domingo, 7 de novembro de 2010

Poema Falado: Se eu morresse amanhã

Não é a primeira vez que o tema morte aparece nesse espaço. Como já foi dito em outra ocasião, morrer é um verbo intransitivo que denota perda da vida, da existência. Para uns morrer é o fim, conforme definiu Heidegger ao escrever que a morte é a “nulidade possível das possibilidades do homem e de toda forma do homem”. Para outros, porém, morrer significa renascer para outra vida, como a borboleta renasce quando morre o casulo, a semente ao germinar a árvore ou o ovo ao romper-se em ave. Seja como for, ninguém é indiferente à morte, a única e inexorável certeza de nossas existências. No mês em que se homenageiam todos aqueles que se foram e deixaram profundas saudades, o Poema Falado trás o texto “Se eu morresse amanhã”, escrito por Álvares de Azevedo: “Se eu morresse amanhã, viria ao menos / Fechar meus olhos minha triste irmã; / Minha mãe de saudades morreria / Se eu morresse amanhã! /Quanta glória pressinto em meu futuro! / Que aurora de porvir e que manhã! / Eu perdera chorando essas coroas / Se eu morresse amanhã! / Que sol! que céu azul! que dove n'alva / Acorda a natureza mais loucã! / Não me batera tanto amor no peito / Se eu morresse amanhã! / Mas essa dor da vida que devora / A ânsia de glória, o dolorido afã... / A dor no peito emudecera ao menos / Se eu morresse amanhã”. Característico do período romântico, o texto é dito pelo saudoso Paulo Autran e vem acompanhado da maravilhosa música do André Sperling, Tristes Dias. Boa leitura audiovisual (por Sílvio Benevides).
*


*
Imagem: Differences, by Nishant Nischal

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Dilma Rousseff eleita presidente do Brasil

O Brasil elegeu ontem, 31 de outubro de 2010, a primeira mulher presidente: Dilma Rousseff, que venceu a disputa eleitoral com 56,05% dos votos válidos. Seu adversário do PSDB, José Serra, teve 43,95%.

Dilma Rousseff afirmou em seu primeiro pronunciamento como presidente eleita que fará um governo com foco na erradicação da pobreza, no fortalecimento da economia nacional e não poupará esforços para desencadear uma reforma política que eleve os valores republicanos. A nova presidente do Brasil abriu seu discurso assumindo o compromisso de “honrar as mulheres brasileiras, para que este fato, até hoje inédito, se transforme num evento natural”, afirmou.

No decorrer do seu pronunciamento, Dilma Rousseff fez questão de frisar que o compromisso fundamental do seu governo será a erradicação da miséria e a criação de oportunidades para todos os brasileiros. “Ressalto, entretanto, que esta ambiciosa meta não será realizada pela vontade do governo. Ela é um chamado à nação, aos empresários, às igrejas, às entidades civis, às universidades, à imprensa, aos governadores, aos prefeitos e a todas as pessoas de bem. Não podemos descansar enquanto houver brasileiros com fome, enquanto houver famílias morando nas ruas, enquanto crianças pobres estiverem abandonadas à própria sorte. A erradicação da miséria nos próximos anos é, assim, uma meta que assumo, mas para a qual peço humildemente o apoio de todos que possam ajudar o país no trabalho de superar esse abismo que ainda nos separa de ser uma nação desenvolvida”, enfatizou.

A presidente também discorreu sobre sua relação com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva durante o período em que esteve à frente do Ministério de Minas e Energia e, posteriormente, da Casa Civil. “Ter a honra de seu apoio, ter o privilégio de sua convivência, ter aprendido com sua imensa sabedoria, são coisas que se guarda para a vida toda. Conviver durante todos estes anos com ele me deu a exata dimensão do governante justo e do líder apaixonado por seu país e por sua gente. A alegria que sinto pela minha vitória se mistura com a emoção da sua despedida. Sei que um líder como Lula nunca estará longe de seu povo e de cada um de nós. Baterei muito a sua porta e, tenho certeza, que a encontrarei sempre aberta”, finalizou.

Mas o momento mais contagiante do pronunciamento da Dilma Rousseff foi quando ela fez menção ao seu passado de luta contra a ditadura militar. “Quem, como eu e tantos outros que não estão mais entre nós, dedicamos toda nossa juventude ao direito de expressão, nós somos naturalmente amantes da liberdade [...] Disse e repito que prefiro o barulho da imprensa livre ao silêncio das ditaduras”. Espero que os imbecis de plantão guardem bem essas palavras e parem, de uma vez por todos, de depreciar nossa história, nossa gente e nossa democracia, comparando-a a aberrações como o nazismo. Que o Brasil e todo o seu povo tenham sido os grandes vitoriosos desse processo eleitoral que ontem se encerrou e que continuem a ser os vencedores ao longo dos quatro anos que estão por vir, afinal, como escreveu o filósofo grego Aristóteles, um governo exercido de forma apropriada é aquele cujas ações visam o bem comum, isto é, que promovem o bem-estar de todos os membros da comunidade, permitindo-lhes exercer seus potenciais próprios e, também, viver uma vida virtuosa, plena de realizações. É isso que espero do governo da primeira mulher eleita presidente do Brasil (por Sílvio Benevides).
*
Imagem: Roberto Stuckert Filho

Adeus não! Até breve?!

Em seu pronunciamento após a divulgação oficial do resultado das eleições, o candidato derrotado José Serra (PSDB) declarou: “Minha mensagem de despedida nesse momento não é um adeus, mas um até logo. A luta continua, viva o Brasil”. Que a luta continua, não nos resta a menor dúvida. Para o bem da sociedade brasileira e para nossa democracia é bom que ela jamais cesse. Entretanto, tudo indica que o até logo do Serra é tão provável quanto a seleção haitiana de futebol se consagrar campeã na Copa de 2014.

Ser derrotado em uma eleição não significa, necessariamente, dizer adeus à política profissional. Na história da nossa República existem exemplos que comprovam essa premissa. O mais notório deles, sem dúvida, é o próprio Lula, que se elegeu presidente após três derrotas eleitorais consecutivas. Contudo, no caso do Serra os caminhos a trilhar pelo partido deverão ser outros, caso o PSDB queira, de fato, continuar lutando.

A campanha feita pelo PSDB foi uma das mais grotescas, talvez, a mais grotesca, da história política do Brasil. Ao optar pelas baixarias de toda espécie e aos ataques pessoais sem nenhum fundamento, o partido deu um tiro no próprio pé. Para quem assistia o horário eleitoral, parecia que o PSDB não tinha nenhuma proposta para apresentar ao país. A imagem era a de um partido vazio de ideias e ideais políticos. Ademais, ao ignorar o papel do Fernando Henrique Cardoso na história política do Brasil, o PSDB deixou a impressão que uma prática muito comum no partido é cuspir no prato no qual se como e se comeu. Um vexame!

Como se não bastasse tudo isso, novas lideranças despontam como forças importantes dentro e fora do partido, a exemplo do Aécio Neves e do Beto Richa, conforme escreveram os jornalistas Catia Seabra e Breno Costa para o Folhapress: “Sem enfrentar resistência de um Geraldo Alckmim mergulhado no governo de São Paulo, Aécio trabalhará para atrair tucanos. Na última sexta, logo após o debate da Globo, Aécio fez uma avaliação sobre a campanha do Serra: “Não se faz campanha sem emoção”. Outro tucano que desponta no cenário nacional, o governador eleito do Paraná, Beto Richa, se dedicará à tarefa de administrar o Estado. Para evitar uma crise no calor da eleição, a escolha do novo presidente do PSDB foi adiada em seis meses, de novembro para maio de 2011. Além da chamada despaulistanização, o partido discutirá a reconstrução da sua imagem”.

Espero que a lição tenha sido aprendida e apreendida. O marketing político, tão ovacionado nas eleições contemporâneas, nada mais é do que um mero meio e, não, um fim, pois política se faz com ideias e ideais, ou seja, com convicções, como bem disse o Fernando Henrique Cardoso em entrevista à Isto é nº 2130: “O que é política? É você ter convicções e tentar fazer que os outros tenham as mesmas que você. Veja o que aconteceu no caso do Obama. Quem tinha os recursos, a máquina toda, era a Hillary, mas ele sintonizou com o país em dado momento. O Lula também está sintonizado neste momento”. Perguntado se a “marquetagem” atrapalha, não teve dúvida. “Atrapalha. O povo não te pega. Por exemplo, eles (os profissionais de marketing) fizeram o Lula ficar calado um ano, no início do governo, para não dizer bobagem. Quando o Lula começou a falar, ele ganhou. Estamos fazendo campanhas engessadas”. O recado está dado pelo Fernando Henrique Cardoso e pelos eleitores do Brasil. Da próxima vez, esperamos mais convicções e nenhuma baixaria (por Sílvio Benevides).
*
Imagem: NANI

Vitória e derrota deixam lições para a cidadania

Dizem os reflexivos que a derrota ensina mais que a vitória. Desconte-se o caráter de compensação desta idéia, pois a verdade é que a eleição concluída ontem deixa muitas lições tanto para a vencedora Dilma Rousseff, quanto para o derrotado José Serra. Representantes dos respectivos projetos políticos do PT e do PSDB, Dilma e Serra terão perdido uma grande oportunidade de impulsionar o crescimento, em todos os sentidos, do Brasil se fecharem os ouvidos aos recados das urnas: o eleitor não quer que se anulem as diferenças entre o vencedor e o derrotado, mas não aceita que o país seja objeto de personalismos e de cisões religiosa, moral ou mesmo ideológica.

“Agora, a gente vai testar melhor ainda a nossa capacidade de se reunir em torno do projeto e não em torno de uma pessoa”, traduziu o governador Jacques Wagner (PT) a grande missão do seu partido. “Esta é a missão mais importante da minha vida”, proclamou a primeira mulher presidente do Brasil em seu pronunciamento (ver na íntegra abaixo) após o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) confirmar a vitória. “Que este fato inédito se torne natural”, assinalou Dilma.

Os oposicionistas elegeram onze governadores. Só o PSDB elegeu oito governadores nos dois turnos. Serra promete uma oposição qualificada, mas não esconde propósitos e anuncia o início de “uma luta de verdade”. Que ambos, vencedora e derrotado, tenham consciência das suas graves responsabilidades. Assim, como o povo baiano que ontem foi para as ruas comemorar, mas que a partir de hoje já espera para seus grandes problemas respostas equivalentes à expressiva vitória, de 70,85% dos votos, que concedeu à primeira presidente do Brasil (por Adilson Borges para o A Tarde).
*
Imagem: Lula e Dilma Rousseff por SIMANCA.

Íntegra do pronunciamento da presidente eleita Dilma Rousseff

Minhas amigas e meus amigos de todo o Brasil,

É imensa a minha alegria de estar aqui. Recebi hoje de milhões de brasileiras e brasileiros a missão mais importante de minha vida. Este fato, para além de minha pessoa, é uma demonstração do avanço democrático do nosso país: pela primeira vez uma mulher presidirá o Brasil. Já registro portanto aqui meu primeiro compromisso após a eleição: honrar as mulheres brasileiras, para que este fato, até hoje inédito, se transforme num evento natural. E que ele possa se repetir e se ampliar nas empresas, nas instituições civis, nas entidades representativas de toda nossa sociedade.

A igualdade de oportunidades para homens e mulheres é um principio essencial da democracia. Gostaria muito que os pais e mães de meninas olhassem hoje nos olhos delas, e lhes dissessem: SIM, a mulher pode! Minha alegria é ainda maior pelo fato de que a presença de uma mulher na presidência da República se dá pelo caminho sagrado do voto, da decisão democrática do eleitor, do exercício mais elevado da cidadania. Por isso, registro aqui outro compromisso com meu país:

- Valorizar a democracia em toda sua dimensão, desde o direito de opinião e expressão até os direitos essenciais da alimentação, do emprego e da renda, da moradia digna e da paz social.

- Zelarei pela mais ampla e irrestrita liberdade de imprensa.

- Zelarei pela mais ampla liberdade religiosa e de culto.

- Zelarei pela observação criteriosa e permanente dos direitos humanos tão claramente consagrados em nossa constituição.

- Zelarei, enfim, pela nossa Constituição, dever maior da presidência da República.

Nesta longa jornada que me trouxe aqui pude falar e visitar todas as nossas regiões. O que mais me deu esperanças foi a capacidade imensa do nosso povo, de agarrar uma oportunidade, por mais singela que seja, e com ela construir um mundo melhor para sua família. É simplesmente incrível a capacidade de criar e empreender do nosso povo. Por isso, reforço aqui meu compromisso fundamental: a erradicação da miséria e a criação de oportunidades para todos os brasileiros e brasileiras.

Ressalto, entretanto, que esta ambiciosa meta não será realizada pela vontade do governo. Ela é um chamado à nação, aos empresários, às igrejas, às entidades civis, às universidades, à imprensa, aos governadores, aos prefeitos e a todas as pessoas de bem.
Não podemos descansar enquanto houver brasileiros com fome, enquanto houver famílias morando nas ruas, enquanto crianças pobres estiverem abandonadas à própria sorte. A erradicação da miséria nos próximos anos é, assim, uma meta que assumo, mas para a qual peço humildemente o apoio de todos que possam ajudar o país no trabalho de superar esse abismo que ainda nos separa de ser uma nação desenvolvida.

O Brasil é uma terra generosa e sempre devolverá em dobro cada semente que for plantada com mão amorosa e olhar para o futuro. Minha convicção de assumir a meta de erradicar a miséria vem, não de uma certeza teórica, mas da experiência viva do nosso governo, no qual uma imensa mobilidade social se realizou, tornando hoje possível um sonho que sempre pareceu impossível.

Reconheço que teremos um duro trabalho para qualificar o nosso desenvolvimento econômico. Essa nova era de prosperidade criada pela genialidade do presidente Lula e pela força do povo e de nossos empreendedores encontra seu momento de maior potencial numa época em que a economia das grandes nações se encontra abalada.

No curto prazo, não contaremos com a pujança das economias desenvolvidas para impulsionar nosso crescimento. Por isso, se tornam ainda mais importantes nossas próprias políticas, nosso próprio mercado, nossa própria poupança e nossas próprias decisões econômicas.

Longe de dizer, com isso, que pretendamos fechar o país ao mundo. Muito ao contrário, continuaremos propugnando pela ampla abertura das relações comerciais e pelo fim do protecionismo dos países ricos, que impede as nações pobres de realizar plenamente suas vocações.

Mas é preciso reconhecer que teremos grandes responsabilidades num mundo que enfrenta ainda os efeitos de uma crise financeira de grandes proporções e que se socorre de mecanismos nem sempre adequados, nem sempre equilibrados, para a retomada do crescimento.

É preciso, no plano multilateral, estabelecer regras mais claras e mais cuidadosas para a retomada dos mercados de financiamento, limitando a alavancagem e a especulação desmedida, que aumentam a volatilidade dos capitais e das moedas. Atuaremos firmemente nos fóruns internacionais com este objetivo.

Cuidaremos de nossa economia com toda responsabilidade. O povo brasileiro não aceita mais a inflação como solução irresponsável para eventuais desequilíbrios. O povo brasileiro não aceita que governos gastem acima do que seja sustentável. Por isso, faremos todos os esforços pela melhoria da qualidade do gasto público, pela simplificação e atenuação da tributação e pela qualificação dos serviços públicos. Mas recusamos as visões de ajustes que recaem sobre os programas sociais, os serviços essenciais à população e os necessários investimentos.

Sim, buscaremos o desenvolvimento de longo prazo, a taxas elevadas, social e ambientalmente sustentáveis. Para isso zelaremos pela poupança pública. Zelaremos pela meritocracia no funcionalismo e pela excelência do serviço público. Zelarei pelo aperfeiçoamento de todos os mecanismos que liberem a capacidade empreendedora de nosso empresariado e de nosso povo. Valorizarei o Micro Empreendedor Individual, para formalizar milhões de negócios individuais ou familiares, ampliarei os limites do Supersimples e construirei modernos mecanismos de aperfeiçoamento econômico, como fez nosso governo na construção civil, no setor elétrico, na lei de recuperação de empresas, entre outros. As agências reguladoras terão todo respaldo para atuar com determinação e autonomia, voltadas para a promoção da inovação, da saudável concorrência e da efetividade dos setores regulados.

Apresentaremos sempre com clareza nossos planos de ação governamental. Levaremos ao debate público as grandes questões nacionais. Trataremos sempre com transparência nossas metas, nossos resultados, nossas dificuldades. Mas acima de tudo quero reafirmar nosso compromisso com a estabilidade da economia e das regras econômicas, dos contratos firmados e das conquistas estabelecidas.

Trataremos os recursos provenientes de nossas riquezas sempre com pensamento de longo prazo. Por isso trabalharei no Congresso pela aprovação do Fundo Social do Pré-Sal. Por meio dele queremos realizar muitos de nossos objetivos sociais. Recusaremos o gasto efêmero que deixa para as futuras gerações apenas as dívidas e a desesperança. O Fundo Social é mecanismo de poupança de longo prazo, para apoiar as atuais e futuras gerações. Ele é o mais importante fruto do novo modelo que propusemos para a exploração do pré-sal, que reserva à Nação e ao povo a parcela mais importante dessas riquezas. Definitivamente, não alienaremos nossas riquezas para deixar ao povo só migalhas. Me comprometi nesta campanha com a qualificação da Educação e dos Serviços de Saúde. Me comprometi também com a melhoria da segurança pública. Com o combate às drogas que infelicitam nossas famílias.

Reafirmo aqui estes compromissos. Nomearei ministros e equipes de primeira qualidade para realizar esses objetivos. Mas acompanharei pessoalmente estas áreas capitais para o desenvolvimento de nosso povo. A visão moderna do desenvolvimento econômico é aquela que valoriza o trabalhador e sua família, o cidadão e sua comunidade, oferecendo acesso a educação e saúde de qualidade. É aquela que convive com o meio ambiente sem agredi-lo e sem criar passivos maiores que as conquistas do próprio desenvolvimento.

Não pretendo me estender aqui, neste primeiro pronunciamento ao país, mas quero registrar que todos os compromissos que assumi, perseguirei de forma dedicada e carinhosa. Disse na campanha que os mais necessitados, as crianças, os jovens, as pessoas com deficiência, o trabalhador desempregado, o idoso teriam toda minha atenção. Reafirmo aqui este compromisso.

Fui eleita com uma coligação de dez partidos e com apoio de lideranças de vários outros partidos. Vou com eles construir um governo onde a capacidade profissional, a liderança e a disposição de servir ao país será o critério fundamental. Vou valorizar os quadros profissionais da administração pública, independente de filiação partidária.

Dirijo-me também aos partidos de oposição e aos setores da sociedade que não estiveram conosco nesta caminhada. Estendo minha mão a eles. De minha parte não haverá discriminação, privilégios ou compadrio.

A partir de minha posse serei presidenta de todos os brasileiros e brasileiras, respeitando as diferenças de opinião, de crença e de orientação política. Nosso país precisa ainda melhorar a conduta e a qualidade da política. Quero empenhar-me, junto com todos os partidos, numa reforma política que eleve os valores republicanos, avançando em nossa jovem democracia.

Ao mesmo tempo, afirmo com clareza que valorizarei a transparência na administração pública. Não haverá compromisso com o erro, o desvio e o malfeito. Serei rígida na defesa do interesse público em todos os níveis de meu governo. Os órgãos de controle e de fiscalização trabalharão com meu respaldo, sem jamais perseguir adversários ou proteger amigos.

Deixei para o final os meus agradecimentos, pois quero destacá-los. Primeiro, ao povo que me dedicou seu apoio. Serei eternamente grata pela oportunidade única de servir ao meu país no seu mais alto posto. Prometo devolver em dobro todo o carinho recebido, em todos os lugares que passei. Mas agradeço respeitosamente também aqueles que votaram no primeiro e no segundo turno em outros candidatos ou candidatas. Eles também fizeram valer a festa da democracia.

Agradeço as lideranças partidárias que me apoiaram e comandaram esta jornada, meus assessores, minhas equipes de trabalho e todos os que dedicaram meses inteiros a esse árduo trabalho. Agradeço a imprensa brasileira e estrangeira que aqui atua e cada um de seus profissionais pela cobertura do processo eleitoral.

Não nego a vocês que, por vezes, algumas das coisas difundidas me deixaram triste. Mas quem, como eu, lutou pela democracia e pelo direito de livre opinião arriscando a vida; quem, como eu e tantos outros que não estão mais entre nós, dedicamos toda nossa juventude ao direito de expressão, nós somos naturalmente amantes da liberdade. Por isso, não carregarei nenhum ressentimento. Disse e repito que prefiro o barulho da imprensa livre ao silêncio das ditaduras. As criticas do jornalismo livre ajudam ao pais e são essenciais aos governos democráticos, apontando erros e trazendo o necessário contraditório.

Agradeço muito especialmente ao presidente Lula. Ter a honra de seu apoio, ter o privilégio de sua convivência, ter aprendido com sua imensa sabedoria, são coisas que se guarda para a vida toda. Conviver durante todos estes anos com ele me deu a exata dimensão do governante justo e do líder apaixonado por seu pais e por sua gente. A alegria que sinto pela minha vitória se mistura com a emoção da sua despedida. Sei que um líder como Lula nunca estará longe de seu povo e de cada um de nós. Baterei muito a sua porta e, tenho certeza, que a encontrarei sempre aberta. Sei que a distância de um cargo nada significa para um homem de tamanha grandeza e generosidade. A tarefa de sucedê-lo é difícil e desafiadora. Mas saberei honrar seu legado. Saberei consolidar e avançar sua obra. Aprendi com ele que quando se governa pensando no interesse público e nos mais necessitados uma imensa força brota do nosso povo. Uma força que leva o país para frente e ajuda a vencer os maiores desafios.

Passada a eleição agora é hora de trabalho. Passado o debate de projetos agora é hora de união. União pela educação, união pelo desenvolvimento, união pelo país. Junto comigo foram eleitos novos governadores, deputados, senadores. Ao parabenizá-los, convido a todos, independente de cor partidária, para uma ação determinada pelo futuro de nosso país. Sempre com a convicção de que a Nação Brasileira será exatamente do tamanho daquilo que, juntos, fizermos por ela. Muito obrigada (por Dilma Rousseff, Presidente do Brasil)!
*
Imagem: Pronunciamento de Dilma Rousseff em 31.10.2010 - por Ichiro Guerra.

Quem?

Desconfio de que já contei esta história em crônica muito antiga, mas de forma incompleta. Agora, com a proximidade das eleições, acredito que ela deva ser relembrada. O escritor Álvaro Lins foi editorialista do “Correio da Manhã”, chefe da Casa Civil na Presidência de JK e embaixador em Portugal, onde, aliás, criou um caso internacional dando asilo a um adversário do regime salazarista. Muitos o consideram o crítico literário mais completo do Brasil. Sua entrada na Academia Brasileira de Letras foi uma noite memorável, pois chegou atrasado duas horas para a cerimônia.

Em Lisboa, ele decidiu visitar a Suíça, sendo ali recebido com todas as honras. Na manhã do seu primeiro dia em Genebra, depois de ler os jornais locais, deu um giro pela cidade em companhia de um funcionário do governo. Andou pelas ruas, de carro e a pé. Em dado momento, comentou: “Li nos jornais que hoje é dia de eleições gerais. Mas não estou vendo nenhum movimento especial, nenhuma fila, nenhum posto eleitora”. O funcionário explicou: “Senhor embaixador, hoje, realmente, é dia de eleições gerais, e elas estão se processando normalmente”.

“Mas como? Não vejo nenhum movimento… nenhuma fila… parece um dia qualquer. “Não precisamos de filas. Cada quarteirão tem uma urna em local determinado. O eleitor chega e deposita sua cédula. À meia-noite, as urnas são recolhidas e, no dia seguinte, o resultado é proclamado.”

Álvaro Lins ouviu, abaixou a cabeça, pensou um pouco e perguntou: “Mas digamos… um eleitor pode depositar na mesma urna ou em outras muitas cédulas de um só candidato, dez, vinte… cem… e aí como é que fica?” Foi a vez de o funcionário suíço ficar espantado: “Mas senhor embaixador, QUEM faria isso?” ( por Carlos Heitor Cony para Folha de S. Paulo, 30.09.10)
*
Imagem: Anjo Palhaço, por DDi Arte.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

Onde vamos parar com tanta violência?

Não é novidade para ninguém que a violência se tornou um dos mais graves problemas das sociedades contemporâneas. A sensação de medo e insegurança aumenta a cada dia. No Brasil, por exemplo, é muito comum ouvir relatos de pessoas que já sofreram ou presenciaram atos de violência seja em casa, na rua, na escola, no trabalho ou nos espaços reservados para o lazer.

Como se já não bastassem as velhas e tão conhecidas formas de violência contra a pessoa humana, novas modalidades estão a surgir, sobretudo, nos grandes centros urbanos do mundo, graças ao desenvolvimento tecnológico, que tem possibilitado a criação de armas muito sofisticadas e de altíssima periculosidade como fitinhas feitas com papel crepom, confetes, serpentinas, rolinhos de fita adesiva, copinhos de plástico e bolinhas de papel, entre outros armamentos com enorme potencial destrutivo.

Dos Estados Unidos nos chegam relatos sobre serial killers que têm utilizado fitinhas feitas com papel crepom para estrangular suas vítimas. A gravidade da situação levou o Congresso estadunidense a discutir um projeto de lei que visa dificultar a venda desse tipo de material. Do outro lado do Atlântico, na Espanha, o governo proibiu o uso de confetes e serpentinas após uma série de atentados praticados com esses perigosos artefatos em diversos prédios públicos de Barcelona e Madrid. Desconfia-se que grupos separatistas sejam os responsáveis por esses atos criminosos, mas nenhum deles, até hoje, assumiu a autoria desses atentados. O fato é que os espanhóis estão em pânico, pois nunca se sabe quando os terroristas voltarão a atacar.

Em Angola, país da costa ocidental africana, um estudante de 15 anos foi internado em estado grave após ter pisado acidentalmente em uma mina confeccionada com rolinho de fita adesiva. Apesar de o jovem ter sobrevivido, sua perna esquerda teve de ser amputada. Enquanto em Angola os rolinhos de fita adesiva mutilam milhares de pessoas, no Zimbabwe, país da África Austral, os copinhos de plástico são o problema. Na última semana uma mulher foi presa após ter atingido mortalmente a cabeça do seu marido com um copinho de plástico transparente. As autoridades policiais do país revelaram que é cada vez maior o número de homicídios praticados com copos plásticos de todas as cores. Por esse motivo, o governo local proibiu a fabricação e importação dessa perigosa arma, considerada por muitos especialistas como armas de destruição em massa.

No Brasil, tudo leva a crer que bolinhas de papel são as responsáveis pela drástica redução da população de tucanos. Estas aves bicudas ao serem atingidas pelas tais bolinhas costumam sofrer um forte abalo sísmico. A tontura que as acomete pode levá-las à morte em poucos minutos. Felizmente, os avanços na medicina veterinária têm possibilitado novos tratamentos à base de tomografia computadorizada, que permite uma sobrevida maior aos penosos bichinhos. Espero que o governo brasileiro não fique de braços cruzados frente à tão grave fato. Por enquanto, são apenas os tucanos os atingidos. E quando as bolinhas passarem a atingir cidadãos de bem, como é que vai ficar? Essa nova modalidade de violência precisa ser severamente combatida antes que seja preciso convocar as forças armadas para que os brasileiros possam caminhar em paz pelas ruas de suas cidades sem correr o risco de serem abatidos por uma bolinha de papel perdida (por Sílvio Benevides).
*
Imagem: Charge do NANI.

Em defesa do laicismo do Estado brasileiro

Uma democracia forte exige que o Estado seja autônomo, isto é, suas ações e decisões não podem estar subordinadas a interesses particularistas ou individuais. O Estado é uma instituição que representa a coletividade, a sociedade. Deste modo, os interesses da sociedade, assim como os valores que ela defende, devem ser a prioridade e os princípios norteadores do Estado. Se, por exemplo, a sociedade defende os Direitos Humanos como um valor supremo, o Estado deve tratar esse valor da mesma maneira. Por isso, o Estado deve ser laico e esse laicismo é fundamental para a construção e fortalecimento da democracia. Semana passada o Salvador na sola do pé discutiu essa questão na postagem “Que país é esse”. Nesta semana, volta ao mesmo tema, divulgando a Carta aberta da ABGLT às candidaturas de Dilma Roussef e José Serra, para demonstrar a importância do laicismo para a edificação de uma sociedade mais justa, mais plena e menos violenta. Diz a carta:
Prezada Dilma e Prezado Serra,

A Associação Brasileira de Gays, Lésbicas, Bissexuais, Travestis e Transexuais – ABGLT é uma entidade que congrega 237 organizações da sociedade civil em todos Estados do Brasil. Tem como missão a promoção da cidadania e defesa dos direitos de lésbicas, gays, bissexuais, travestis e transexuais, contribuindo para a construção de uma democracia sem quaisquer formas de discriminação, afirmando a livre orientação sexual e identidades de gênero.

Assim sendo, nos dirigimos a ambas as candidaturas à Presidência da República para pedir respeito: respeito à democracia, respeito à cidadania de todos e de todas, respeito à diversidade sexual, respeito à pluralidade cultural e religiosa.

Respeito aos direitos humanos e, principalmente, respeito ao laicismo do Estado, à separação entre religião e esfera pública, e à garantia da divisão dos Poderes, de tal modo que o Executivo não interfira no Legislativo ou Judiciário, e vice-versa, conforme estabelece o artigo 2º da Constituição Federal: “São Poderes da União, independentes e harmônicos entre si, o Legislativo, o Executivo e o Judiciário.”

Nos últimos dias, temos assistido, perplexos, à instrumentalização de sentimentos religiosos e concepções moralistas na disputa eleitoral.

Não é aceitável que o preconceito, o machismo e a homofobia sejam estimulados por discursos de alguns grupos fundamentalistas e ganhem espaço privilegiado em plena campanha presidencial.

O Estado brasileiro é laico. O avanço da democracia brasileira é que tem nos permitido pautar, nos últimos anos, os direitos civis dos homossexuais e combater a homofobia. Também tem nos permitido realizar a promoção da autonomia das mulheres e combater o machismo, entre os demais avanços alcançados. O progresso não pode parar.

Por isso, causa extrema preocupação constatar a tentativa de utilização da fé de milhões de brasileiros e brasileiras para influir no resultado das eleições presidenciais que vivenciamos. Nos últimos dias, ficou clara a inescrupulosa disposição de determinados grupos conservadores da sociedade a disseminar o ódio na política em nome de supostos valores religiosos. Não podemos aceitar esta tentativa de utilização do medo como orientador de nossos processos políticos. Não podemos aceitar que nosso processo eleitoral seja confundido com uma escolha de posicionamentos religiosos de candidatos e eleitores. Não podemos aceitar que estimulem o ódio entre nosso povo.

O que o movimento LGBT e o movimento de mulheres defendem é apenas e tão somente o respeito à democracia, aos direitos civis, à autonomia individual. Queremos ter o direito à igualdade proclamada pela Constituição Federal, queremos ter nossos direitos civis, queremos o reconhecimento dos nossos direitos humanos. Nossa pauta passa, portanto, entre outras questões, pelo imediato reconhecimento da união estável entre pessoas do mesmo sexo e pela criminalização da discriminação e da violência homofóbica.

Cara Dilma e Caro Serra, por favor, voltem a conduzir o debate para o campo das ideias e do confronto programático, sem ataques pessoais, sem alimentar intrigas e boatos.

Nós da ABGLT sabemos que o núcleo das diferenças entre vocês (e entre PT e PSDB) não está na defesa dos direitos da população LGBT ou na visão de que o aborto é um problema de saúde pública.

Candidato Serra: o senhor, como ministro da saúde, implantou uma política progressista de combate à epidemia do HIV/Aids e normatizou o aborto legal no SUS. Aquele governo federal que o senhor integrou também elaborou os Programas Nacionais de Direitos Humanos I e II, que já contemplavam questões dos direitos humanos das pessoas LGBT. Como prefeito e governador, o senhor criou as Coordenadorias da Diversidade Sexual, esteve na Parada LGBT de São Paulo e apoiou diversas iniciativas em favor da população LGBT.

Candidata Dilma: a senhora ajudou a coordenar o governo que mais fez pela população LGBT, que criou o programa Brasil sem Homofobia, e o Plano Nacional de Promoção da Cidadania e Direitos Humanos de LGBT, com diversas ações. A senhora assinou, junto com o presidente Lula, o decreto de Convocação da I Conferência LGBT do mundo. A senhora já disse, inúmeras vezes, que o aborto é uma questão de saúde pública e não uma questão de polícia.

Portanto, candidatos, não maculem suas biografias e trajetórias. Não neguem seu passado de luta contra o obscurantismo.

A ABGLT acredita na democracia, e num país onde caibam todos seus 190 milhões de habitantes e não apenas a parcela que quer impor suas ideias baseadas numa única visão de mundo. Vivemos num país da diversidade e da pluralidade.

É hora de retomar o debate de propostas para políticas de governo e de Estado, que possam contribuir para o avanço da nação brasileira, incluindo a segurança pública, a educação, a saúde, a cultura, o emprego, a distribuição de renda, a economia, o acesso a políticas públicas para todos e todas (por ABGLT – Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais)!
*
Imagem: Charge do Benett.

Difícil entender

Entender a política do ponto de vista das Ciências Sociais não é tarefa das mais difíceis ou complicadas. Todavia, compreender sua dinâmica do ponto de vista prático é algo bastante difícil, talvez, impossível. Tomemos como exemplo a campanha eleitoral do Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB) para a Presidência da República. O candidato José Serra alardeia aos quatro cantos do país que fez a lei dos genéricos, o bolsa escola, que, posteriormente, no governo Lula, virou bolsa família, que peitou os grandes laboratórios farmacêuticos com o intuito de implementar no Brasil o maior e melhor programa de combate a AIDS do mundo, entre tantos outros feitos extraordinários. Ora, a dúvida que fica é a seguinte: e o Fernando Henrique Cardoso onde entra nessa história toda? Afinal de contas quem presidiu o Executivo nacional durante oito anos (1995-2003) foi o José Serra ou o Fernando Henrique Cardoso? Algumas coisas são, de fato, bem difíceis de entender. Mas, um dito popular nos fornece algumas pistas: andam cuspindo no prato que outrora comeram e se lambuzaram (por Sílvio Benevides).
*
Imagem: Charge de Amarildo.

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

Que país é esse?

Há muito o Legião Urbana questiona: “Nas favelas, no senado sujeira pra todo lado. Ninguém respeita a constituição, mas todos acreditam no futuro da nação. Que país é esse”? Isso é o que eu também me pergunto. Nosso Estado se diz laico. Nossos políticos, como representantes desse Estado, defendem (ou deveriam defender) o laicismo. Entretanto, em pleno processo eleitoral para a Presidência da República os principais candidatos reduziram o debate político àquilo classificado por Marcos Dantas, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), de “agenda obscurantista”, ao passo que, segundo ele, “teríamos de debater sobre educação, infra-estrutura, política externa”, ou seja, assuntos de interesse da coletividade.

O termo laicismo diz respeito ao princípio da autonomia das atividades humanas legítimas, entendidas como toda e qualquer atividade que não crie obstáculo, impeça, atrapalhe, destrua ou impossibilite as demais atividades necessárias à sobrevivência e/ou bem-estar dos seres humanos organizados em sociedade. Estas devem se desenvolver de acordo com regras próprias e não a partir de regras impostas de fora, cujos interesses ou fins diferem daqueles que serviram de inspiração para as atividades humanas legítimas.

Na Era Moderna os Estados passaram a reivindicar autonomia perante a Igreja, diferenciando, assim, os assuntos de foro íntimo e privado, como a fé, por exemplo, dos assuntos relacionados ao bem-estar da coletividade, como a atribuição de deveres e a garantia de direitos. Essa diferenciação foi uma grande conquista da humanidade, pois contribuiu, sobremaneira, para que os privilégios reservados exclusivamente à aristocracia e ao clero fossem, pouco a pouco, estendidos a todos os cidadãos. Essa foi a base sobre a qual os Estados modernos fundamentaram os seus princípios norteadores. Apesar de ser herdeiro desse processo, o Brasil, por vezes, parece caminhar na contramão da Modernidade.

Nas últimas semanas a campanha eleitoral desceu a níveis inimagináveis, em se tratando de um Estado moderno e laico como o Brasil. O que temos acompanhado na propaganda eleitoral (ou deveria dizer eleitoreira?) é a morte agonizante do debate político e o triunfo deprimente de um jogo sujo, marcado por um forte cunho fundamentalista. Para promover o desgaste da imagem da candidata Dilma Rousseff perante o eleitorado, os responsáveis pela campanha adversária optaram por difundir a idéia de que ela seria a favor do aborto, da descriminalização das drogas e, também, da parceria civil entre homossexuais. A fim de defender-se, Dilma Rousseff assumiu uma postura duvidosa e furtiva em relação a esses temas. Na sua “Carta aberta ao Povo de Deus” (vide abaixo), a candidata petista se esmerou em redigir um texto débil, vazio e tosco no qual, em momento algum, defende a autonomia do Estado brasileiro frente às atividades humanas legítimas.

A Dilma Rousseff, que outrora pegou em armas para defender as liberdades democráticas e, por conseguinte, o laicismo do Estado, ameaçado pela intervenção militar, não teve a mesma coragem para defender as mesmas liberdades democráticas ameaçadas pelo obscurantismo fundamentalista cristão, cujos interesses obscuros, além de ameaçar o laicismo do nosso Estado, buscam, entre outras coisas, enterrar em definitivo o Plano Nacional de Direitos Humanos (PNDH-3) e o Projeto de Lei 122 (PL-122), que criminaliza a homofobia. Como se vê, os fundamentalistas cristãos não pensam ou almejam um Estado para todos/as, mas, sim, para alguns, tal qual ocorria em tempos pré-modernos.

Sendo um Estado laico, o Brasil não pode ficar refém de mentes obscuras e retrógradas que, de forma espúria, pervertem a mensagem de paz, amor e tolerância de Jesus Cristo para disseminar o ódio, a intolerância e o desrespeito, atirando ao lixo os princípios democráticos e os direitos humanos, valores tão duramente conquistados pela humanidade. O que espero do presidente de uma nação democrática como o Brasil é o óbvio, ou seja, a defesa veemente dos mais altos valores e princípios da democracia e não atitudes covardes perante o obscurantismo que tanto mal já fez à humanidade, responsável, inclusive, pela morte de Cristo na cruz (por Sílvio Benevides).
*
Imagem: Charge de Angeli.