, nega o seu racismo? De quantos já morreram e ainda morrem todos os dias porque tem gente que não os leva a sério? Por causa do racismo é bem difícil que essa gente fadada a ser pé-de-chinelo a vida inteira, essas pessoas dos subúrbios, que perpassam todas as degenerescências, todas as formas e má-formas humanas – todas, menos a normal, - porque nelas está a ausência do branco, esse povo todo representado pela mulata dócil que você faz sorrir nos braços de um dos escritores mais racistas e perversos e interesseiros que o Brasil já teve, aquele que soube como ninguém que um país (racista) também de faz de homens e livros (racistas), por causa disso tudo, Ziraldo, é que eu ia dizendo ser quase impossível para essa gente marrom, herdeira dessa gente de cor que simboliza a angústia, a solidão, a tristeza, gerar pessoas tão importantes quanto você, dignas da reparação (que nem é financeira, no caso) que o Brasil também lhes deve: respeito. Respeito que precisou ser ancorado em lei para que tivesse validade, e cuja aplicação você chama de censura.

Junto com outros grandes nomes da literatura infantil brasileira, como Ana Maria Machado e Ruth Rocha, você assinou uma carta que, em defesa de Lobato e contra a censura inventada pela imprensa, diz: "Suas criações têm formado, ao longo dos anos, gerações e gerações dos melhores escritores deste país que, a partir da leitura de suas obras, viram despertar sua vocação e sentiram-se destinados, cada um a seu modo, a repetir seu destino. (...) A maravilhosa obra de Monteiro Lobato faz parte do patrimônio cultural de todos nós – crianças, adultos, alunos, professores – brasileiros de todos os credos e raças. Nenhum de nós, nem os mais vividos, têm conhecimento de que os livros de Lobato nos tenham tornado pessoas desagregadas, intolerantes ou racistas. Pelo contrário: com ele aprendemos a amar imensamente este país e a alimentar esperança em seu futuro. Ela inaugura, nos albores do século passado, nossa confiança nos destinos do Brasil e é um dos pilares das nossas melhores conquistas culturais e sociais." É isso. Nos livros de Lobato está o racismo do racista, que ninguém vê, que vocês acham que não é problema, que é alicerce, que é necessário à formação das nossas futuras gerações, do nosso futuro. E é exatamente isso. Alicerce de uma sociedade que traz o racismo tão arraigado em sua formação que não consegue manter a necessária distância do foco, a necessário distância para enxergá-lo. Perpetuar isso parece ser patriótico, esse racismo que "faz parte do patrimônio cultural de todos nós – crianças, adultos, alunos, professores – brasileiros de todos os credos e raças." Sabe o que Lobato disse em carta ao seu amigo Poti, nos albores do século passado, em 1905? Ele chamava de patriota o brasileiro que se casasse com uma italiana ou alemã, para apurar esse povo, para acabar com essa raça degenerada que você, em sua ilustração, lhe entrega de braços abertos e sorridente.

Perpetuar isso parece alimentar posições de pessoas que, mesmo não sendo ou mesmo não se achando racistas, não se percebem cometendo a atitude racista que você ilustrou tão bem: entregar essas crianças negras nos braços de quem nem queria que elas nascessem. Cada um a seu modo, a repetir seu destino. Quem é poderoso, que cobre, muito bem cobrado, seus direitos; quem não é, que sorria, entre na roda e aprenda a sambar.

Peguei-o para bode expiatório, Ziraldo? Sim, sempre tem que ter algum. E, sem ódio, espero que você não queira que eu morra por te criticar. Como faziam os racistas nos tempos em quem ainda linchavam negros. Esses abusados que não mais se calam e apelam para a lei ao serem chamados de "macaco", "carvão", "fedorento", "ladrão", "vagabundo", "coisa", "burro", e que agora querem ser tratados como gente, no concerto dos povos. Esses que, ao denunciarem e quererem se livrar do que lhes dói, tantos problemas criam aqui, nesse país do futuro. Em uma matéria do Correio Braziliense você disse que "Os americanos odeiam os negros, mas aqui nunca houve uma organização como a Ku Klux Klan. No Brasil, onde branco rico entra, preto rico também entra. Pelé nunca foi alvo de uma manifestação de ódio racial. O racismo brasileiro é de outra natureza. Nós somos afetuosos”. Se dependesse de Monteiro Lobato, o Brasil teria tido sua Ku-Klux-Klan, Ziraldo. Leia só o que ele disse em carta ao amigo Arthur Neiva, enviada de Nova Iorque em 1928, querendo macaquear os brancos norte-americanos: "Diversos amigos me dizem: Por que não escreve suas impressões? E eu respondo: Porque é inútil e seria cair no ridículo. Escrever é aparecer no tablado de um circo muito mambembe, chamado imprensa, e exibir-se diante de uma assistência de moleques feeble-minded e despidos da menos noção de seriedade. Mulatada, em suma. País de mestiços onde o branco não tem força para organizar uma Kux-Klan é país perdido para altos destinos. André Siegfred resume numa frase as duas atitudes. "Nós defendemos o front da raça branca - diz o sul - e é graças a nós que os Estados Unidos não se tornaram um segundo Brasil". Um dia se fará justiça ao Kux-Klan; tivéssemos aí uma defesa dessa ordem, que mantém o negro no seu lugar, e estaríamos hoje livres da peste da imprensa carioca - mulatinho fazendo o jogo do galego, e sempre demolidor porque a mestiçagem do negro destroem (sic) a capacidade construtiva." Fosse feita a vontade de Lobato, Ziraldo, talvez não tivéssemos a imprensa carioca, talvez não tivéssemos você. Mas temos, porque, como você também diz, "o racismo brasileiro é de outra natureza. Nós somos afetuosos." Como, para acabar com a polêmica, você nos ilustra com o desenho para o bloco quemerdense. Olho para o rosto sorridente da mulata nos braços de Monteiro Lobato e quase posso ouvi-la dizer: "Só dói quando eu rio".

Com pesar, e em retribuição ao seu afeto,

Ana Maria Gonçalves
Negra, escritora, autora de Um defeito de cor.

Carta originalmente publicada em BISCOITO FINO E A MASSA
*
Imagens: Capa do livro "Caçadas de Pedrinho", ilustrações de Paulo Borges; Ilustração do Ziraldo para o bloco carnavalesco carioca "Que merda é essa".

domingo, 6 de março de 2011

Poema Falado: O eremita

De acordo com o dicionário, eremita é aquele que vive no deserto, em lugar ermo. A opção por viver sozinho, isolado, longe do convívio social pode resultar de convicções religiosas, de auto-penitência, de misantropia, isto é, aversão ao ser humano, ou pelo simples fato de se amar a natureza e, por esta razão, desejar viver totalmente integrado a ela. Seja como for, o eremita é um buscador. Como bem definiu o escritor argentino Jorge Bucay “um buscador é alguém que busca, não necessariamente alguém que encontra; tampouco é alguém que, necessariamente, sabe o que está buscando, é simplesmente alguém para quem sua vida é uma busca”. Assim são os eremitas, eternos buscadores que estão sempre a buscar seja paz de espírito ou, simplesmente, o lilás do arco-íris. É precisamente essa a temática do Poema Falado desse mês, que marca, entre outras coisas, o início de mais um outono nos meus já adiantados dias. Boa áudio-leitura (por Sílvio Benevides).


*
Imagem: A.Z.

segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Proteja-se das ameaças virtuais

De acordo com Miriam von Zuben, analista de segurança do Centro de Estudos, Resposta e Tratamento de Incidentes (CERT.br), grupo que faz parte do CGI, é necessário ter em mente que tendo um software antivírus instalado no nosso computador, novas ameaças podem aparecer a todo momento. O problema é que, no Brasil, a maioria das pessoas ainda dizem não terem sido infectadas por algum malware. “A maioria confia muito no antivírus”, diz Zuben.

Segundo a pesquisa TIC Domicílios, realizada pelo CGI em 2010, apenas 1 em cada 7 diz utilizar um firewall, software que controla o tráfego de dados entre o computador e a rede. “Muitos esquecem que um dos primeiros cuidados é manter o sistema operacional e todos os aplicativos atualizados”, explica Zuben. Isso inclui instalar todas as atualizações de segurança disponibilizadas pelo fabricante, medida pouco adotada pelos usuários. Outra dica é instalar complementos e plug-ins de segurança no navegador, de modo a proteger o computador enquanto o internauta navega na internet. Zuben indica o complemento NoScript, disponível no Mozilla Firefox, que impede que os sites executem scripts sem a permissão do usuário.

Segundo o CERT.br, o Brasil é o país que mais hospeda páginas falsas com o objetivo de roubar dados pessoais ou bancários de internautas durante os ataques chamados de “phishing”. Em 2010, o Brasil respondeu por cerca de 35% das reclamações registradas. A equipe do CERT.br trabalha para notificar os provedores que hospedam essas páginas, de modo a tirá-las do ar.

No ano passado, o tempo médio para tirar essas páginas do ar no Brasil foi de três dias. “O ideal é que fosse ainda menos tempo”, diz Cristine Hoepers, analista de segurança do CERT.br. Enquanto a página não sai do ar, internautas ficam sujeitos a cair em golpes virtuais e terem seus dados roubados por criminosos. Para não cair nessas armadilhas, o principal é mudar a postura online. Com isso, os internautas evitam ser infectados por malwares e também cair em golpes de “phishing”. Veja abaixo as principais dicas:

- Não clique em links recebidos por e-mail ou por mensagens instantâneas, mesmo que eles venham de remetentes conhecidos;

- Não forneça dados pessoais, como e-mail, telefone, data de nascimento, em páginas na internet. Esses dados podem ajudar criminosos a preparar golpes customizados, mais difíceis de serem identificados;

- Oriente seus amigos e familiares a terem os mesmos cuidados na web que você. “Não adianta eu me proteger, se as pessoas que estão ao meu redor compartilharem informações sobre mim”, diz Hoepers;

- Crie senhas fortes, com letras e números. Quanto mais caracteres ela tiver, mais dificuldade o sistema do criminoso terá para identificá-la. “Use um trecho de música ou poema para criar a senha”, diz Zuben;

- Não reutilize senhas para fazer login em diversos sites;

- Em dispositivos móveis e computadores, evite utilizar o recurso “Lembre-se de mim” para armazenar nome de usuário e senha. Em um ataque, o sistema sempre consultará primeiro os arquivos de senhas do seu navegador (por Claudia Tozetto para o iG São Paulo).
*
Imagem: R.J.Hero – Unbreakable Botton

segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011

Gasto com transporte é igual a despesa com alimentação

O Sistema de Indicadores de Percepção Social (SIPS) sobre mobilidade urbana, divulgado nesta segunda-feira, 24, revela que 44,3% da população brasileira tem no transporte público seu principal meio de deslocamento nas cidades. Na região Sudeste, o percentual atinge 50,7%. Apesar da importância desse tipo de transporte, a quantidade de ônibus em circulação no Brasil cresceu menos, de 2000 a 2010, que a quantidade de veículos particulares. Hoje, há um ônibus para cada 427 habitantes, e, em 2000 era um para 649 pessoas. Em relação aos carros, a proporção hoje é de um automóvel para cada 5,2 habitantes, enquanto há dez anos era de 8,5.

Apresentado pelo presidente do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Marcio Pochmann, o SIPS de mobilidade urbana revela também os contrastes nos tipos de transporte de cada região brasileira. Quase 50% das pessoas que andam de ônibus no país estão na região Sudeste, enquanto 45,5% daqueles que utilizam bicicleta moram na região Nordeste. Da mesma forma, 43,4% dos utilizadores de motocicleta também estão no Nordeste.

“Houve uma mudança de ponto de vista da composição da frota. Em 2000, os automóveis eram 62,7% do total de veículos no Brasil. As motos eram 13,3%. Agora, em 2010, os automóveis são 57,5%, contra 25,2% das motos”, afirmou Pochmann. “Para cada ônibus novo surgido colocado em circulação nos últimos dez anos, apareceram 52 automóveis”, continuou o presidente do Ipea.

Um dos dados citados na apresentação do estudo, retirado da Pesquisa de Orçamento Familiar (POF), é o de crescimento dos gastos com transporte no País. Em 2000, esse tipo de serviço abocanhava 18,7% das despesas de consumo do cidadão, em média. Em 2010, chegou a 20,1%, enquanto a alimentação caiu de 21,1% para 20,2% no mesmo período.

O SIPS traz, ainda, informações preocupantes sobre a quantidade de pessoas afetadas por congestionamentos em cada região do Brasil. No geral, 69% dos cidadãos disseram que enfrentam engarrafamentos. De cada três brasileiros, dois tiveram a percepção de que a sinalização de trânsito é ruim. Em relação à segurança, 32,6% declararam que não se sentem seguros nunca ou se sentem apenas raramente no meio de transporte que mais utilizam.
Pochmann concluiu que a expansão da frota brasileira na última década se deu especialmente por meio de motos e automóveis. “Houve crescimento no transporte coletivo, mas não na mesma proporção. A população tem interesse em usar o transporte público, mas ainda precisa identificá-lo mais com características de rapidez, melhor preço e segurança. Há espaço para ação em matéria de políticas públicas”, disse (Fonte: Ipea).

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Pólvora e Poesia

Ressoa em minhas entranhas, feito o eco na imensidão, uma sonora e silenciosa canção. “Que venha, que venha a hora da paixão”. Mas do que estou a falar? Falo do desejo, essa fome insana que jamais cessa. Apetite voraz, que nos impele à ação. Apetite sensível, que agrada aos sentidos, tato, audição, paladar, olfato, visão. Desejo que atormenta quando o furor não se derrama em deleite. Desejo que alimenta o corpo e o espírito quando bocas, línguas, mãos, pernas e braços se entrelaçam sem medo, sem razão. Ó agitação de minha alma, a ti meu tesouro foi entregue! Nada mais posso fazer. Só me resta fugir para o inferno, o paraíso do meu ser.

Em filosofia, o desejo é uma tensão em direção a um fim considerado pela pessoa que deseja como uma fonte de satisfação. É uma tendência algumas vezes consciente, outras vezes inconsciente ou reprimida. Quando consciente, o desejo é uma atitude mental que acompanha a representação do fim esperado, o qual é o conteúdo mental relativo a tal atitude. Enquanto elemento apetitivo, o desejo se distingue da necessidade fisiológica ou psicológica que o acompanha por ser o elemento afetivo do respectivo estado fisiológico ou psicológico. Tradicionalmente, o desejo pressupõe carência, indigência. Um ser que não caressesse de nada não desejaria nada, seria um ser perfeito, um deus. Por isso Platão e os filósofos cristãos tomam o desejo como uma característica de seres finitos e imperfeitos. Sejamos, pois imperfeitos! E demos vivas a imperfeição! Assim viveu Arthur Rimbaud. Assim se perdeu e se achou Paul Verlaine. Ambos poetas, ambos franceses, ambos escravos do desejo e da paixão. E é precisamente sobre o desejo e a paixão que uniram Rimbaud e Verlaine que discorre o espetáculo Pólvora e Poesia, dirigido pelo sempre excelente Fernando Guerreiro e interpretado pelos magníficos Talis Castro (Arthur Rimbaud) e Caio Rodrigo (Paul Verlaine), em cartaz até o dia 20 de fevereiro no Espaço Cultural da Barroquinha.

Provocante, ousado e intenso, como provocante, ousada e intensa foi a relação amorosa de Rimbaud e Verlaine, o espetáculo suscita diversas emoções e algumas reflexões. De acordo com uma atenta espectadora, “Pólvora e Poesia é um incrível e muito forte espetáculo. Eu não tinha conhecimento da biografia de Paul Verlaine e Arthur Rimbaud além das poucas citações feitas dos seus nomes como poetas na minha época de aluna de francês. Fiquei surpresa com o que descobri e aprendi muito sobre eles com essa peça. Nunca tinha visto um espetáculo tratar uma relação amorosa homossexual de maneira tão pura e intensa, como foi mostrado. Diria que esse foi um espetáculo de muita emoção e feito com a alma! Saí satisfeita com as ótimas interpretações dos atores e admirada com o fantástico trabalho de corpo por eles apresentados. Estão de parabéns! Ótima movimentação de palco! Impressionante como eles conseguem aproveitar aquela mesa e resignificá-la! Apesar de ser um texto denso, o público fica a todo tempo atendo. São cenas surpreendentes de deixar o queixo caído e fazer com que as pessoas pensem nos seus conceitos e preconceitos. Mesmo sabendo que o momento histórico ali apresentado era outro, sabemos que os preconceitos ainda são os mesmos".
Ser reflexivo, ao menos para mim, é a principal característica de grandes espetáculos teatrais, de grandes livros e filmes. A primeira das reflexões que me ocorreram enquanto assistia ao espetáculo diz respeito, como não poderia deixar de ser, ao próprio desejo, essa força que não pode ser detida ou contida, por mais que se tente. Cedo ou tarde ele aflora e quando isso acontece, não há razão ou amarra forjada pelos códigos da tão referenciada e reverenciada civilidade que possa detê-lo. O melhor a se fazer é aprender a lidar com essa força, antes que ela vire um tormento ou uma doença, como é o caso da homofobia, por exemplo. Outra reflexão que o espetáculo suscita e a que, particularmente, me chamou mais atenção foi a questão do medo.

Verlaine era um homem bem situado na sociedade francesa do século XIX. Gozava de grande prestígio entre seus pares e, como convinha aos homens bem situados, e a todos que pretendiam ser, ele, também, era casado e pai de um filho. Tudo transcorria conforme os ditames da chamada “boa civilização” até que apareceu na vida do nobre poeta francês um furacão que atendia pelo nome de Rimbaud. Belo, jovem, audacioso, avesso às convenções e profundo admirador das poesias de Verlaine, Rimbaud o convidou a viverem juntos uma longa temporada no inferno do desejo. O estabelecido Verlaine rapidamente se converteu num outsider. Sua vida transmutou-se num furioso mar de alegria, tristeza e medo. Alegria por viver um amor intenso e libertador, que poucos têm a sorte de viver. Tristeza e medo por repudiar as consequências não desejadas que todos aqueles que ousam transgredir as regras enfrentam, isto é, desprezo, escárnio, ódio, entre outras emoções devastadoras. Ao contrário de Rimbaud, Verlaine foi um homem dividido. Não devemos julgá-lo por isso, afinal, quantos de nós evitam viver certas emoções, calam ou sufocam certos desejos e sentimentos por puro medo de ser mal entendido, mal interpretado, rejeitado ou, simplesmente, ignorado?

Como escreveu Coccinelle: “Desde crianças ouvimos conselhos que nos ensinam a ter cuidado. Cuidado com o nosso corpo, nossa alimentação, com as nossas palavras, nossos pensamentos, nossos sentimentos e desejos. Passamos a vida a ter cuidado. Mas tanto cuidado acaba abrindo caminho para o medo. Medo de doenças, da velhice, de insetos nojentos, medo do escuro, de nossas palavras, pensamentos, sentimentos, desejos, do diferente, da vida, enfim. São tantos os medos aprendidos e apreendidos ao longo de nossa existência que, por vezes, esquecemos de viver”. Esse não foi o caso de Rimbaud e Verlaine, já que eles viveram intensamente os versos de amor que escreveram juntos. Mas é o caso de muitos leitores dessas linhas, de tantos outros que, porventura, venha a ler esse texto e, de certo, daqueles que o escreveram (por Coccinelle e Sílvio Benevides com a colaboração de Gina Carla Reis).

O Salvador na sola do pé aproveita a ocasião para homenagear mais uma vez a poesia e o amor por meio dos versos O mundo é grande, do Carlos Drummond de Andrade, e Canção da torre mais alta, do Arthur Rimbaud. Trata-se do mesmo Poema Falado publicado em junho do ano passado. Boa áudio-leitura!



PÓLVORA E POESIA – Texto: Alcides Nogueira. Direção: Fernando Guerreiro. Elenco: Caio Rodrigo e Talis Castro. Assistência de direção e preparação de elenco: Hilda Nascimento. Assessoria coreográfica: Lucas Tanajura. Direção musical e guitar man: Juracy do Amor. Iluminação: Irma Vidal. Cenografia: Rodrigo Frota. Figurino: Hamilton Lima. Cabelo e maquiagem: Deo Carvalho. Produção executiva: Xanda Fontes. Espaço Cultural da Barroquinha até 20 de fevereiro.
Imagem: Maira Lins

domingo, 6 de fevereiro de 2011

Poema Falado: Elegia a uma pequena borboleta

Quando criança costumava pegar borboletas com as mãos. Segurava-as com todo o cuidado, mas mesmo assim suas asas ficavam presas aos meus dedos, e a borboleta não conseguia voltar a voar. Parei, então, de segurar borboletas com as mãos, mas sempre que as vejo fico a pensar na coragem das borboletas. Voar para tão longe com asas tão delicadas. Acho que é assim o destino de quem nasceu para ser borboleta. Não tem jeito! Quem nasceu para voar, cedo ou tarde acaba voando, mesmo que lhe cortem as asas. É impossível aprisionar o destino (por Aline Lombello). A fim de homenagear as incansáveis e corajosas borboletas, o Poema Falado de fevereiro discorre sobre as borboletas por meio do belíssimo texto da inesquecível Cecília Meireles. Esta postagem é dedicada a PAPPILLON. Boa audioleitura! E, para não dizer que não falei das flores, parabéns, querida Pappillon! Antes nunca do que tarde!!!

Como chegavas do casulo,
- inacabada seda viva! -
tuas antenas - fios soltos
da trama de que eras tecida,
e teus olhos, dois grãos da noite
de onde o teu mistério surgia,

como caíste sobre o mundo
inábil, na manhã tão clara,
sem mãe, sem guia, sem conselho,
e rolavas por uma escada
como papel, penugem, poeira,
com mais sonho e silêncio que asas,

minha mão tosca te agarrou
com uma dura, inocente culpa,
e é cinza de lua teu corpo,
meus dedos, sua sepultura.
Já desfeita e ainda palpitante,
expiras sem noção nenhuma.

Ó bordado do véu do dia,
transparente anêmona aérea!
Não leves meu rosto contigo:
leva o pranto que te celebra,
no olho precário em que te acabas,
meu remorso ajoelhado leva!

Choro a tua forma violada,
miraculosa, alva, divina,
criatura de pólen, de aragem,
diáfana pétala da vida!
Choro ter pesado em teu corpo
que no estame não pesaria.

Choro esta humana insuficiência:
_ a confusão dos nossos olhos,
- o selvagem peso do gesto,
- cegueira - ignorância - remotos
instintos súbitos - violências
que o sonho e a graça prostram mortos.

Pudesse a etéreos paraísos
ascender teu leve fantasma,
e meu coração penitente
ser a rosa desabrochada
para servir-te mel e aroma,
por toda a eternidade escrava!

E as lágrimas que por ti choro
fossem o orvalho desses campos,
- os espelhos que refletissem
_ vôo e silêncio - os teus encantos,
com a ternura humilde e o remorso
dos meus desacertos humanos!



*
Imagem: José Antônio

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Abaixo a ditadura no Egito!

Esta postagem era para ontem, mas devido ao apagão que deixou às escuras todo o Nordeste, isso não ocorreu. Ficou, então, para hoje. Como ia dizendo, eu não pretendia voltar ao tema Egito, mas como me enviaram a mensagem abaixo, eu não resisti em reproduzi-la aqui.

Jornalistas brasileiros são detidos no Egito – Enviados ao Cairo para a cobertura dos protestos no Egito, o repórter Corban Costa, da Rádio Nacional, e o repórter cinematográfico Gilvan Rocha, da TV Brasil, foram detidos, vendados e tiveram passaportes e equipamentos apreendidos na quarta-feira. Outros jornalistas estrangeiros também foram agredidos e detidos nos arredores da praça Tahrir, onde manifestantes pró e contra o presidente Hosni Mubarak se enfrentam pelo segundo dia.

De acordo com a Agência Brasil, os dois repórteres brasileiros passaram a madrugada desta quinta-feira trancados em uma delegacia do Cairo, em uma sala sem janelas e com apenas duas cadeiras e uma mesa. “É uma sensação horrível. Não se sabe o que vai acontecer. Em um primeiro momento, achei que seríamos fuzilados porque nos colocaram de frente para um paredão, mas, graças a Deus, isso não aconteceu”, afirmou Corban, que juntamente com Gilvan volta para o Brasil na sexta-feira.

Para serem liberados, os repórteres disseram ter sido obrigados a assinar um depoimento em árabe, no qual, segundo a tradução do policial, ambos confirmavam a disposição de deixar imediatamente o Egito rumo ao Brasil. “Tivemos que confiar no que ele [o policial] dizia e assinar o documento”, contou Corban.

No caminho da delegacia para o aeroporto do Cairo, Corban disse que todos os automóveis eram parados em fiscalizações policiais e os documentos dos passageiros, revistados. Os estrangeiros são obrigados a prestar esclarecimentos. De acordo com o repórter, o taxista sugeriu que ele omitisse a informação de que era jornalista. Outro jornalista brasileiro, Luiz Antônio Araujo, contou ter sido atacado e roubado por um grupo de 50 partidários do presidente Mubarak. Enviado especial do jornal “Zero Hora” e da rede RBS ao Egito, Araujo disse ter sido cercado por um grupo de pessoas munidas de pedras e facas, que roubaram sua câmera digital e sua carteira.

De acordo com o jornalista, o ataque aconteceu nesta quinta-feira, quando ele tentava entrar na praça Tahrir. Araujo contou que soldados do Exército egípcio viram o roubo, mas não esboçaram qualquer reação. No hotel onde o repórter do iG está hospedado, Ramsés Hilton, a situação não é menos tensa. Os jornalistas estão impedidos de filmar, dos seus quartos, a praça Tahrir, sob a alegação de isso pode pôr a segurança do hotel em risco. Nesta manhã, inúmeras vezes guardas do estabelecimento subiram às pressas para os quartos de onde havia câmeras operando. Eles também tentaram confiscar a câmera de vídeo de um cinegrafista inglês e pediram que esse tipo de equipamento fosse deixado na recepção para quem fica nos quartos diante da praça. Na quarta-feira, homens de terno entraram nos quartos de outros três repórteres brasileiros, da “Folha de São Paulo”, “O Globo” e “O Estado de São Paulo”, em busca de equipamento fotográfico com imagens do confronto. A direção do hotel informou que vai expulsar os hóspedes que insistirem em filmar.

O enviado especial da BBC ao Egito Rupert Wingfield-Hayes contou que na quarta-feira foi detido pela polícia secreta egípcia, algemado e vendado. Os policiais prenderam-no por três horas, interrogaram-no e depois o soltaram. A emissora Reuters Television relatou que integrantes de sua equipe foram agredidos nesta quinta-feira perto da Praça Tahrir, enquanto registravam imagens para uma reportagem sobre bancos e lojas que foram obrigadas a fechar durante os confrontos entre as duas facções. Eles teriam sido agredidos, ameaçados e xingados. Sua câmera, microfone e tripé foram destruídos.

Na quarta-feira, a veterana jornalista Christiane Amanpour, da rede ABC News, contou ter sido cercada por militantes quando tentava entrevistar um ativista pró-Mubarak, e eles teriam gritado: '”vá para o inferno”' e “nós odiamos os Estados Unidos”. O repórter da rede CNN, Anderson Cooper, disse que, ao entrar na praça, ele, um produtor e um cinegrafista foram cercados por uma multidão, que começou a socá-los e a tentar e tomar suas câmeras. A rede de TV americana CBS informou que integrantes de sua equipe foram forçados a abandonar a praça Tahrir não sem antes entregar suas câmeras sob a mira de armas por supostos militantes pró-governo. De acordo com a entidade não-governamental Comitê para a Proteção dos Jornalistas (CPJ), com sede em Nova York, essas agressões estariam diretamente ligadas à tentativas do governo egípcio de intimidar ou censurar jornalistas. “O governo egípcio está empregando uma estratégia de eliminar testemunhas de suas ações”', afirmou à agência de notícias Reuters o coordenador de Oriente Médio e África da organização, Mohamed Abdel Dayem. Segundo ele, as ações constituem “ataques deliberados contra jornalistas realizados por hordas pró-governo” (Fonte: Último Segundo).

Como é possível perceber na matéria acima, toda e qualquer ditadura persegue, cerceia liberdades, não respeita direitos, humilha, tortura e mata. Povos e nações que se dizem democráticos não podem, em hipótese alguma, ser coniventes com governos ditatoriais. Uma nação que se orgulha em defender os valores da democracia não pode, sob qualquer pretexto, aplicar um modelo democrático para seus cidadãos e um outro para os cidadãos de nações estrangeiras. Como escrevi em outra postagem, e volto a afirmar, não entendo nada ou quase nada sobre a dinâmica das relações internacionais, mas sei, ou melhor, imagino que o respeito pela ética e pela dignidade humana não são os valores que as norteiam. Por isso, acredito que a comunidade internacional que defende os valores democráticos como princípios primordiais para a convivência harmoniosa entre os povos e os seres humanos deve pressionar, veementemente, o Egito até que déspota Hosni Mubarak renuncie. E não basta “aumentar o tom” do discurso ou “condenar” as atitudes do governo. Os ditadores não se intimidam com esse tipo de mise-en-scène. É preciso por em prática atitudes concretas como retirar o apoio político e econômico ou mesmo romper formalmente com as relações diplomáticas. Se são os valores democráticos que estão em jogo, então, façamos, de fato, a sua defesa. Que Allah dê força a essa gente farta de autoritarismo e faça soprar novos ventos sobre o mundo árabe-mulçumano, reduzindo a pó todos os seus desnecessários e vis ditadores (por Sílvio Benevides).
*
Imagem: Khalil Hamra/AP

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Dois de Fevereiro: dia de Iemanjá

Conta a tradição dos povos iorubás (atual Nigéria), que Iemanjá era a filha de Olokum, deus do mar. Em Ifé, tornou-se a esposa de Olofin-Odudua, com o qual teve dez filhos, todos orixás. De tanto amamentar seus filhos, os seios de Iemanjá tornaram-se imensos. Cansada da sua estadia em Ifé, Iemanjá fugiu na direção do “entardecer-da-terra”, como os iorubas designam o Oeste, chegando a Abeokutá. Iemanjá continuava muito bonita. Okerê propôs-lhe casamento. Ela aceitou com a condição que ele jamais ridicularizasse a imensidão dos seus seios. Um dia, Okerê voltou para casa bêbado. Tropeçou em Iemanjá, que lhe chamou de bêbado imprestável. Okerê então gritou: “Você, com esses peitos compridos e balançantes!” Ofendida, Iemanjá fugiu. Okerê colocou seus guerreiros em perseguição e Iemanjá, vendo-se cercada, lembrou que tinha recebido de Olokum uma garrafa, com a recomendação que só abrisse em caso de necessidade. Iemanjá tropeçou e esta quebrou-se, nascendo um rio de águas tumultuadas, que levaram Iemanjá em direção ao oceano, residência de Olokum. Okerê tentou impedir a fuga de sua mulher e se transformou numa colina. Iemanjá, vendo bloqueado seu caminho, chamou Xangô, o mais poderoso dos seus filhos, que lançou um raio sobre a colina Okerê, que abriu-se em duas, dando passagem para Iemanjá, que foi para o mar, ao encontro de Olokum. Iemanjá usa roupas cobertas de pérola, tem filhos no mundo inteiro e está em todo lugar onde chega o mar. Seus filhos fazem oferendas para acalmá-la e agradá-la. Iemanjá, Odô Iyá (rainha das águas), nunca mais voltou para a terra. Ainda existe, na Nigéria, uma colina dividida em duas, de nome Okerê, que dá passagem ao rio Ogun, que corre para o oceano (Fonte: Portal do Rio Vermelho).

Para homenagear a Rainha do Mar, o Salvador na sola do pé preparou um Poema Falado especial, intitulado Flor à Iemanjá, de Augusto Barros. Diz o poema: “Os meus pés não sentem mais o chão / Já não afundam como antes / Apenas sigo adiante ao fundo / Embalado pelo ritmo de sua canção // A melodia do azul das ondas / Quando se confunde com o bege / Gritando em brancas espumas / Faz com que eu, por hora, suma // E o maestro que rege / Esta orquestra dessincronizada / Já não habita aqui há tempos... / Tudo, então, como queiram os ventos // Nessa confusão de cores e sons / O mar invade cada vez mais o meu corpo / Por dentro e por fora... / E assim deixo // Deixo porque agora / Descobri que somente sendo / Inteiramente seu / Sou inteiramente meu” (In: Poesias do Augusto). Salve Iemanjá! Odô Iyá!




Imagem: Sereia brasileira, por Flaviana Fernandes