segunda-feira, 24 de maio de 2010

A quem interessa o silêncio?

Qual a razão para se condenar ao ostracismo os massacres orquestrados pelo aparato bélico-militar estatal durante ditadura militar brasileira? O que de fato escondem os arquivos do regime militar? Por que não esclarecer a história referente à Guerrilha do Araguaia e tantos outros episódios ainda mal esclarecidos? Por que insistir no obscurantismo e na mentira? A quem interessa o silêncio? São tantas perguntas e poucas as respostas verdadeiramente convincentes.

Por conta disso o Brasil foi parar no banco dos réus na Corte Interamericana de Direitos Humanos, que abrirá nesta quinta-feira (20/05) uma audiência contra o Brasil para julgar os crimes cometidos pelas forças de segurança durante a ditadura militar (1964-1985), cujos autores foram beneficiados após a polêmica Lei de Anistia ditada pelos generais.

Em uma audiência pública de dois dias, com representantes das vítimas e do governo brasileiro, a Corte julgará o caso Gomes Lund, mais conhecido como a Guerrilha do Araguaia, ocorrido entre 1972 e 1975, dentro da operação das Forças Armadas para destruir um movimento de resistência à ditadura no Estado do Pará.

O objetivo é julgar se o Estado brasileiro é responsável pela detenção arbitrária, tortura e desaparecimento forçado de pelo menos 70 integrantes do Partido Comunista do Brasil (PC do B), uma dissidência do Partido Comunista Brasileiro (PCB) e de moradores na repressão militar à Guerrilha do Araguaia, além da execução extrajudicial de Maria Lucia Petit da Silva (cujos restos mortais foram localizados).

O Brasil se nega desde o retorno à democracia, em 1985, a abrir uma investigação para esclarecer os fatos e determinar responsabilidades, amparando-se na Lei de Anistia promulgada em 1979 pelo regime militar, segundo as organizações de defesa dos direitos humanos.

Segundo o secretário-executivo da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, Santiago Canton, “a manutenção da Lei de Anistia vai contra o que acreditamos ser a direção legal que o continente deve tomar. Mas o governo brasileiro não cumpriu e por isso é que caberá agora à corte dar sua decisão”.

Fim da impunidade

Há duas semanas, o Supremo Tribunal Federal descartou, por 7 votos a 2, a possibilidade de abrir uma investigação deste caso, alegando a vigência da Lei de Anistia. No dia seguinte, a cúpula da OEA atacou a decisão e pediu o fim da impunidade no País.

“A justiça brasileira parece ser presa da ‘síndrome de Estocolmo’, a recente decisão do Supremo Tribunal apoia quem no passado violou os direitos humanos e hoje aspira manter-se na impunidade”, afirmou Viviana Krsticevic, diretora executiva do Centro pela Justiça e Direito Internacional (CEJIL). Síndrome de Estocolmo diz respeito ao processo psicológico que leva as vítimas de sequestros a simpatizar com seus captores ou se identificar com sua causa.

O CEJIL é uma organização internacional de defesa dos direitos humanos, que representa os familiares das vítimas neste processo ante a Corte Interamericana, com sede em San José. Segundo a entidade, resoluções da ONU e a jurisprudência de tribunais internacionais são claras quando afirmam que as leis de anistia não podem ser alegadas como razão para não investigar o paradeiro dos desaparecidos. Também não podem ser evocadas para negar a identificação e a punição dos autores de casos graves de violações dos direitos humanos, recordou o CEJIL.

Krsticevic disse que o ministro da Defesa brasileiro, Nélson Jobim, sugeriu publicamente a possibilidade de que o Brasil não acate uma eventual condenacão da Corte Interamericana sobre este caso. “Queremos enfatizar a obrigação do Brasil de respeitar as sentenças da Corte Interamericana”, afirmou a ativista, assinalando que uma reação desse tipo seria uma “mancha enorme” na imagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva que foi preso durante a ditadura.

Negativo para o Brasil

O ministro Paulo Vannuchi, da secretaria Especial de Direitos Humanos da Presidência da República, reconhece que há possibilidade de uma sentença negativa para o Brasil na OEA. “Eu temo pelo pior”, disse Vannuchi essa semana. “É claro que quando uma solução amistosa não segue adiante é ruim. A imagem do Brasil de um país muito sensível aos direitos humanos então sofre danos”.

Para Vannuchi, mesmo com uma decisão negativa na Corte da OEA, o trabalho da secretaria segue adiante. “É uma demonstração cabal de que o Brasil está sensível e trabalhando o tema”, disse o ministro, que também comentou a participação do presidente Lula na assinatura de um acordo sobre o programa nuclear iraniano. “O Brasil vive momento novo na história. Pode ter conseguido uma coisa inédita, uma intermediação em uma questão gravíssima para a paz. Tradicionalmente isso foi tarefa dos EUA, da Inglaterra, da França, e agora o Brasil aparece como parceiro intermediador”, disse.

“Nesse salto que o Brasil está dando, o ideal é que não haja nenhuma decisão do sistema OEA contra o País. Mas não tenho dúvida de que, mesmo que haja uma decisão negativa, haverá referências reconhecendo os avanços. O que pode prevalecer nos membros da Corte é a visão de que, embora esteja avançando, os avanços são insuficientes”, completou.

Essa é a primeira vez que os casos envolvendo crimes durante a ditadura chegam à corte. A ação poderá condenar internacionalmente o Brasil a não mais usar a Lei de Anistia como argumento para isentar de punição os acusados de crimes contra a humanidade cometidos durante a ditadura. No Chile e Peru, os governos foram obrigados a abandonar suas leis de anistia diante da condenação emitida pela corte na Costa Rica.

Audiência
Na audiência, a Corte ouvirá os testemunhos de parentes das vítimas, assim como as alegações dos organismos de direitos humanos e dos representantes do Estado brasileiro. Posteriormente, será aberto um período para a incorporação de alegações por escrito ao processo, até 21 de junho, depois do que a Corte emitirá uma sentença num prazo não estabelecido. Se for mantida a praxe, a decisão da OEA deverá ser anunciada em até 6 meses (Fontes: Último Segundo, Ig, Agência Estado e AFP).
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Imagem: Love remains, por Augusto Peixoto.

Araguaia: 38 anos de viva memória

A Guerrilha do Araguaia completa 38 anos do seu início, quando alguns dos generais fascistas sobreviventes e porta-vozes do regime militar saem do armário e defendem estranhas posições, destinadas à tenebrosa intenção de reescrever a História ao seu favor. Entretanto, nos humores da conjuntura, se realçam boas noticias para a resistência ao obscurantismo remanescente.

O aspecto coincidente remonta à intensificação da luta de idéias na qual o diversionismo ganha espaço exemplar em emissoras como a Globo News — que apresenta uma sequência de entrevistas com sinistras entidades das sombras como o general Leônidas Pires Gonçalves e Newton Cruz.

Nestas, a mais singela das revelações informa que elementos tidos como “de esquerda” foram corrompidos e entregaram reuniões como a da Lapa, onde se reunia o Comitê Central do PCdoB, no dia 16 de dezembro de 1976, num episódio que ficou marcado na História como a última ação dos militares contra a Guerrilha do Araguaia — um desdobramento que bem revelava seu pavor de que a luta armada contra o regime fascista apresentasse novos desdobramentos.

Mentiras ilimitadas

O general Pires Gonçalves, mentindo descaradamente, afronta a inteligência social quando, em diversos momentos da sua entrevista, tenta falsear a realidade. Exemplo disso consta da afirmação de que as forças incumbidas de realizar o Massacre foram “recebidas a tiros” por Ângelo Arroyo e Pedro Pomar — que, sob intensa e covarde fuzilaria, e colhidos de surpresa, foram brutalmente fuzilados e sequer tiveram tempo de esboçar um gesto de resistência.

Também uma entrevista com o ex-ministro da Educação da ditadura, Jarbas Passarinho, renovada oito anos depois pelas repórteres Maria Inês Nassif e Paula Simas, revela outros absurdos. Nessa surreal tentativa de burlar a verdade e os fatos, prevalece a sórdida tentativa de tratar desiguais como iguais, quando afirma Passarinho: “Eu chamo esse período de guerra suja porque a Convenção de Genebra não funcionava para nenhum dos lados (…) É preciso acabar com esse maniqueísmo: se houve erro, houve de parte a parte e uns foram consequência e outros foram causa”.

Desse modo, os “excessos” dos oposicionistas à ditadura são qualificados como “ódio ideológico” e as hediondas torturas produzidas pelos militares são qualificadas como “tática”.

Araguaia: julgamento internacional

O 12 de abril ocorre também num momento de impasse quanto às buscas dos guerrilheiros desaparecidos na região do Araguaia, após buscas infrutíferas que mobilizaram, sob o comando e articulação de um grupo interministerial, um grande aparato técnico e militar no ano de 2009.

E, na medida do insucesso da missão oficial determinada pelo governo federal, não conseguiu conter a determinação da Corte Interamericana de Direitos Humanos, instituição da OEA (Organização dos Estados Americanos) considerada “autônoma”, que ameaçou em 2009 promover o julgamento do Brasil sobre os mortos do Araguaia, em sessão agora marcada para o mês de maio na Costa Rica.

Um núcleo de familiares de desaparecidos que conta com a participação de Sônia Maria Haas, irmã do médico e guerrilheiro gaúcho João Carlos Haas Sobrinho, programa ações públicas em Brasília e São Paulo com o objetivo de atrair a atenção da opinião pública sobre o caso nos dias que precedem o julgamento. E clama pelo apoio à mobilização.

Fracasso brasileiro

Na medida do fracasso da iniciativa governamental de resgate dos restos físicos dos guerrilheiros, reforçou-se uma delicada situação para quem duvida da autonomia da Corte em relação à OEA — que não tem simbolizado uma referência na defesa das liberdades democráticas e se afirmou como um organismo subalterno aos interesses imperiais dos EUA, inclusive na subordinação incondicional ao bloqueio econômico e político a Cuba.

Existe a preocupação de que tal tradição antidemocrática, contaminando sua Corte, trate agora de instrumentalizar uma causa justa: a da reparação do absurdo que consiste na ocultação dos vestígios ósseos dos guerrilheiros executados covardemente na região do Araguaia no período 1972-1975. E sem que os familiares possam recusar esta forma de pressão contraditória mas legítima sob o aspecto da sua legalidade e procedência nos fatos.

Nestas circunstâncias, nas quais o lado hediondo da ação castrense se superpõe à justiça requerida pelos familiares e pelo povo brasileiro, são completamente neutralizados os questionamentos acerca dos objetivos políticos voltados contra um governo que, a bordo de uma política externa construtiva e independente, barrou a criação da ALCA e atuou no enfrentamento de outros mecanismos de dominação dos EUA sobre os países e povos da América do Sul e de outros continentes.

Desafios agitam questão militar

O governo brasileiro fica assim em dificuldades, não obstante as iniciativas institucionais voltadas para a resolução do problema, desvencilhando-se dele. Terá que aprofundar questões candentes que afloraram no debate sobre o Plano Nacional de Direitos Humanos, em particular quanto à polêmica relativa à impunidade dos torturadores na relação com o “direito à verdade”.


No recente episódio, que desnudou a ênfase na impunidade, evidenciaram-se tarefas que exigem a superação histórica da tutela militarista e pró-imperialista, que constituem sérios obstáculos à estabilidade das liberdades democráticas e aspectos relacionados aos avanços sociais e políticos no Brasil.

São desafios que exigem o amplo envolvimento do povo brasileiro no resgate da consciência mais avançada e das responsabilidades castrenses. E não apenas quanto ao respeito da missão constitucional das forças armadas, mas sobretudo no que se refere à ruptura dos seus vínculos com a velha base do pensamento conservador que provém das suas relações originais com o latifúndio e com o imperialismo.

A colaboração — ainda que forçada pelos meios ao alcance do Estado — dos antigos agentes do pensamento conservador e do terrorismo institucional, representa a única alternativa para se alcançar a mínima honra devida aos ofendidos pela truculência naquele período de trevas para o Brasil.

Homenagem à Guerrilha e a João Amazonas

Um fato alvissareiro se avizinha nesses 38 anos do início da Guerrilha do Araguaia, com a prevista inauguração, no dia 15 de maio, do anfiteatro do Memorial do Araguaia e do Obelisco que homenageia o presidente (in memorian) João Amazonas em Xambioá — de acordo com as informações de Micheas Gomes de Almeida, o Zezinho do Araguaia.

Zezinho comemora também a vitória que consistiu num fato que estimativamente envolve quase 50 mil pessoas residentes nos municípios da bacia do rio Araguaia: a frustração da Barragem (e da Usina destinada ao beneficiamento de minérios para exportação) de Santa Isabel, que inundaria toda a área conflagrada pela guerrilha e, tal como ocorreu em Canudos com a construção da barragem Cocorobó, afogaria um pedaço da História do Brasil.

Esta obra de resistência, que envolveu e coloca em ação múltiplas forças, atua vigorosamente no sentido de conectar energias voltadas para a continuidade de um projeto que, não obstante a vasta destruição praticada numa região de florestas e riquíssimos recursos naturais e ambientais, trata de homenagear a luta dos guerrilheiros pela prosperidade social e pela felicidade dos despossuídos e lutadores, araguaios e brasileiros (Por Luis Carlos Antero).
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Imagem: Charge de Carlos Latuff.

segunda-feira, 17 de maio de 2010

Desobediência: a virtude original do homem

Pode-se até admitir que os pobres tenham virtudes, mas elas devem ser lamentadas. Muitas vezes ouvimos que os pobres são gratos à caridade. Alguns o são, sem dúvida, mas os melhores entre eles jamais o serão. São ingratos, descontentes, desobedientes e rebeldes - e têm razão. Consideram que a caridade é uma forma inadequada e ridícula de restituição parcial, uma esmola sentimental, geralmente acompanhada de uma tentativa impertinente, por parte do doador, de tiranizar a vida de quem a recebe. Por que deveriam sentir gratidão pelas migalhas que caem da mesa dos ricos? Eles deveriam estar sentados nela e agora começam a percebê-lo. Quanto ao descontentamento, qualquer homem que não se sentisse descontente com o péssimo ambiente e o baixo nível de vida que lhe são reservados seria realmente muito estúpido.

Qualquer pessoa que tenha lido a história da humanidade aprendeu que a desobediência é a virtude original do homem. O progresso é uma conseqüência da desobediência e da rebelião. Muitas vezes elogiamos os pobres por serem econômicos. Mas recomendar aos pobres que poupem é algo grotesco e insultante. Seria como aconselhar um homem que está morrendo de fome a comer menos; um trabalhador urbano ou rural que poupasse seria totalmente imoral. Nenhum homem deveria estar sempre pronto a mostrar que consegue viver como um animal mal alimentado. Deveria recusar-se a viver assim, roubar ou fazer greve - o que para muitos é uma forma de roubo.

Quanto à mendicância, é muito mais seguro mendigar do que roubar, mas é melhor roubar do que mendigar. Não! Um pobre que é ingrato, descontente, rebelde e que se recusa a poupar terá, provavelmente, uma verdadeira personalidade e uma grande riqueza interior. De qualquer forma, ele representará uma saudável forma de protesto. Quanto aos pobres virtuosos, devemos ter pena deles, mas jamais admirá-los. Eles entraram num acordo particular com o inimigo e venderam os seus direitos por um preço muito baixo. Devem ser também extraordinariamente estúpidos. Posso entender que um homem aceite as leis que protegem a propriedade privada e admita que ela seja acumulada enquanto for capaz de realizar alguma forma de atividade intelectual sob tais condições. Mas não consigo entender como alguém que tem uma vida medonha graças a essas leis possa ainda concordar com a sua continuidade.

Entretanto, a explicação não é difícil, pelo contrário. A miséria e a pobreza são de tal modo degradantes e exercem um efeito tão paralisante sobre a natureza humana que nenhuma classe consegue realmente ter consciência de seu próprio sofrimento. É preciso que outras pessoas venham apontá-lo e mesmo assim muitas vezes não acreditam nelas. O que os patrões dizem sobre os agitadores é totalmente verdadeiro. Os agitadores são um bando de pessoais intrometidas que se infiltram num determinado segmento da comunidade totalmente satisfeito com a situação em que vive e semeiam o descontentamento nele. É por isso que os agitadores são necessários. Sem eles, em nosso estado imperfeito, a civilização não avançaria. A abolição da escravatura nos EUA não foi uma conseqüência da ação direta dos escravos nem uma expressão do seu desejo de liberdade. A escravidão foi abolida graças à conduta totalmente ilegal de certos agitadores vindos de Boston e de outros lugares, que não eram escravos, não tinham escravos nem qualquer relação direta com o problema. Foram eles, sem dúvida que começaram tudo. É curioso observar que dos próprios escravos eles só receberam pouquíssima ajuda material e quase nenhuma solidariedade. E quando a guerra terminou e os escravos descobriram que estavam livres, tão livres que podiam até morrer de fome livremente, muitos lamentaram amargamente a nova situação. Para o pensador, o fato mais trágico na Revolução Francesa não foi que Maria Antonieta tenha sido morta por ser rainha, mas que os camponeses famintos da Vendée tivessem concordado em morrer defendendo a causa do feudalismo (por Oscar Wilde, em The Soul of Man under Socialism, 1891).
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Imagem: Teatro de rua, por João Torres.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Deu no La Presse Affaires: Dieux est brésilien!

O jornal canadense La Presse Affaires descobriu a pólvora! Deus é brasileiro. A notícia não chega a surpreender a nós, os brasileiros em questão, pois não é de hoje que temos certeza sobre a nacionalidade do Todo-Poderoso. Qual é a novidade, então? Bem, talvez seja o fato de o Brasil não aparecer no periódico internacional apenas como um lugar de miséria, violência e corrupção política. Não que essas coisas sejam problemas inexistentes em nosso país. Tampouco estou a dizer que as matérias cujo foco é dado a essas questões são inconvenientes ou inverídicas. Não se trata de defender aqui a prática de se tapar o sol com a peneira. Nada disso. Quero dizer apenas que o Brasil não é somente problemas. Sim, estes existem aos montes, mas as soluções estão sendo buscadas e encontradas. Se elas são as mais adequadas, só o tempo dirá. A despeito das dificuldades que o povo brasileiro continua a enfrentar, algumas vergonhosamente seculares, o fato é que mudanças estão a ocorrer nos rumos da história de nossa sociedade. Onde essas mudanças vão dar ou para onde irão nos levar, só mesmo Deus para saber. Mas como ele é brasileiro, resta-nos, então, rezar para que os caminhos vindouros sejam melhores que os pretéritos. Afinal, como já escreveu o Millôr Fernandes, os caminhos já trilhados “foram bons, foram ruins, foram péssimos, foram um fracasso, mas já se foram”. A matéria do periódico canadense foi reproduzida abaixo na íntegra e na língua original. Essa é, portanto, uma boa ocasião para se praticar o bom e velho francês québécois. Boa leitura, mes amies! (por Sílvio Benevides)

Dieux est brésilien

(Montréal) Richesses naturelles abondantes, des millions de nouveaux consommateurs, croissance soutenue... le Brésil semble béni des dieux. Du moins, le monde des affaires y croit.

La crise? Quelle crise? Elle n'est certes pas apparente dans les magasins de Rio de Janeiro ou de São Paulo.

En février, les ventes au détail au Brésil ont fait un bond spectaculaire de 12,3% par rapport à la même période l'an passé, a-t-on appris la semaine dernière. De quoi faire rêver nos détaillants en ces temps incertains.

Et on achète de tout: vêtements, électronique... et beaucoup de voitures neuves. Quelque 3,1 millions de véhicules ont été vendus dans ce pays l'an dernier. Et ça continue.

Si bien que sur le grand circuit mondial de l'automobile, le Brésil devrait dépasser l'Allemagne, cette année, pour devenir le quatrième marché en importance pour les ventes de véhicules (3,4 millions contre 3 millions), selon la firme J.D. Power.

Dieu est de notre côté

Avec des indicateurs aussi enviables, on est porté à croire le président Luiz Inacio Lula da Silva, qui s'est exclamé «Dieu est brésilien!» en annonçant en 2007 la découverte du gigantesque gisement pétrolier Tupi (de 5 à 8 milliards de barils), au large des côtes du pays.

Certes, la nature est généreuse avec le Brésil - l'un des seuls pays à pouvoir assurer son indépendance en matière d'eau, de nourriture et d'énergie.

Mais, comme en témoigne l'affluence dans les magasins, le vrai miracle brésilien est probablement ailleurs, soit dans la naissance de millions de nouveaux consommateurs.

Grâce à ses succès économiques, le Brésil a réussi à créer une véritable classe moyenne parmi les 185 millions d'habitants du pays. En 15 ans, elle est passée de 32 à 52% de la population, selon des statistiques officielles.

C'est probablement le fait d'armes de Lula da Silva, dont le deuxième et dernier mandat se termine l'automne prochain. En lançant des mesures sociales à grande échelle, comme la bolsa familia (aide financière conditionnée à la scolarisation des enfants), le président brésilien a sorti de la pauvreté 32 millions de ses concitoyens, selon le Boston Consulting Group. C'est presque autant que toute la population du Canada.

Autant de nouveaux consommateurs qui ont désormais accès au crédit et qui ne demandent qu'à dépenser.

Ruée des étrangers

Pas surprenant, alors, que les réalisations brésiliennes font accourir de nouveaux fidèles venus de partout dans le monde des affaires.

Ainsi, les investissements directs étrangers au Brésil devraient grimper de 47% cette année à 38 milliards de dollars, selon un sondage Bloomberg auprès de 100 économistes. C'est sans compter les 11 milliards que les investisseurs de l'extérieur du pays ont injectés à la Bourse brésilienne l'an passé - un record.

Les étrangers redoublent évidemment d'efforts dans les secteurs liés à la consommation: Carrefour, Sanofi-Aventis, Volkswagen et d'autres multinationales ont récemment annoncé d'importants investissements dans le pays.

Qui dit développement économique dit aussi infrastructures modernes. Or, le Brésil est en manque à ce chapitre.

Faute d'intervention divine, c'est Lula da Silva lui-même qui s'en occupera: son gouvernement vient d'annoncer des investissements de 900 milliards de dollars en grands travaux d'infrastructures, dont la plupart avant les Jeux olympiques qui auront lieu à Rio de 2016. C'est la deuxième étape de l'ambitieux Programme d'accélération de la croissance (PAC), lancé en janvier 2007.

Cet argent servira à la construction de deux millions de logements, de routes, de réseaux d'électricité ainsi qu'à la modernisation des ports et des voies ferrées et à l'urbanisation des favelas. Tout ça, sans toucher la cote de crédit du pays - toujours la meilleure d'Amérique latine.

Inflation

Le Brésil a donc fait des progrès énormes, mais peut-être trop rapides. Désormais, le défi du gouvernement sera de prévenir une surchauffe économique, prévient le président de la banque centrale, Henrique Meirelles.

L'inflation a atteint, sur une base annuelle, 5,2% en mars - ce qui est au-dessus de la cible de 4,5% que visent les autorités. Les Brésiliens doivent donc s'attendre à des hausses de taux d'intérêt pour contenir la croissance, qui devrait frôler les 6% cette année.

Un autre point tracasse les économistes. Bons vivants, les Brésiliens n'épargnent pas. Et quand ils consomment, c'est à crédit.

Le taux de défaillance des emprunteurs est élevé, de l'ordre de 12 à 15%, selon des banques européennes. Pas de quoi encore provoquer une crise. Mais c'est certainement une faiblesse que les dieux de la finance auront à l'oeil (par Richard Dupaul).
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Imagem: Millôr Fernandes.

domingo, 2 de maio de 2010

Poema Falado: O guardador de águas

Que a água é a fonte da vida, ninguém duvida ou sequer duvidou. Que a água é fonte de lendas, crenças, magias, paixões, medos e dissabores, ninguém questiona. Que a água é fonte da mais fresca poesia, só mesmo aqueles que pela vida se apaixonam sabem dizer. E assim o disse o Manoel de Barros na sua poesia O guardador de águas, que hora se apresenta nesse Poema Falado.

“Esse é Bernardo. Bernardo da Mata. Apresento. Ele faz encurtamento de águas. Apanha um pouco de rio com as mãos e espreme nos vidros até que as águas se ajoelhem do tamanho de uma lagarta nos vidros. No falar com as águas rãs o exercitam. Tentou encolher o horizonte no olho de um inseto - e obteve! Prende o silêncio com fivela. Até os caranguejos querem ele para chão. Viu as formigas carreando na estrada duas pernas de ocaso para dentro de um oco... E deixou. Essas formigas pensavam em seu olho. É homem percorrido de existências. Estão favoráveis a ele os camaleões. Espraiado na tarde - Como a foz de um rio - Bernardo se inventa... Lugarejos cobertos de limo o imitam. Passarinhos aveludam seus cantos quando o vêem”.



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Imagem: Ermida Gerês, Portugal, por Tiago Corvão.

segunda-feira, 26 de abril de 2010

Pátria minha

Pátria minha idolatrada salve, salve! Nesse mês de abril o Salvador na sola do pé homenageou o Brasil por meio de poemas falados. Brasil amado, Brasil querido, Brasil venerado porque é a pátria minha gentil que me pariste. Mãe amada, mãe gentil, mãe cruel. O Brasil é uma mãe estranha que acolhe e maltrata, que ampara e despreza, que afaga e violenta, que nos orgulha e envergonha. Nosso país ainda conserva em suas estruturas sociais vícios terríveis que nasceram tão logo o colonizador resolveu fincar raízes nessas terras. Nossas antigas misérias continuam a atormentar milhares de brasileiros. Nossas misérias mais recentes afligem milhões de brasileiros nos grandes e pequenos centros urbanos. A saúde e educação precárias insistem e persistem. As desigualdades sociais estão cada vez mais acentuadas. O tráfico de drogas avança de forma assustadora, contaminando a sociedade como câncer virulento. A violência nos grandes centros urbanos ganhou ares de guerra civil não declarada. Nas pequenas cidades e, também, no campo a subserviência e o medo ainda nos fazem lembrar os idos tempos dos coronéis. Na política, enquanto os homens exercem seus podres poderes, como já escreveu o Caetano Veloso, a corrupção de toda espécie nos mata, aos poucos, ou nem tão aos poucos assim, de fome, de raiva e de sede. Oh, pátria minha gentil que me pariste, que será do teu futuro se o futuro é agora?! O Poema Falado desta semana (ver abaixo)foi produzido com trechos dos versos do Vinícius de Moraes intitulados Pátria Minha. Quem os recita é a sempre magnífica Maria Bethânia. Boa leitura! (por Sílvio Benevides)
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A minha pátria é como se não fosse, é íntima / Doçura e vontade de chorar; uma criança dormindo / É minha pátria. Por isso, no exílio / Assistindo dormir meu filho / Choro de saudades de minha pátria. // Se me perguntarem o que é a minha pátria direi: não sei. / De fato, não sei / Como, por que e quando a minha pátria / Mas sei que a minha pátria é a luz, o sal e a água / Que elaboram e liquefazem a minha mágoa / Em longas lágrimas amargas. // Vontade de beijar os olhos de minha pátria / De niná-la, de passar-lhe a mão pelos cabelos... / Vontade de mudar as cores do vestido (auriverde!) tão feias / De minha pátria, de minha pátria sem sapatos / E sem meias pátria minha / Tão pobrinha! // Porque te amo tanto, pátria minha, eu que não tenho / Pátria, eu semente que nasci do vento / Eu que não vou e não venho, eu que permaneço / Em contato com a dor do tempo, eu elemento / De ligação entre a ação o pensamento / Eu fio invisível no espaço de todo adeus / Eu, o sem Deus! // Tenho-te no entanto em mim como um gemido / De flor; tenho-te como um amor morrido / A quem se jurou; tenho-te como uma fé / Sem dogma; tenho-te em tudo em que não me sinto a jeito / Nesta sala estrangeira com lareira / E sem pé-direito. // Ah, pátria minha, lembra-me uma noite no Maine, Nova Inglaterra / Quando tudo passou a ser infinito e nada terra / E eu vi alfa e beta de Centauro escalarem o monte até o céu / Muitos me surpreenderam parado no campo sem luz / À espera de ver surgir a Cruz do Sul / Que eu sabia, mas amanheceu... // Fonte de mel, bicho triste, pátria minha / Amada, idolatrada, salve, salve! / Que mais doce esperança acorrentada / O não poder dizer-te: aguarda... / Não tardo! // Quero rever-te, pátria minha, e para / Rever-te me esqueci de tudo / Fui cego, estropiado, surdo, mudo / Vi minha humilde morte cara a cara / Rasguei poemas, mulheres, horizontes / Fiquei simples, sem fontes. // Pátria minha... A minha pátria não é florão, nem ostenta / Lábaro não; a minha pátria é desolação / De caminhos, a minha pátria é terra sedenta / E praia branca; a minha pátria é o grande rio secular / Que bebe nuvem, come terra / E urina mar. // Mais do que a mais garrida a minha pátria tem / Uma quentura, um querer bem, um bem / Um libertas quae sera tamem / Que um dia traduzi num exame escrito: / “Liberta que serás também” / E repito! // Ponho no vento o ouvido e escuto a brisa / Que brinca em teus cabelos e te alisa / Pátria minha, e perfuma o teu chão... / Que vontade de adormecer-me / Entre teus doces montes, pátria minha / Atento à fome em tuas entranhas / E ao batuque em teu coração. // Não te direi o nome, pátria minha / Teu nome é pátria amada, é patriazinha / Não rima com mãe gentil / Vives em mim como uma filha, que és / Uma ilha de ternura: a Ilha Brasil, talvez. // Agora chamarei a amiga cotovia / E pedirei que peça ao rouxinol do dia / Que peça ao sabiá / Para levar-te presto este avigrama: “Pátria minha, saudades de quem te ama...Vinicius de Moraes”.
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Texto extraído do livro Vinicius de Moraes: Poesia Completa e Prosa. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1998, p. 383.
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Imagem: Ivaldo Cavalcante.

Tem sempre lugar pro otimismo, cara

Pô, há 500 anos, o Brasil nem existia. Quer dizer, estava encoberto. E 500 anos depois ainda somos um país jovem. Pode? Pode. O Brasil já nasceu equipado com célula-tronco. Por isso, neste albor (oba! oba!), nas primeiras luzes da gloriosa Era Lula, que muitos deturpam para Lula já era, temos a obrigação de repetir alto e bom som: NADA DE PESSIMISMO, COMPATRIOTAS!

Agora são outros 500. E não adianta fazer balanço dos anteriores. Foram bons, foram ruins, foram péssimos, foram um fracasso. Mas já se foram. Agora temos que acreditar nos que vêm. Ora, pois.

Pois se, como todos sabem, a Geometria é resultado da curiosidade dos sábios gregos vagabundando na Ágora de Atenas; a Astronomia veio da superstição que criou antes a Astrologia; a Economia surgiu da avareza; a Eloquência nasceu do ódio e do puxa-saquismo – por que a Grandeza do Brasil não pode começar com um Deficiente Digital? OTIMISMO, GENTE! OTIMISMO! (por Millôr Fernandes)
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Imagem: Millôr Fernandes.

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Quem foram os primeiros descobridores da província do Brasil

A província do Brasil está situada além da linha equinocial da parte do sul, debaixo da qual começa ela a correr junto do rio que se diz das Amazonas, onde se principia o norte da linha de demarcação e repartição; e vai correndo esta linha pelo sertão desta província até 45 graus, pouco mais ou menos. Esta terra se descobriu aos 25 dias do mês de abril de 1500 anos por Pedro Álvares Cabral, que neste tempo ia por capitão-mor para a Índia por mandado de el-rei D. Manuel, em cujo nome tomou posse desta província, onde agora é a capitania de Porto Seguro, no lugar onde já esteve a vila de Santa Cruz, que assim se chamou por se aqui arvorar uma muito grande, por mando de Pedro Álvares Cabral, ao pé da qual mandou dizer, em seu dia, a 3 de maio, uma solene missa, com muita festa, pelo qual respeito se chama a vila do mesmo nome, e a província muitos anos foi nomeada por de Santa Cruz e de muitos Nova Lusitânia; e para solenidade desta posse plantou este capitão no mesmo lugar um padrão com as armas de Portugal, dos que trazia para o descobrimento da Índia para onde levava sua derrota. A estas partes foi depois mandado por Sua Alteza Gonçalo Coelho com três caravelas de armada, para que descobrisse esta costa, com as quais andou por elas muitos meses buscando-lhe os portos e rios, em muitos dos quais entrou e assentou marcos dos que para este descobrimento levava, no que passou grandes trabalhos pela pouca experiência e informação que se até então tinha de como a costa corria, e do curso dos ventos com que se navegava. E recolhendo-se Gonçalo Coelho com perda de dois navios, com as informações que pôde alcançar, as veio dar a el-rei D. João, o III, que já neste tempo reinava, o qual logo ordenou outra armada de caravelas que mandou a estas conquistas, a qual entregou a Cristóvão Jacques, fidalgo da sua casa que nela foi por capitão-mor, o qual foi continuando no descobrimento desta costa e trabalhou um bom pedaço sobre aclarar a navegação dela, e plantou em muitas partes padrões que para isso levava. Contestando com a obrigação do seu regimento, e andando correndo a costa, foi dar com a boca da Bahia, a que pôs o nome de Todos os Santos, pela qual entrou dentro, e andou especulando por ela todos os seus recôncavos, em um dos quais — a que chamam o rio do Paraguaçu — achou duas naus francesas que estavam ancoradas resgatando com o gentio, com as quais se pôs às bombardas, e as meteu no fundo, com o que se satisfez e se recolheu para o Reino, onde deu suas informações a Sua Alteza, que, com elas, e com as primeiras e outras que lhe tinha dado Pedro Lopes de Sousa, que por esta costa também tinha andado com outra armada, ordenou de fazer povoar essa província, e repartir a terra dela por capitães e pessoas que se ofereceram a meter nisso todo o cabedal de suas fazendas, do que faremos particular menção em seu lugar (por Gabriel Soares de Sousa, in: Tratado Descritivo do Brasil, 1587).

Poema Falado produzido com trecho da Carta do Descobrimento, de Pero Vaz de Caminha e versos do Carlos Drummond de Andrade intitulados Hino Nacional.
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Imagem: Pedro Álvares Cabral, por Filipe Roberto da Silva Stocqueler.

O achamento do Brasil

Durante milhares e milhares de anos jaz incógnito e anônimo o gigantesco território brasileiro com suas florestas verde-escuras e sussurrantes, suas montanhas e seus rios e seu mar ritmicamente sonoro. A tardinha de 22 de abril de 1500, de repente aparecem no horizonte algumas velas brancas; caravelas bojudas e pesadas, com a vermelha cruz portuguesa em suas velas, aproximam-se da costa, e no dia seguinte chegam à praia desconhecida os primeiros escaleres.

É a frota portuguesa que, sob o comando de Pedro Alvares Cabral, em março de 1500 zarpara da foz do Tejo, a fim de repetir a inolvidável viagem de Vasco da Gama, cantada por Camões nos “Lusíadas”, aquele “feito nunca feito”, em torno do Cabo da Boa Esperança, em demanda das Índias... Ao que se veio a dizer, ventos contrários desviaram os navios da rota de Vasco da Gama, para essa ilha desconhecida — pois primeiramente é denominada ilha de Santa Cruz, essa costa, de cuja extensão ainda não se faz idéia. Desde que não se considerem como descobrimentos as viagens de Alonso Pinzon, que chegou às proximidades da foz do Amazonas, e a duvidosa descoberta de Vespuccio, parece pois que o descobrimento do Brasil teria cabido a Portugal e a Pedro Alvares Cabral, graças apenas a uma singular combinação entre os ventos e as ondas. Os historiadores, porém, há muito que não estão mais propensos a dar crédito a esse “acaso” pois Cabral levava consigo o piloto de Vasco da Gama, o qual conhecia exatamente o caminho mais próximo, e a fábula dos ventos contrários perde de valor, em face: do testemunho de Pero Vaz de Caminha, que se achava a bordo e afirmou expressamente que eles,. “sem haver tempo forte ou contrário”, se haviam afastado do Cabo Verde. Como nenhuma tempestade os houvesse desviado tanto para oeste que, em vez de contornarem o cabo de Boa Esperança, subitamente aportassem ao Brasil, uma determinada intenção ou — o que ainda é mais provável — uma ordem secreta de seu rei — fez com que dirigisse Cabral o seu curso para oeste. Isso torna mais provável a hipótese que a Coroa portuguesa, já muito antes do descobrimento oficial, tivesse conhecimento secreto da existência e da situação geográfica do Brasil. Há nesse ponto ainda grande segredo. Os documentos que poderiam desvendá-lo desapareceram para sempre, com a destruição dos arquivos, por ocasião do terremoto de Lisboa, e o mundo provavelmente nunca saberá o nome do primeiro descobridor do Brasil. Parece que, logo após o descobrimento da América por Colombo, um navio português foi enviado para explorar essa nova parte do mundo e, de regresso, levou novas informações, ou, já antes de Colombo obter audiência, tinha a Coroa portuguesa conhecimento mais ou menos certo dessa terra, no oeste longínquo. A favor disso há também certos elementos. Mas o que quer que soubesse, evitava Portugal dá-lo a conhecer ao vizinho invejoso; na época dos descobrimentos a Coroa tratava todas as novidades relativas a explorações náuticas como segredo militar ou comercial de Estado, cuja divulgação a potências estrangeiras era punida com a pena de morte. Mapas, portulanos, roteiros, relatórios de pilotos, do mesmo modo que ouro e pedras preciosas, eram encerradas na Tesouraria de Lisboa, como preciosidades, e, particularmente no caso do Brasil, uma divulgação prematura era inoportuna, pois, de acordo com a bula papal Inter Caetera, legalmente pertenciam aos espanhóis ainda todas as regiões até a distância de cem léguas a oeste do Cabo Verde. Um descobrimento oficial dentro dessa zona, nesse momento, só teria aumentado as posses do vizinho, e não as próprias. Não era, pois, do interesse de Portugal anunciar, antes de tempo, tal descobrimento, se de fato ele se dera. Era preciso estar legalmente garantido que essa nova terra pertencia não à Espanha, mas sim à Coroa portuguesa, e isso Portugal, com manifesta previdência, garantira a si por meio do Tratado de Tordesilhas, que em 7 de junho de 1494, portanto pouco depois do descobrimento da América, ampliara a zona portuguesa, das primitivas cem léguas para trezentas e setenta a oeste do Cabo Verde — justamente, pois, tanto que abrangesse ela a costa do Brasil, ao que se diz, ainda então não descoberta. Se essa ampliação foi uma casualidade, não deixou de ser uma casualidade que concorda admiravelmente com o desvio de Pedro Alvares Cabral, da rota natural, desvio que, por outro modo, é inexplicável.

Essa hipótese, levantada por alguns historiadores, de um anterior conhecimento do Brasil e de uma instrução secreta del-Rei dada a Cabral, para que se desviasse muito para oeste, a fim de que por uma “maravilhosa casualidade” — “milagrosamente”, como escreveu ele ao rei da Espanha — pudesse descobrir a nova terra, ganha também muito de credibilidade pela maneira como o cronista da frota, Pero Vaz de Caminha, dá ao rei notícia do descobrimento do Brasil. Ele não manifesta admiração ou entusiasmo de inesperadamente ter aportado à nova terra: consigna apenas secamente o fato, como uma coisa natural. Igualmente o segundo cronista, que é desconhecido, diz apenas “che ebbe grandissimo piacere”. Nem uma palavra de triunfo, nenhuma das suposições, usuais, em Colombo e em seus sucessores, de que, com isso, se houvesse atingido a Ásia — nada mais do que uma notícia fria, que parece mais confirmar um fato. conhecido do que anunciar um novo. Assim, por um ulterior achado de documentos, poderia Cabral talvez ainda perder definitivamente a glória de haver descoberto o Brasil, a qual, aliás, já é contestada com o aportamento de Pinzon ao norte do rio Amazonas. Mas, enquanto não tivermos tal documento, deve o dia 22 de abril de 1500 ser considerado a data em que esta nova nação entrou para a História Universal.

A primeira impressão causada pela nova terra aos navegadores que a ela aportam é excelente: terra fértil, ventos amenos, fresca água potável, abundantes frutos, habitantes afáveis e não perigosos. Quem quer que chegue ao Brasil nos anos seguintes, repete as palavras hínicas de Américo Vespuccio, que, aqui chegando um ano depois de Cabral, exclama: “Se algures na terra existe o paraíso terrestre, não pode ele estar longe daqui!” Os habitantes que nos primeiros dias aparecem, em inocente traje de nudez, aos descobridores, e lhes mostram o corpo nu “com tanta inocência como o rosto”, os acolhem afavelmente. Mas são sobretudo as mulheres que, por seu corpo bem feito e sua condescendência rápida e sem preferências, (gratamente gabada também por todos os cronistas posteriores) fazem esquecer aos navegantes as privações de muitas semanas. Por enquanto não se dá uma verdadeira exploração ou ocupação do interior do novo território, pois Cabral, após o cumprimento de sua incumbência secreta, tem que, o mais depressa possível, prosseguir para sua meta oficial, para as Índias. A 2 de maio, após uma permanência de, ao todo, dez dias, ruma para a África, depois de ordenar a Gaspar de Lemos que com um navio percorra a costa na direção do norte e em seguida regresse a Lisboa, levando a notícia do descobrimento e alguns exemplares de frutos, de vegetais e de animais da nova terra.
A nova de que a frota de Cabral, seja em cumprimento de uma incumbência secreta, seja por mero acaso, atingiu essa nova terra, é recebida com agrado, mas sem verdadeiro entusiasmo, no palácio real. Em cartas oficiais é ela transmitida ao rei da Espanha, a fim de ficar garantido para Portugal o título legal de posse. Todavia a comunicação de que o novo território é uma região “sem ouro, nem prata, nem nenhuma coisa de metal”, a princípio confere pouco valor ao descobrimento, Portugal descobriu nos últimos decênios tantas terras e se apossou duma parte tão grande do mundo que a capacidade colonizadora desse pequeno país verdadeiramente está de todo esgotada. O novo caminho marítimo para as Índias garante-lhe o monopólio das especiarias e, só com isso, já uma riqueza imensa. Sabe-se em Lisboa que em Calicut, em Malaca, a riqueza em pedras preciosas, tecidos custosos, porcelanas e especiarias, que há séculos se tornou lendária, está pronta para sofrer uma ousada pilhagem, e a sofreguidão de, com um assalto, arrebatar para si todo esse mundo de cultura superior e de fausto oriental impele Portugal a uma exaltação de intrepidez e de heroísmo, que dificilmente, na História Universal, outra se lhe iguala. Mesmo os “Lusíadas” quase não conseguem tornar compreensível essa nova expedição, semelhante à de Alexandre Magno, que um punhado de homens empreende, a fim de, com alguns navios, conquistar simultaneamente três continentes e, além disso, todo o oceano desconhecido. É que o pequeno e pobre Portugal, que, quase apenas há dois séculos, se libertou do domínio árabe, não possui dinheiro; o rei, toda vez que prepara uma frota, tem de antemão que empenhar o rendimento dela a banqueiros e comerciantes. Portugal também não possui soldados em número suficiente para guerrear ao mesmo tempo, os árabes, os indús, os malaios, os africanos, os selvagens e, em todos os lugares dos três continentes, estabelecer colônias e fortalezas. Contudo, como por milagre, extrai de si todas essas forças; cavaleiros, camponeses, e, conforme certa vez disse Colombo, indignado, até alfaiates abandonam as oficinas, as mulheres, os filhos, todos as suas profissões, e afluem, de todo o país, para os portos. Não os assusta o fato de que, segundo as célebres palavras de João de Barros, se torne “o oceano o mais freqüente túmulo dos portugueses”, pois a palavra “Índias” possui poder mágico. O rei sabe que um navio que regressa de Golconda compensa o prejuízo de dez que se perdem; um homem que resiste às tempestades, aos naufrágios, aos combates, às doenças, está rico para si e para seus descendentes. Como a porta que dá para a tesouraria do mundo de então está arrombada, ninguém quer permanecer na “pequena casa” da pátria, e essa vontade unânime dá a Portugal um êxtase de força e de coragem que, por um século, faz do impossível possibilidade e da inverossimilhança realidade Brasil (por Stefan Zweig, In: Brasil, país do futuro).
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Imagem: Monte Pascoal, por João Farias.

quarta-feira, 21 de abril de 2010

Saudações, Brasília!

Hoje a capital do Brasil está a completar 50 anos de história. Uma cidade cuja face reflete bem a face do nosso país. De um lado, qualidades que nos engrandecem e orgulham. De outro, defeitos que nos envergonham e humilham. Quando, normalmente, se fala em Brasília, a primeira imagem que nos vem à mente é a de corrupção política, esteja ela no âmbito federal, no âmbito distrital ou, ainda, nos corredores do funcionalismo público. Brasília é o principal centro político do país. Como a política profissional nos tem dado motivos de sobra para desconfiarmos dela, nossa capital fica estigmatizada como um antro de corrupção e sujeira. Vergonha!

Mas enxergar Brasília apenas pelo prisma da corrupção política é, no mínimo, injustiça. A capital do Brasil é uma cidade exuberante e bela. Discorrer sobre sua arquitetura já é lugar comum. Os prédios e monumentos projetados por seus idealizadores nos deslumbram e fascinam muito mais quando os vemos de perto, bem ao alcance dos olhos e do coração, que palpita a cada encontro com as paisagens de cartão postal. Sua natureza é dotada de uma singela exuberância que em poucas cidades do Brasil e do mundo se pode encontrar. Maravilha cuja beleza, não sei por que, me faz lembrar os versos escritos por Carlos Lyra e Vinícius de Moraes: “coisa mais bonita é você assim; justinho você; eu juro, eu não sei por que você”.

A despeito da sua arquitetura e da sua natureza, o maior tesouro de Brasília é mesmo o seu povo. Simpático e hospitaleiro, o brasiliense sabe receber um visitante de braços abertos e sorriso largo, coisa que jamais esquecerei. A cara dessa gente é, também, a cara do povo brasileiro: misturado, miscigenado e com influências culturais que sintetizam a identidade dos diferentes povos espalhados por esse imenso Brasil. Por tudo isso, considero injusto associar Brasília tão somente ao lado podre da política. Concordo com o Presidente Lula quando ele declarou aos Diários Associados, em um momento de sensatez, que há, sim, razões de sobre para o povo de Brasília comemorar. Para ele, “o significado de Brasília como capital não pode ser confundido com os administradores que cometeram absurdos. Muitas vezes os erros são cometidos porque as pessoas acham que são impunes. Brasília, de um lado, tem que estar de luto, porque aconteceu essa barbaridade, mas, ao mesmo tempo, tem que ter orgulho. É uma cidade extraordinária, que tem crescido muito acima do que foi previsto por Niemeyer e JK. Cresceu um pouco desordenada, acho que houve irresponsabilidade em alguns momentos. Brasília é isso, tem um lado humano, o Plano Piloto, o centro das cidades satélites, e o lado desumano daqueles que vivem no Entorno em situações adversas. Ainda assim, acho que o povo tem que comemorar porque foi uma epopeia o nosso Juscelino cumprir e ter coragem de fazer uma coisa pensada em 1823. Não era fácil tirar a capital do Rio de Janeiro”. Comemoremos, pois, com os versos do Vinícius de Moraes! Saudações, Brasília! “Terra de irmãos, ó alma brasileira...Terra-poesia de canções e de perdão, terra que um dia encontrou seu coração”, no meu coração. Parabéns brasilienses! (por Sílvio Benevides)
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Imagem: Memorial JK (Brasília), por Sílvio Benevides.