segunda-feira, 16 de março de 2009

Ou vai ou racha

A atual crise financeira nos mercados mundiais está obrigando aos arautos do neoliberalismo a rever seus valores. O que estaria acontecendo? Estariam esses arautos sob a influência de algum caboclo ou do espírito santo. Nem uma coisa, nem outra. A crise revelou os limites do mercado e a necessidade urgente de seu controle. Deixá-lo seguir desabaladamente sem nenhum ou pouco controle tem se revelado uma verdadeira tragédia anunciada. Para refletir sobre isso, trouxe para esse espaço o texto abaixo retirado do sítio do jornal Último Segundo.

Obama quer bloquear o pagamento de bônus aos dirigentes da AIG
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Obama classificou nesta segunda-feira como “degradante” o fato de a seguradora AIG ter pago US$ 165 milhões em bônus a diretores da companhia. O presidente icumbiu o secretário do Tesouro, Timothy Geithner, a explorar todas as formas legais para bloquear o pagamento.

Em declarações na Casa Branca por ocasião da apresentação de um plano para ajudar as pequenas empresas, Obama afirmou que esses bônus, concedidos depois que AIG pediu ajuda ao governo para sobreviver, “ressalta a necessidade de uma reforma exaustiva no sistema regulador financeiro”.

Edward Liddy, executivo-chefe da AIG, considerou o pagamento dos bônus “desagradável”, mas disse que a seguradora é obrigada por contrato a fazê-los.

“Essa é uma corporação que se encontra em dificuldades financeiras devido à imprudência e à ganância”, disse Obama. “Sob tais circunstâncias, é difícil entender como operadores de derivativos justificam qualquer tipo de bônus, e muito menos US$ 165 milhões em pagamentos extras. Como eles justificam esse escândalo para os contribuintes que estão mantendo a empresa viva?”, questionou o presidente.

“Nos últimos seis meses, a AIG recebeu somas substanciais do Tesouro dos EUA”, diz a declaração de Obama. “Pedi ao secretário Geithner para perseguir todos os modos legais para bloquear esses bônus”, diz a declaração. “Não é apenas uma questão de dólares e centavos. É sobre nossos valores fundamentais”, disse o presidente norte-americano. “Em todo o país há pessoas que trabalham duro e cumprem suas responsabilidades todos os dias, sem o benefício de pacotes de socorro do governo ou bônus multimilionários. E todas as pessoas querem que todos, na economia real, no mercado financeiro e em Washington, joguem sob as mesmas regras” (Fonte: Último Segundo)
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É preciso estar atento e forte

Recebi o artigo abaixo por e-mail. Seu autor, um pesquisador dos movimentos juvenis, especialmente do movimento estudantil, vinculado à Universidade Federal de Pernambuco, tece sérias críticas à União Nacional dos Estudantes (UNE) e sua suposta íntima relação com as estruturas políticas do atual governo. Não é de hoje que governantes ora tentam neutralizar líderes de movimentos sociais, ora tentam cooptá-los, o que, em última instância, nada mais é do que uma maneira sutil de neutralizá-los. Com o governo Lula não poderia deixar de ser diferente. O que poderia haver de errado, então, com essa suposta relação UNE-Governo? Duas coisas: a primeira diz respeito aos recursos públicos destinados à reconstrução histórica de uma entidade que representa apenas um aspecto das lutas estudantis e juvenis. A UNE foi muito importante em outras décadas, mas hoje, penso que ela precisa rever seu papel na sociedade. O passado é importante, mas viver preso a ele indefinidamente não é saudável para ninguém. Dinheiro público é coisa muito séria e precisa ser rigorosamente fiscalizado e aqueles que dele se utilizam precisam sim explicar minuciosamente e exaustivamente para a sociedade onde tais recursos são aplicados. Segundo, deixar-se cooptar por governos pode significar o fim dos movimentos sociais, que precisam ser independentes dessas estruturas para que seu grito de protesto e indignação não seja abafado. Digo isso porque está na hora de os estudantes retomarem seu lugar na história do presente e do futuro. Reflitamos sobre essas questões (por Sílvio Benevides).

O joio e o trigo

O Estado Brasileiro está desperdiçando recursos públicos com a UNE, em nome de uma reconstituição histórica, que não é feita, para uma entidade que teve uma importância inquestionável no passado, mas que hoje é mesquinha, silenciosa, despreparada para debater as questões nacionais, implacável com os movimentos da juventude e totalmente alheia ao conjunto de oprimidos e oprimidas de nosso País.

Num artigo da presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) intitulado “Ontem e hoje: UNE em defesa da educação e contra a criminalização dos movimentos sociais”, postado no site da entidade, quando afirmou que “nesta semana os movimentos sociais estão sofrendo um verdadeiro ataque midiático, com pouca fundamentação, muita especulação e, especialmente, uma forte carga de intenção em desacreditar os lutadores e lutadoras do povo brasileiro”, a intenção é fazer acreditar que UNE, MST e centrais Sindicais estão em pé de igualdade na defesa dos interesses dos seus representados, na defesa da democracia e da justiça social e no tom das críticas recebidas da imprensa. Qual luta a UNE empreendeu nos últimos seis anos em defesa do povo brasileiro? A luta tem sido intransigente na defesa dos interesses pessoais do grupo majoritário que coordena a UNE (leia-se PC do B). E não é em benefício do povo brasileiro. A UNE deveria estar comemorando por existir pouca ação do Poder Judiciário para reaver os recursos públicos utilizados de forma tão mesquinha pela entidade. Ou por sair apenas uma crítica ali, uma pequena matéria acolá e haver a insatisfação silenciosa de milhões de brasileiros/as que estão pagando uma conta tão alta para beneficiar tão poucos.

É notório que o governo Lula está liberando recursos do povo para a UNE sem critérios públicos, mas pessoais e partidários. Por qual motivo que outras entidades estudantis, grupos juvenis ou projetos de jovens populares nada recebem? Criticar a imprensa é o modo mais mesquinho e covarde, principalmente se apoiando na luta do MST que, com todos os seus problemas e dificuldades, não se vendeu ou abandonou por completo as suas bandeiras históricas e a sua base de representados, como a UNE fez nos últimos anos. Vamos separar o joio do trigo (por Otávio Luiz Machado).
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Imagem retirada da internet. Autoria não encontrada.

segunda-feira, 9 de março de 2009

Enquanto os homens exercem seus podres poderes...

Na última semana recebi de um amigo uma mensagem eletrônica divulgando o documentário Erased, wipe off the map (vide trecho abaixo) sobre a ofensiva bélica de Israel contra Gaza iniciada em dezembro passado e terminada (?) em janeiro deste ano. Não quero saber quem tem razão ou quem não tem nessa história torpe (guerras são sempre torpes). O fato é que após a retirada das tropas israelenses da Faixa de Gaza o saldo final (?) do conflito, de acordo com dados do Ministério da Saúde local e da ONU, é de mais de 1.300 pessoas assassinadas em 22 dias de ataques. Destas, ao menos 300 eram crianças. Os feridos ultrapassam a marca de 5.500. A infra-estrutura da região que já era precária piorou ainda mais. Com isso, o risco de epidemias é uma possibilidade bastante provável. Sem falar nas escolas, hospitais, postos de saúde e tantos outros serviços básicos que viraram escombros por conta dos bombardeios. Segundo informações do Le monde Diplomatique Brasil (n.19 – Fev. 2009) “dois terços das vítimas da ofensiva israelense não eram combatentes [do Hamas] e um terço tinha menos de 18 anos”. Navegando pela rede encontrei dois textos que quero compartilhar com os leitores daqui. O primeiro é de autoria do José Saramago. O segundo, do jornalista Gustavo Chacra. A proposta em trazer os textos mencionados assim como o trecho do documentário para esse espaço é estimular a reflexão sobre esse tema, do qual não podemos nos furtar. Afinal, enquanto os homens exercem seus podres poderes, o mundo segue em descontrole. E é justamente esse descontrole que gera todo tipo de violação de direitos, intolerância, devastação, horror e desrespeito que a todos ameaça, não importando o quão distantes dos conflitos nós estejamos (por Sílvio Benevides).
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GAZA
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A sigla ONU, toda a gente o sabe, significa Organização das Nações Unidas, isto é, à luz da realidade, nada ou muito pouco. Que o digam os palestinos de Gaza a quem se lhes estão esgotando os alimentos, ou que se esgotaram já, porque assim o impôs o bloqueio israelita, decidido, pelos vistos, a condenar à fome as 750 mil pessoas ali registradas como refugiados. Nem pão tem já, a farinha acabou, e o azeite, as lentilhas e o açúcar vão pelo mesmo caminho. Desde o dia 9 de Dezembro os caminhões da agência das Nações Unidas, carregados de alimentos, aguardam que o exército israelita lhes permita a entrada na faixa de Gaza, uma autorização uma vez mais negada ou que será retardada até ao último desespero e à última exasperação dos palestinos famintos. Nações Unidas? Unidas? Contando com a cumplicidade ou a cobardia internacional, Israel ri-se de recomendações, decisões e protestos, faz o que entende, quando o entende e como o entende. Vai ao ponto de impedir a entrada de livros e instrumentos musicais como se se tratasse de produtos que iriam pôr em risco a segurança de Israel. Se o ridículo matasse não restaria de pé um único político ou um único soldado israelita, esses especialistas em crueldade, esses doutorados em desprezo que olham o mundo do alto da insolência que é a base da sua educação. Compreendemos melhor o deus bíblico quando conhecemos os seus seguidores. Jeová, ou Javé, ou como se lhe chame, é um deus rancoroso e feroz que os israelitas mantêm permanentemente atualizado (por José Saramago).
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SUL DO LÍBANO TEVE DESTRUIÇÃO MAIOR, MAS FAIXA DE GAZA É MAIS TRISTE
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Visitei o sul do Líbano depois da guerra envolvendo Hezbollah e Israel, em 2006, e a Faixa de Gaza, após o conflito dos israelenses contra o Hamas. O território libanês sofreu maior destruição, mas o cenário na área palestina é mais triste. Os moradores das regiões controladas pelo Hezbollah puderam fugir para Beirute, Sidon e mesmo para a Síria. Foram acolhidos. A ajuda humanitária já estava no Líbano, podia entrar através da fronteira com o território sírio ou mesmo pelo mar. Muitos civis morreram, é verdade. Mas a população pôde viver por um bom tempo longe dos destroços e dos corpos não recolhidos, além de ter o apoio imediato do Qatar, do governo libanês e do próprio Hezbollah para reconstruir as suas cidades. Não sofriam com o bloqueio. Eram pessoas que tinham para onde ir.

Gaza é bem maior do que as vilas libanesas, como Bint Jbeil, onde não vi uma construção sequer de pé. Apesar da enorme devastação no território palestino, há áreas que não sofreram tanto com os bombardeios. Mas os moradores estiveram o tempo todo debaixo das bombas, no meio do tiroteio, sem ter para onde fugir e tampouco em condições de receber ajuda. Se em Qana havia dezenas de jornalistas e fotógrafos para registrar o ataque que matou cerca de 30 libaneses, nenhum olhar pôde relatar para o mundo como foi o ataque israelense que matou dezenas de uma mesma família em Zeitoun. Chegamos uma semana atrasados. Vimos as galinhas mortas, mas não os corpos de palestinos que morreram por não ter como deixar a prisão controlada pelo Hamas onde vivem.

Lembro que, no sul do Líbano, Israel tampouco abriu a sua fronteira. E ninguém pediu. Primeiro porque os israelenses não têm qualquer obrigação no sul do Líbano, que é parte de um país independente. Com Gaza, Israel tem, pois impede o uso do mar e do espaço aéreo – sei que é por questões de segurança, mas isso não elimina a responsabilidade israelense. Em segundo lugar, porque a Síria, ao contrário do Egito, abriu as suas portas. Assim como fez com os refugiados iraquianos, recebidos com todo o apoio do regime de Bashar Al Assad. Hosni Mubarak lacrou Rafah (por Gustavo Chacra).
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RISCADA DO MAPA
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O documentário – Em dezembro de 2008 o movimento Free Gaza saiu de Chipre em direção à Palestina. Nosso objetivo era romper o bloqueio israelense na Faixa de Gaza. Fomos os últimos estrangeiros que conseguiram entrar e ficar em Gaza. Nos vimos diante de algo que ninguém esperava encontrar (Fonte: Vimeo)

TÍTULO: ERASED, WIPE OFF THE MAP
DIREÇÃO: ALBERTO ARCE - MIGUEL LLORENS
MONTAGEM: OLAF GONZÁLEZ
PRODUÇÃO EXECUTIVA: CHRISTIAN SEBASTIÁN - JOSÉ CARLOS DÍAZ.
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Erased-Wiped off the map from C.I. COMUNICACIÓN on Vimeo.

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Imagem retirada da internet - autoria não encontrada.

segunda-feira, 2 de março de 2009

Da série CURIOSIDADES URBANAS

A Cruz do Pascoal

Localizada no Centro Histórico de Salvador, no bairro do Santo Antônio Além do Carmo, em um pequeno largo na entrada da Rua Direita de Santo Antônio, a Cruz do Pascoal é um oratório público de sete metros de altura erguido em 1743 pelo comerciante lisboense, Sr. Pascoal Marques de Almeida, em homenagem a Nossa Senhora do Pilar como retribuição a uma graça alcançada. O monumento possui base em cantaria de arenito, sobre a qual se sustenta uma coluna toscana construída em alvenaria e revestida de azulejos do século XVIII. Na parte superior da coluna de arenito encontra-se o nicho de Nossa Senhora do Pilar, inspirado nas torres sineiras das igrejas baianas de estilo barroco, em cujas quinas estão aplicadas pequenas colunas com terminação em esferas de louça. Por cima do nicho, uma pequena cruz. Ao redor de todo o marco há um gradil de ferro colocado em 1874.

Consta que o local onde se encontra a Cruz do Pascoal já era um ponto de reza antes mesmo da construção do marco. Com a sua edificação o local virou um ponto de peregrinação para onde levas de pessoas se deslocavam apenas para rezar. De acordo com a Fundação Gregório de Matos, uma das primeiras referências à Cruz do Pascoal é de Afrânio Peixoto: “É um dos monumentos mais expressivos e pitorescos da Bahia. A este recanto pacífico da Bahia se visita para ver este monumento de fé ingênua e pitoresca expressão. É um símbolo dessa fé que, no meio da vida nos interrompe constantemente, no caminho, lembrando dever e destino, numa mudez pacífica que não deixa de acordar memórias e obrigações. A gente se benze, mas não esquece a Cruz do Pascoal” (In: Fundação Gregório de Matos).

Sobre o Sr. Pascoal Marques de Almeida não se sabe muito. Uma das poucas referências a ele foi encontrada em artigo de Marina Massimi intitulado “Sermões Quaresmais e conhecimento de si mesmo”. Diz o texto: “[...] o culto à Nossa Senhora da Porta do Céu é importado de Portugal, sendo porém já praticado na Igreja oriental, visando propiciar a ajuda de Maria para alcançar a entrada na Porta do Paraíso, mas também para auxiliar na compra ou na locação de imóveis. Relata Megale que no Brasil, o culto iniciou-se na Igreja do Carmo em Salvador, “este título mariano já existia em Portugal, pois frei Agostinho de Santa Maria refere-se à milagrosa imagem deste orago de Maria, muito querida pela população de Lisboa. Dizia ele que o príncipe D. João de Candia, mais conhecido como “Príncipe Negro”, por ser da ilha de Ceilão, edificou um convento na capital portuguesa para os irmãos franciscanos enfermos, dedicando sua igreja a Nossa Senhora das Portas do Céu, “para obrigar a Rainha dele lhe conceder o poder de entrar por suas portas. (...) De Portugal, este original título de Maria passou para o Brasil, trazido, segundo dizem, por Pascoal Marques de Almeida”.

Outra referência ao lisboense Pascoal Marques de Almeida pode ser encontrada na tese de doutoramento de André Luiz Tavares Pereira (p.279): “Nossa Senhora da Porta do céu, Porta do Paraíso ou Chave do Reino de Cristo é devoção fundada e cultivada pelos cristãos orientais. Chega ao Brasil por intermédio de um português identificado como Pascoal Marques de Almeida” (por Sílvio Benevides).
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Foto: Sílvio Benevides

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Será que o carnaval é para todos? Onde?

Disse que não iria falar do carnaval de vitrine e ganância que se transformou o carnaval de Salvador. Mas não resisti ao comentário de Papillon e resolvi dar-lhe mais destaque por concordar plenamente com suas palavras. Faço apenas um acréscimo: como se não bastasse o fato de o carnaval soteropolitano ser segregacionista, pois fez das cordas e camarotes um mecanismo muito eficiente de separação social, alerto para o fato de que toda a riqueza por ele gerada não se reverte em benefícios concretos para a cidade. Não conheço, por exemplo, nenhuma praça, rede de esgoto, escola, posto de saúde ou hospital ou qualquer outro serviço de interesse da coletividade recuperado ou construído com o dinheiro gerado pela festa, cuja organização recebe muitos incentivos oriundos dos cofres públicos. Reflitamos sobre isso também (por Sílvio Benevides).

O desabafo de Papillon

É mesmo impossível não falar do carnaval!! Afinal, estamos bombardeados por ele quase que 100% por dia. Mesmo distante das ruas alimentamos essa máquina de fazer dinheiro de alguma maneira. Temos carnaval nos canais de TV, nos jornais e mesmo aqui na internet. Mas como bem fez Silvio devemos e podemos mudar o discurso dessa festa como sendo apenas a festa da felicidade!! Vamos questionar essa felicidade? Para quem é o carnaval hoje? Por que é assim? Cadê o carnaval que era do povo? Quem é esse “todos” para qual o carnaval foi feito?

Eu concordo com Silvio sobre a segregação, mas acho que não devemos calar sobre o carnaval e sim alertar para essa segregação que ocorre no carnaval!! O que a TV mostra como Salvador a terra do carnaval democrático, nós soteropolitanos sabemos que a frase deve ser outra. Salvador virou a empresa do carnaval e aqui diverte-se quem paga mais. Você tem dinheiro? Então venha para o carnaval da Bahia!!

Nós soteropolitanos, saímos das ruas para abrir espaço para o turista que chega do Brasil e do mundo com seu dinheiro para pagar os blocos protegidos por uma corda humana!! Como assim cordas humanas? Cordas formadas por Homens e Mulheres, que na sua maioria são negros. O que eles fazem? Eles estão ali sendo explorados na sua força física, algo que lembra demais a situação dos escravos com seus senhores!! E por receberem o pouco dinheiro que recebem para fazer esse “trabalho”, muda a nomenclatura. Eles são agora conhecidos como “cordeiros” e, assim, não são escravos!??! Muito diferente, não acham? Sim, o que mesmo fazem os “ cordeiros”? Fazem essa corda humana para separar(segregar) os que estão dentro dos que estão fora dos blocos. Eles fazem isso por dinheiro, por sobrevivência e por essa sobrevivência são explorados ao máximo. Você já se perguntou quanto ganha um cordeiro por dia? E quanto ganha o cantor? E quanto ganha o empresário? Quanto se paga para sair no bloco protegido por “cordeiros”? Acho que você não vai gostar muito de saber. Bem, mas um cordeiro não ganha 1/3 de um salário mínimo para sair todos os dias puxando a corda do bloco protegendo as pessoas. E um bloco, a depender da fama da sua atração principal, cobra de seu associado para sair protegido por esse “cordeiro” 4 vezes o valor de um salário mínimo em alguns blocos. Você acha isso democrático? Mas, você pode pensar: mas quem não tem dinheiro vai para rua e se diverte também com as atrações e de graça! Engana-se!! Não é possível fazer isso com as cordas que tomam os espaços das ruas e para piorar a situação quem não gosta de fazer o percurso do blocos correndo atrás do trio protegido dentro das cordas tem a nova opção de segregação que são os camarotes que também cobram fortunas de quem deseja entrar e ficar assistindo protegido da violência. Isso é uma nova separação social!! Os camarotes lotados por quem tem dinheiro tomam conta das calçadas e com isso acaba o espaço da rua e da calçada para quem não tem dinheiro. Então como falar de um carnaval democraticamente correto? Tenta você ir na rua e depois me diz!!

Então como ficam os que não tem mais espaço nas ruas para fazer uma “pipoca” (pipoca são as pessoas que pulam feito pipoca, mas sem a proteção das cordas) animada? Ou seja, ou cedemos à pressão empresarial com sua segregação ou nos retiramos da cena e damos lucro às mídias televisivas ou os que gostam muito da festa se sacrificam para pagar um bloco ou camarote para curtir de alguma maneira a festa que se diz “popular”....Claro que para os corajosos ainda se acha um cantinho apertado para dar uma olhadinha , uma espiada em seu cantor favorito. Sendo que para isso se deve ter coragem porque a violência fica justamente para quem está fora das cordas e das proteções dos camarotes. Eu ontem arrisquei essa experiência da pipoca!! Bem, saí muito cedo de casa para uma pequena espiada! As ruas tomadas por camarotes, as cordas, apertos e a violência. Voltei para a segurança da casa e fui falar com amigos que como eu fizeram a mesma escolha. O carnaval não é para todos mesmo!!! (por Papillon)
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Imagem : Delmiro Júnior

sábado, 21 de fevereiro de 2009

O coração do mundo bate aqui?

Não! Não vou falar do carnaval de Salvador. Não vou falar de um carnaval que no discurso democraticamente correto prega a mistura, mas nas ruas o que se vê é a prática da segregação. São cordas para todos os lados. São camarotes à exaustão, de preços cada vez mais elevados, pois o que interessa é encher as burras de poucos e agradar quem traz dinheiro à mão. Não! Não me interessa esse carnaval de vitrine que oprime quem não pode ou não deseja pagar caro para se divertir ou simplesmente gozar a vida sem dar bola para a televisão. Quero meu carnaval de volta!
(por Sílvio Benevides)

Em clima de carnaval, Tobby entrevista um guru oriental, que faz incríveis previsões para o carnaval. É pra ver e se divertir, afinal, é tempo de sorrir!
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Imagem: logomarca oficial do carnaval de Salvador 2009

segunda-feira, 16 de fevereiro de 2009

Brasil amado

O Brasil, oficialmente nomeado República Federativa do Brasil, é uma nação formada pela união de 26 estados federados e pelo Distrito Federal. O país conta com mais de 5 mil municípios, cerca de 190 milhões de habitantes e uma área superior a 8 milhões de quilômetros quadrados, equivalente a 47% do território de toda a América do Sul. Em comparação com outros países, o Brasil dispõe do quinto maior contingente populacional e da quinta maior área territorial do planeta. Sua economia é a nona maior do mundo e a maior da América Latina. Há quem diga que por conta desses dados o Brasil tem hoje forte influência internacional, tanto em âmbito regional quanto global. O País possui cerca de 20% da biodiversidade mundial, sendo exemplo desta riqueza a Floresta Amazônica, com 3,6 milhões de quilômetros quadrados. Números impressionantes que despertam a cobiça de alguns e a outros estarrecem. Como pode um país como esse, detentor de tantas potencialidades, permitir que a miséria ainda faça parte do cotidiano de boa parte da sua população? No Brasil os números sempre impressionam, seja para mais ou para menos. Mas não é desse Brasil que desejo falar. Ao menos não nesse momento. Quero falar de um Brasil que me percorre por dentro, tornando fértil o chão que me sustenta. Brasil que eu amo, não porque seja minha pátria, como escreveu o Mário de Andrade, abaixo reproduzido, afinal “pátria é acaso de migrações e do pão-nosso onde Deus der”. Brasil que eu amo, pois como escreveu um outro poeta genuinamente brasileiro, o João Cabral de Melo Neto, desse chão sou bem conhecido através de parentes e amigos dos mais próximos aos mais longínquos. Porque a partir desse chão erigi-me feito uma palmeira que só enxerga o céu onde há mais estrelas. Esse chão que me espera de recém-nascido bebeu meu suor vendido e aquele vertido no “balanço das minhas cantigas, amores e danças”. É o Brasil dos becos, do pandeiro, das violas, minhas violas, do samba-de-roda, do samba-enredo, da capoeira de Angola, do maculelê, do sarapatel, do dendê, da caipora, do caruru, do curupira, do vatapá, da iara bonita, do boto cor-de-rosa, da Yemanjá, do cuzcuz com leite e ovos no café da manhã, do cantarolar das araras, do balanço das ondas, do barulho incessante das ruas, do aimpim com carne do sol, da lua cheia nas folias de reis, das fogeuiras e traques do São João, dos coqueiros de Itapuã, dos trios elétricos, da água de côco na Praia do Flamengo, da sorveteria da Ribeira, da doce batida do coração materno. É esse o Brasil que sou. É esse o Brasil que quero (por Sílvio Benevides).
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Baseado em trecho do texto de Mário de Andrade (reproduzido adiante), produzi o clipe abaixo, intitulado BRASILEIRINHO, para declarar meu amor pelo Brasil que sou.
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O POETA COME AMENDOIM
(Mário de Andrade)
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Noites pesadas de cheiros e calores amontoados...
Foi o sol que por todo o sítio do Brasil
Andou marcando de moreno os brasileiros.
Estou pensando nos tempos de antes de eu nascer...
A noite era pra descansar. As gargalhadas brancas dos mulatos...
Silêncio! O imperador medita os seus versinhos.
Os Caramurus conspiram à sombra das mangueiras ovais.
Só o murmurejo dos cre'm-deus-padre irmanava os homens de meu país...
Duma feita os canhamboras perceberam que não tinha mais escravos,
Por causa disso muita virgem-do-rosário se perdeu...
Porém o desastre verdadeiro foi embonecar esta República temporã.
A gente inda não sabia se governar...
Progredir, progredimos um tiquinho
Que o progresso também é uma fatalidade...
Será o que Nosso Senhor quiser!...
Estou com desejos de desastres...
Com desejo do Amazonas e dos ventos muriçocas
Se encostando na canjerana dos batentes...
Tenho desejos de violas e solidões sem sentido...
Tenho desejos de gemer e de morrer...
Brasil...
Mastigando na gostosura quente do amendoim...
Falado numa língua curumim
De palavras incertas num remelexo melado melancólico...
Saem lentas frescas trituradas pelos meus dentes bons...
Molham meus beiços que dão beijos alastrados
E depois semitoam sem malícia as rezas bem nascidas...
Brasil amado não porque sejam minha pátria,
Pátria é acaso de migrações e do pão-nosso onde Deus der...
Brasil que eu amo porque é o ritmo no meu braço aventuroso,
O gosto dos meus descansos,
O balanço das minhas cantigas amores e danças.
Brasil que eu sou porque é a minha expressão muito engraçada,
Porque é o meu sentimento pachorrento,Porque é o meu jeito de ganhar dinheiro, de comer e de dormir.
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Imagem: Papagaio, foto de Danilo Chequito

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2009

Ictu oculi

Em visita a Salvador pela primeira vez, uma amazonense de Manaus nos relata o que seus olhos perceberam sobre a Cidade da Bahia e sua gente. O Salvador na sola do pé agradece a valorosa colaboração da Paula Barros, a amazonense em questão. Valeu, Paula!
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Minha visita à cidade de Salvador
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Salvador é uma cidade linda! Seis dias nessa terra e pude chegar a esta conclusão. Claro que para conhecer melhor tudo o que a cidade tem pra oferecer, precisaria de mais tempo. À primeira vista me encantei com as praias. Salvador possui o litoral mais extenso do Brasil, me informaram! Visitei apenas três delas. Além do mar, os recifes de corais me impressionaram e o que dizer das palmeiras (coqueiros)? Elas ornamentam a maioria das praias da cidade. Pude conhecer também um pouco de sua história, visitei o Pelourinho, esse me deixou encantada com suas ruas, casarões e igrejas cheias de histórias pra contar! Gostaria muito de ter voltado outra vez lá, mas não foi possível, fica então para uma próxima visita! As pessoas dessa terra também me impressionaram por sua alegria, os baianos sabem como ninguém fazer festa, e por sua beleza: mulheres, crianças e homens de cores lindas, maravilha de olhar! Salvador, como toda cidade grande possui problemas, mas nenhum tira o charme dessa cidade que me encantou e deixou uma vontade enorme de voltar novamente! (por Paula Barros)
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Imagem: Gina Carla

Para inteirar-se


Salvador não é uma ilha isolada do resto do mundo, sendo assim para que nos inteiremos dos assuntos que nos circundam e que também nos dizem respeito, o Salvador na sola do pé indica um blog muito legal. Estou a falar do Pa’k te enteres, cuja proposta é a mesma deste blog daqui, isto é, fazer pensar, fazer refletir. Boa Leitura.

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2009

Dia de festa no mar

Como nos lembra o Dorival Caymmi dia dois de fevereiro é dia de festa no mar porque é o dia de reverenciar a mãe de todos os orixás, a senhora do mundo, Yemanjá!

A adoração a Yemanjá, como também aos demais orixás, foi trazida para o Brasil pelos negros africanos que aqui aportaram para trabalhar como escravos nas lavouras de cana-de-açúcar. Na África, de acordo com Pierre Verger (Orixás. São Paulo: Corrupio, 1981), o culto à mãe dos orixás se concentrava na região entre Ifé e Ibadan, banhada pelo rio Yemanjá, território do povo Egbá, uma nação Yorubá. Sucessivas guerras entre nações Yorubás forçaram o povo Egbá a migrar rumo ao oeste, em direção a Abeokutá, onde passaram a reverenciar Yemanjá no rio Ogum, cujo nome não deve ser confundido com o nome do orixá ferreiro, senhor dos metais. Em terrras brasileiras o culto a Yemanjá se voltou para os mares. É para as águas salgadas do Atlântico que os devotos daqui se dirigem quando desejam se unir e exaltar a generosa senhora.

Na soteropólis as homenagens a Yemanjá ocorrem no bairro do Rio Vermelho, onde uma multidão de fiéis (e não fiéis também) se dirige com o intuito de pedir benção, proteção e favores, assim como para render reverências e louvores à digníssima dama dos oceanos. A festa de Yemanjá em Salvador é genuinamente africana. Nela não ocorrem cruzamentos entre elementos de diferentes tradições mítico-religiosas, como nas demais festas populares da cidade. Entretanto, isso não impede que devotos das mais variadas crenças se misturem no dia dos festejos, afinal eles acontecem na Bahia e os baianos, no geral, não se prendem a rigorosos rigores do tipo ou isto ou aquilo simplesmente. No dia dois de fevereiro muitos baianos se dirigem à praia do Rio Vermelho para saudar Yemanjá seja com um grande balaio repleto de magníficos presentes, seja com uma pequena flor. O que importa mesmo é a intenção do louvor, isto é, ser feliz. Odô Iyá, Yemanjá! (por Sílvio Benevides)
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Ao dois de fevereiro
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O vídeo abaixo foi produzido por Coccinelle especialmente para o Salvador na sola do pé em homenagem ao dia 02 de fevereiro, dia de festa no mar, dia de Yemanjá!
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Foto: Sílvio Benevides